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sábado, janeiro 23, 2021

O melhor negócio do mundo

Desde janeiro de 2001, repetimos este título na semana que compreende o dia 17, pois nesta data, com este título, começou a ser editada a coluna Empresa-Cidadã. Estamos, portanto, ingressando no 21º ano de existência. De lá para cá, muita coisa mudou. O próprio título, “O Melhor Negócio do Mundo”, já não seria utilizado, senão em casos especiais, como o desta edição festiva. Emergimos de uma fase ingênua quanto aos conceitos de responsabilidade social, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável, bem como quanto à finalidade de uma corporação privada.

Uma empresa privada serve para quê? Para dar lucro aos seus acionistas ou proprietários, dirão alguns em um extremo das opiniões. Esta seria uma racionalidade única? Não, diriam outros. Servem também para gerar empregos e impostos e que para sobreviver na realidade complexa da atmosfera terrestre dos negócios; outras habilidades são requeridas e desenvolvidas, como a capacidade de cooperar, de ser solidário, de negociar com “fairtrade”, e de se preocupar com as condições ambientais, da extrema concentração inerente e inevitável do modo capitalista de produzir.

 

Fragilidade

“O tempo abre todas as feridas” (John Lennon)

De 1861 a 1865, na América do Norte, estados confederados destacaram-se daquilo que se formara como os Estados Unidos da América. Em decorrência da guerra, conhecida como Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Norte-americana, morreram cerca de 700 mil pessoas. Outro resultado da Guerra, que terminou com a apresentação da rendição ao gen. Ulysses Grant (União), pelo gen. Robert Lee (Confederação), foi a abolição da escravidão negra, beneficiando cerca de 4 milhões de pessoas – quase todas no Sul (agrícola) – enquanto o Norte se industrializava e tinha por isso, interesse econômico direto na abolição.

O novo ciclo político e econômico aberto no pós-Guerra Civil, com algo análogo a um colonialismo interno, negligenciou iniciativas de convivência, resultando em focos de fogo-fátuo que ardiam pelo Sul, com expressões de ódio e inconformismo lideradas institucionalmente (exemplo: Ku Klux Kan), ou pessoalmente (exemplo do governador George Wallace, Alabama/AL), incinerando, desde aquela época, as possibilidades de construção de um país unificado.

Bastou uma liderança tresloucada, para exibir toda a fragilidade da “maior democracia do mundo”. Inconformado com a derrota eleitoral inequívoca, o presidente Trump tornou-se um Juan Guaidó alaranjado, que não quer mais brincar disso, pega os brinquedos e sai do playground. Não sem antes convocar um rebanho “sem-noção” que ataca o Capitólio, enche os espaços com bandeiras dos confederados e causa as mortes de mais quatro pessoas. Deixou a pé fatia significativa do partido Republicano, que até a National Association of Manufacturers (NMA, 14 mil empresas associadas), uma espécie de Confederação Nacional de Indústrias (CNI) de lá, reclamou, ameaçou retirar financiamentos de campanhas, deu enfim. O CEO da NMA, Jay Timmons, em nota distribuída na tarde do dia 6 de janeiro, assim resumiu a posição da “violenta tormenta” desferida pelos adeptos de Trump: “Este não é o ideal de país que o setor produtivo acredita e trabalha duro para defender.”

A representação simbólica é forte. Mesmo com as mortes de cerca de 700 mil pessoas na Guerra de Secessão, nunca a bandeira dos confederados havia sido hasteada na capital. O mais próximo que chegaram foi Fort Steven, antigo Fort Massachussetts, no limiar do Distrito de Columbia/D.C., mas os confederados não conseguiram ultrapassá-lo, nem entrar na capital.

Ainda no campo da representação, o estado da Georgia/G.A. elegeu os senadores Raphael Warnock, primeiro negro a conquistar uma cadeira no Senado na sua história, e Jon Ossoff, judeu, em meio a um mar de símbolos nazistas utilizados pela turba. A eleição destes senadores conferiu ao presidente eleito, Biden, aos 45 do segundo tempo, uma inesperada maioria de votos também no Senado. Com maioria nas duas casas, o presidente Biden passa a ter maioria no Congresso. Se mexer na aritmética da Suprema Corte, aumentando o número de juízes, como é provável, enfeixará uma carga de poder poucas vezes vista entre presidentes norte-americanos.

Estariam os EUA diante da volta dos mortos-vivos ou, ao contrário, vendo a agonia nos movimentos do cardume cujo lago subitamente secou?

 

Boi de piranha e abutres

Quando se anuncia o reajuste do salário mínimo abaixo da inflação, negligenciando assim a utilização de uma das mais eficientes ferramentas para conter a fantástica concentração da renda no Brasil; quando se nega o direito à atualização da tabela do desconto do Imposto de Renda na fonte, onde ela está atolada há quatro anos; quando se anuncia a inflação acima da média e concentrada no item alimentos, injuriando com isso as camadas mais necessitadas da população, arriscam-se os mesmos de sempre a clamar por coisas que não tem nada a ver com a retirada da Ford Motors Company do Brasil, mais uma vez. A empresa passa por um processo internacional de ajuste estrutural, premida pela necessidade de rápida adaptação às mudanças tecnológicas previstas para o setor.

A Ford que se despede agora não é a primeira Ford que aqui se instala. Houve a primeira em 1919. Houve outra, junto com a Autolatina, há a atual… boi de piranha para dar um argumento aos abutres que, em seguida, cantam e decantam que a empresa, mais uma vez retirante, é vítima da ausência de reformas. Logo a Ford, beneficiária de tanta renúncia fiscal da União e de estados.

Uma empresa privada serve para quê?

Sei não… acho bom revistar as mochilas na saída. Tem que devolver um R$ 20 bilhões. Por baixo.

Leia mais:

‘Black lives matter’; inclusive na Cidade de Deus

Maradona é melhor que Pelé?

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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