‘O mercado brasileiro de caminhões elétricos ainda está nascendo’

Segundo Ricardo Senda, da XCMG, o mercado brasileiro de caminhões elétricos precisa de incentivos governamentais e leis de restrição para ser desenvolvido.

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Ricardo Senda (foto divulgação XCMG)
Ricardo Senda (foto divulgação XCMG)

Conversamos sobre a adoção de veículos elétricos pesados no Brasil com Ricardo Senda, gerente de elétricos da XCMG Brasil. Fundada em 1943, a Xuzhou Construction Machinery Group, XCMG, é a líder mundial no processo de eletrificação de máquinas de linha amarela e mineração e a 2ª maior fabricante de caminhões elétricos na China.

Quais são os veículos elétricos produzidos pela XCMG?

A XCMG produz caminhões rodoviários extrapesados, como cavalos mecânicos e bitrucks, caminhões fora de estrada para mineração e equipamentos como carregadeiras e escavadeiras. Com relação à linha de light trucks, formada pelos caminhões pequenos como ¾, toco e truck, nós vamos fazer o lançamento no final do ano na Fenatran (feira do setor de transporte rodoviário de cargas).

Desses veículos, o que o mercado brasileiro está mais comprando são os cavalos mecânicos, as pás carregadeiras e as empilhadeiras.

O que precisa ser feito para que se possa utilizar caminhões elétricos em trajetos mais longos?

Eu não acredito que vamos ter caminhões elétricos em trajetos longos. Por exemplo, um cavalo mecânico da XCMG, que tem 150km de autonomia, tem uma bateria que pesa em torno de 3 toneladas. Se for necessário que o caminhão faça 300km, ele precisaria ter 6 toneladas de bateria. Daqui a pouco, o caminhão estaria levando tanta bateria para fazer autonomia que a sua capacidade de carga líquida para transporte efetivo de produto seria inviabilizada. Fora isso, existe a questão do tempo de carregamento. Hoje, uma bateria demora uma hora para ser carregada. Se for colocado o dobro de baterias, o carregamento vai demorar duas horas, e assim sucessivamente.

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Os caminhões elétricos serão utilizados num raio de 200km a 250km, no máximo. Depois disso, nós teremos os caminhões a hidrogênio. Na China já existem caminhões desse tipo que possuem até 1.000km de autonomia, mas cabe destacar que os veículos elétricos possuem um custo operacional mais barato que os veículos a hidrogênio.

Está havendo uma discussão muito grande com relação às baterias dos veículos elétricos. Na sua opinião, quais são as principais lendas que estão sendo trazidas por essa discussão?

As baterias são cicladas. No caso de um caminhão, um pack de baterias possui 8 módulos com 8 mil células no total. Quando se diz que uma bateria será jogada fora quando a sua vida útil acabar, essa informação não está correta. Todos os fabricantes chineses desse mercado estão preparados para fazer manutenção nos packs de bateria. Se num pack com 8 mil células, 10 estão com problema, você tem 7.990 funcionando. Se as 10 células com problema podem ser reparadas ou trocadas, para quê se vai comprar um novo pack?

Só o custo da bateria, tanto de um carro quanto de um caminhão, representa entre 40% e 50% do valor do equipamento. Se a manutenção não for feita, você terá um custo muito elevado para trocar o pack de baterias.

Considerando todo o conhecimento que a XCMG tem do mercado chinês, como funciona a desvalorização de um veículo elétrico?

Na Ásia e na Europa, até nos Estados Unidos, que já possuem mais de 5 anos de operação com esse tipo de veículo, o residual já segue a mesma lógica dos veículos a diesel. Depois de 5 anos, esses veículos estão valendo em torno de 20% do seu valor original. 

Em que estágio se encontra o mercado de veículos elétricos na China e como se encontra o mercado brasileiro frente ao chinês?

Em termos tecnológicos, o mercado chinês é o mais desenvolvido do mundo. Considerando o mercado global, a China produz 92% de todos os packs de bateria para carros, caminhões e ônibus elétricos e possui 60% de todos os veículos elétricos emplacados no mundo. Esse é um mercado muito maduro.

Com relação ao mercado brasileiro, ele ainda está engatinhando frente ao mercado chinês. Os caminhões elétricos não representam 1% da venda total de caminhões novos no Brasil. Esse é um mercado que ainda está nascendo.

O que fez com que o mercado chinês se desenvolvesse tão rápido na China?

Incentivos governamentais e leis de restrição. São Paulo já colocou restrições sobre os ônibus e agora vai começar a colocar em caminhões. Isso faz com que o mercado vire. Cada vez mais o mercado vai apertando, a demanda dos veículos que poluem mais vai diminuindo. O mundo vem tratando esse assunto dessa forma. Várias montadoras já pararam o desenvolvimento de veículos a combustão, focando em veículos elétricos ou a hidrogênio ou que sejam de transição, como os híbridos. Cada vez mais o mercado vai vir com novas tecnologias para emitir cada vez menos CO2.

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