O memorialista Affonso Arinos de Mello Franco

Por Paulo Alonso.

Opinião / 17:36 - 26 de mar de 2020

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Nesses tempos tristes em que o noticiário se ocupa principalmente pela necessária divulgação do novo coronavírus, doença que afeta o planeta, ainda que uns e outros, como o presidente Bolsonaro, se refira a essa pandemia como um simples “resfriadinho”, pouco se noticiou sobre a morte do embaixador Affonso Arinos de Mello Franco, ocorrida no último dia 15 de março, aos 89 anos.

O diplomata, nascido em Belo Horizonte, foi o sexto ocupante da cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1999, sucedendo ao filólogo Antonio Houaiss e tendo sido recebido pelo acadêmico José Sarney, hoje o mais antigo acadêmico da ABL.

 

Escreveu o Capítulo dos Direitos

Individuais da Constituição de 1988

 

De acordo com o atual presidente da ABL, Marco Lucchesi, Mello Franco foi um memorialista de águas cristalinas, dotado de profunda intuição e, como poucos, compreendeu o sentimento do tempo, a longa duração diante da impermanência.

O acadêmico foi igualmente um virtuoso ensaísta, além de um historiador primoroso, sempre atento às raízes do Brasil. Na sua caminhada, escreveu várias obras de igual calibre e importância, como Primo canto; Três faces da liberdade; Atrás do espelho; Introdução ao Brasil Holandês; Tempestade no altiplano; Adeuses, Ribeiro Couto e Afonso Arinos; Organização e introdução de Affonso Arinos no Congresso; Diplomacia independente: um legado de Afonso Arinos; Perfis em alto-relevo; Pelo sertão: histórias e paisagens; Mirante; e Tramonto, escrita em 2013 e sua última publicação.

Affonso Arinos de Mello Franco diplomou-se em Direito, entrando para o Instituto Rio Branco, na década de 50. Iniciou sua carreira, em 1952, como cônsul de terceira classe. Nessa mesma época, conclui o seu doutorado, na área de Direito Público. Serviu em vários países, como Itália e Bélgica.

Além de diplomata hábil, às suas funções e cargos no Itamaraty, atuou como jornalista na Revista Manchete, correspondente do Jornal do Brasil em Roma, passando pela Tribuna da Imprensa, Revista Fatos e Fotos, Jornal do Commercio e ainda emprestando sua erudição e inteligência para a Enciclopédia do Brasil Ilustrada. Também escrevia artigos para o Correio Braziliense, dentre outros periódicos.

Pode-se analisar a vida e obra de Affonso Arino de Mello Franco por três grandes vertentes: o homem de Estado, o político, o escritor. No homem de Estado, como disse o acadêmico José Sarney, em seu discurso de boas-vindas a Mello Franco, quando ingressou na ABL, “o servidor público, o diplomata, o embaixador, o negociador e operador de relações internacionais, marcando sua carreira não pela burocracia, a consumir-se no cotidiano de suas tarefas, mas com espírito público, com posições nítidas, defendendo políticas públicas, colocando ideias claras, voltadas sempre pela compreensão de que os interesses do Brasil não se esgotam nos assuntos específicos do país, mas na visão de sua inserção no mundo, no destino dos homens, na revisão das injustiças, a começar pelas desigualdades sociais.”

Sempre atento ao Brasil e ao Mundo, resolveu, lançar-se candidato e, de1960 a 1962, foi deputado à Assembleia Constituinte e Legislativa do então Estado da Guanabara, na qual se destacou como membro da Comissão de Constituição e Justiça. De 1964 a 1966, foi deputado federal pelo Estado da Guanabara, tendo sido, em 1965-66, membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.

Como político, exerceu seus dois mandatos honrando o povo da então Guanabara, mas sua atuação não parou na década de 60. Vinte e oito anos depois, ele escreveria o Capítulo dos Direitos Individuais, da Constituição. E talvez seja essa a melhor coisa que tem a Constituição de 1988. Ali está a mão, ou melhor, estão o talento e a cultura de Affonso Arinos de Mello Franco.

Já a obra de Affonso Arinos Mello Franco revela o escritor primoroso que se concentra em densos livros. Neles, o estilo foge às tentações do barroco, não permite invasão de adjetivos e afasta por métodos policiais os advérbios. Fica no substancial.

E esse foi o diplomata, jornalista, político e acadêmico Affonso Arinos de Mello Franco, cuja partida deixa a todos que o apreciavam saudosos, mas certamente esse ilustre brasileiro cumpriu com sua missão.

Para ocupar sua vaga na Academia Brasileira de Letras, há um manifesto para que a atriz Fernanda Montenegro, de 90 anos, se candidate. Há quem diga que, se a atriz se candidatar, será candidata única, pois, ao que parece, os imortais querem conviver mais de perto com a artista, que esbanja vitalidade e que, por seus méritos, merece certamente pertencer à Casa de Machado de Assis.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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