A notável ausência dos Estados Unidos em dois importantes encontros internacionais — a Cúpula do G20 na África do Sul e a COP30, a conferência climática no Brasil — levantou questões urgentes sobre o compromisso de Washington com o multilateralismo. Paradoxalmente, ambas as cúpulas alcançaram avanços significativos na cooperação global e no desenvolvimento sustentável, mesmo sem a chamada nação indispensável do mundo.
Em vez de desacelerar, a cooperação global acelerou. E, ao fazer isso, enviou uma mensagem clara: o mundo não está mais esperando por Washington.
A ausência dos EUA expõe uma realidade mais profunda e estrutural. Washington continua relutante em se adaptar à ordem mundial multipolar emergente, ainda enxergando os assuntos globais através de uma lente de soma zero, da época da Guerra Fria. Essa mentalidade é cada vez mais incompatível com um mundo do século 21 definido por desafios compartilhados e poder distribuído.
Enquanto isso, o Sul Global, que abrange a vasta maioria da população mundial, está forjando novos caminhos centrados na inclusão, na sustentabilidade e no benefício mútuo. Essas prioridades contrastam fortemente com a abordagem de Washington, que muitas vezes busca preservar hierarquias, impor domínio e instrumentalizar a interdependência. A escolha que o Ocidente enfrenta é clara: engajar-se de forma construtiva ou ficar para trás.
Cúpula do G20 alcançou um marco histórico
Apesar da ausência dos EUA, a Cúpula do G20 alcançou um marco histórico: a adoção de uma declaração conjunta no primeiro dia, a primeira conquista desse tipo na história da cúpula. Ela enfatizou um apoio mais forte aos países em desenvolvimento e integrou uma perspectiva africana sem precedentes sobre governança e desenvolvimento globais.
Na COP30, as nações prometeram solidariedade e cooperação para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, reafirmando um compromisso coletivo com as transições verdes e a resiliência climática.
Ambos os resultados ressaltam uma verdade simples: o mundo está disposto e é capaz de promover a cooperação global sem a liderança dos EUA. E, em muitos casos, pode fazê-lo com mais eficácia.
Se os Estados Unidos e seus aliados continuarem se distanciando dos mecanismos multilaterais, o Sul Global continuará fortalecendo seu próprio ecossistema institucional. Essa evolução já é evidente na crescente influência do Brics, cuja expansão e institucionalização refletem uma confiança crescente na liderança do Sul Global.
O ímpeto por trás da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) destaca ainda mais essa mudança, à medida que países da Eurásia, do Sul da Ásia e do Oriente Médio encontram pontos em comum em segurança, cooperação econômica e desenvolvimento.
Novas plataformas para comércio, finanças e desenvolvimento também estão surgindo, permitindo que os Estados contornem os sistemas tradicionais controlados pelo Ocidente. Esses mecanismos, juntamente com a intensificação da cooperação Sul-Sul em tecnologia, infraestrutura e adaptação climática, representam os alicerces iniciais de uma arquitetura global paralela.
Esse movimento não é um ato de desafio, mas uma resposta às desigualdades de longa data presentes em algumas instituições internacionais, que historicamente privilegiaram um pequeno círculo de aliados ocidentais, marginalizando a maioria das nações.
Os países em desenvolvimento não são mais participantes passivos. Eles exigem um sistema de governança global transparente, inclusivo e equitativo – um sistema que trate todas as nações de forma justa, independentemente de tamanho, riqueza ou alinhamento geopolítico.
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Transformação silenciosa, porém profunda
Uma transformação silenciosa, porém profunda, em curso em todo o Sul Global é a democratização da tecnologia e do conhecimento. A inovação acessível — grande parte dela impulsionada por empresas chinesas e ecossistemas de código aberto — está capacitando os países em desenvolvimento a superar estágios tradicionais de desenvolvimento.
Em muitas regiões, sistemas solares de baixo custo estão eletrificando comunidades rurais, reduzindo a pobreza energética e viabilizando microempresas. A disseminação de veículos elétricos acessíveis está modernizando os sistemas de transporte e, ao mesmo tempo, reduzindo as emissões.
Enquanto isso, a ascensão de plataformas de IA de código aberto da China está diminuindo as barreiras à computação avançada, permitindo que startups, universidades e pequenos governos utilizem ferramentas que antes eram restritas a nações ricas e gigantes da tecnologia.
Esse amplo acesso à tecnologia está alinhado com a visão da China de um futuro compartilhado para a humanidade — um futuro em que a prosperidade não esteja concentrada em algumas capitais ocidentais, mas distribuída por todos os continentes. Para muitos no Sul Global, isso não é diplomacia abstrata; é visível e tangível na forma de novos empregos, infraestrutura modernizada, capacitação digital e aumento da produtividade.
Essa acessibilidade à inovação está remodelando as trajetórias de desenvolvimento. Ela prova que o Sul Global não precisa esperar pela aprovação ou generosidade tecnológica do Ocidente. Ela pode construir, inovar e modernizar-se nos seus próprios termos, com parceiros que encaram o desenvolvimento como cooperação, e não como controlo.
A era da instrumentalização do comércio, da tecnologia e da moeda está chegando ao fim. Um novo sistema de governança global precisa emergir – um baseado no respeito mútuo, no desenvolvimento sustentável e na prosperidade compartilhada.
Iniciativa de Governança Global
Dentro dessa mudança, a Iniciativa de Governança Global da China repercutiu em todo o Sul Global, oferecendo uma estrutura construída sobre conectividade, inclusão digital e desenvolvimento centrado nas pessoas. De parques de inovação na África a projetos de energia renovável no Sudeste Asiático, o modelo já está apresentando resultados.
Não se trata de substituir uma potência hegemônica por outra. Trata-se de construir um mundo onde cada nação tenha as ferramentas e as oportunidades para progredir.
O mundo está passando por uma profunda transformação. O poder está se dispersando, a cooperação está se ampliando e o multilateralismo está sendo redefinido por aqueles que foram deixados à margem por muito tempo.
Washington pode participar dessa transformação ou se isolar dela. O resto do mundo já fez sua escolha: avançar coletivamente, reformar a governança global e buscar um modelo de desenvolvimento que beneficie a todos.
Se o Ocidente continuar a se apegar a hierarquias ultrapassadas, o Sul Global está totalmente preparado para moldar o futuro – econômica, política, tecnológica e institucionalmente.
A mensagem não poderia ser mais clara: adapte-se à nova realidade ou fique para trás.
Maya Majueran atua como diretora da Iniciativa Cinturão e Rota do Sri Lanka.
As opiniões expressas neste artigo são da autora e não refletem necessariamente as da Agência de Notícias Xinhua.

















