O morto e o Brasil

Opinião / 13:21 - 1 de out de 2002

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Uma velha história medieval, contada por Porgio Bracciolini, fala de um grupo de amigos que resolve pregar uma peça a um louco de Florença. Cada um que o encontrava comentava o quanto o louco parecia doente e acrescentava algum sintoma adicional na aparência, descrevendo seu estado como mais grave. Ao final da história de tanto ouvir os comentários ruins o louco acaba se convencendo que está morto. A história termina com o louco sendo levado ao cemitério e quando um dos passantes lhe insulta a memória ele levanta e diz: "Se eu não estivesse morto iria dizer que o patife na verdade é você!" Nesta campanha eleitoral o Brasil passa por um processo semelhante. Preocupados em obter bons resultados eleitorais e em alimentar suas campanhas com fatos, pouco importando se verdadeiros ou não, muitos candidatos agem como os amigos do maluco, diariamente se revezando na tarefa de dizer ao Brasil que ele está doente, que tem péssima aparência, que está moribundo. E nós vamos todos acreditando nisto, nos importando menos com os fatos e mais com estas opiniões desfavoráveis e os cenários terríveis que nos pintam. Isto vai nos debilitando a saúde, nos tirando o ânimo e acabamos acreditando que nem podemos reagir quando nos insultam porque já estamos mortos. É evidente que temos problemas, ninguém quer negar os desafios que ainda precisam ser enfrentados, todos sabemos que vivemos em um quadro de crise mundial, de instabilidade, de profundas mudanças econômicas e sociais e que viver nestes tempos e enfrentar os problemas derivados desta época não é fácil. Porém isto não significa de forma alguma que estejamos moribundos. O Brasil venceu nos últimos anos batalhas memoráveis, batalhas nas quais muitas outras nações fracassaram. A vitória contra a inflação, em especial, foi um passo essencial à nossa recuperação enquanto país, um significativo avanço rumo a um país com mais justiça social. A universalização do sistema de saúde é outra vitória importante do Brasil, na qual o mundo se espelha como exemplo e que outros países mais ricos e mais poderosos, como os Estados Unidos, fracassaram. A expansão da infra-estrutura, por exemplo da telefonia, se deu em um volume sem precedentes, as estradas melhoraram muito em relação ao que eram em passado recente e mesmo o obstáculo do apagão foi vencido. A concentração de renda, legado que nos persegue desde a época de colônia, continua alto, mas os indicadores apontam para mudanças significativas no nível de vida da população, no aumento da escolaridade, na redução das taxas de mortalidade infantil - que em São Paulo, por exemplo, já chega a níveis compatíveis com os dos países desenvolvidos. A economia brasileira reagiu rápido às mudanças internacionais, tornou-se mais produtiva, modernizou-se, oferece produtos de muito melhor qualidade do que oferecia a alguns anos. Basta um pouco de memória para verificar que em cada casa se mudou muito a qualidade dos produtos disponíveis. É verdade que há desemprego no Brasil, assim como no resto do mundo, incluindo os países desenvolvidos. Quando nos dizem que por isto estamos doentes, estamos condenados a uma morte dolorosa, se faz uma brincadeira de mau gosto. Quando se tenta atribuir isto a erros de gestão e planejamento do governo daí já se chega a má fé. Má fé porque este desemprego não se deve a política econômica, mas a uma situação de mudança no perfil do trabalho. Os Estados Unidos, a Europa e o Japão, por exemplo, também passam por um período de declínio do emprego, porque ele é resultado desta mudança estrutural. Ao tentar atribuir a culpa deste processo mundial ao governo estes políticos que brincam com a auto-estima do Brasil agem como os ultra-direitistas de Le Pen, que jogam a culpa do desemprego nos imigrantes árabes, em ambos os casos ao invés da análise realista preferem simplesmente achar um bode expiatório. A questão do desemprego não será resolvida parando as engrenagens do progresso, quebrando máquinas ou construindo pirâmides, mesmo porque o avanço das forças produtivas não pode ser interrompido por decreto. Ela será resolvida, isto sim, através da expansão dos mercados, da qualificação e requalificação dos trabalhadores e através de programas sociais que dêem cobertura aos desempregados, como já vem sendo feito pelo governo federal e estadual. Está certo que o Brasil não está do jeito que desejamos. Mas não está moribundo e sim muito melhor, por qualquer ângulo que se analise, do que era há alguns anos. Resta saber se o Brasil vai ser vítima da brincadeira de mau gosto e dizer que não pode responder porque está morto, ou se vai ser capaz de analisar a realidade sem a miopia das campanhas políticas. José Police Neto Presidente do Diretório Municipal do PSDB de São Paulo. Correio eletrônico: dmpsdb@terra.com.br

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor