A Copa do Mundo não é apenas o maior evento esportivo do planeta. É, sobretudo, um dos negócios mais rentáveis da economia global do entretenimento. A cada quatro anos, a FIFA organiza um ciclo financeiro que movimenta bilhões de dólares, com receitas altamente concentradas e riscos amplamente distribuídos. No centro desse modelo está uma assimetria evidente: enquanto a entidade captura a maior parte do valor gerado pelo torneio, os países-sede assumem os principais custos estruturais.
A questão central, portanto, não é apenas quanto custa sediar uma Copa do Mundo, mas quem efetivamente paga essa conta e quem fica com os retornos.
A Copa como produto global
A lógica econômica da Copa é fortemente centralizada. A FIFA atua como uma holding de eventos, cujo principal ativo é o Mundial masculino. No ciclo 2019–2022, a entidade registrou receitas superiores a US$ 7,5 bilhões, sendo quase metade proveniente de direitos de transmissão. O restante se distribui entre marketing, hospitalidade, licenciamento e bilheteria.
O modelo financeiro pode ser resumido em dois polos: quem ganha e quem paga. Ainda que a FIFA reinvista parte dos recursos no desenvolvimento do futebol, o ponto central permanece: os riscos de execução e os custos de infraestrutura recaem majoritariamente sobre o país-sede.
Os custos totais variam significativamente – de cerca de US$ 5 bilhões a mais de US$ 200 bilhões – dependendo do nível de desenvolvimento prévio da infraestrutura. No entanto, o valor absoluto, isoladamente, pouco revela. O que realmente importa é a eficiência desse investimento ao longo do tempo.
Legado ou ilusão?
O principal argumento para justificar o investimento público é o chamado “legado”: aumento do turismo no período do evento, reposicionamento internacional e possíveis ganhos econômicos no curto prazo.
Mas é preciso questionar: você se lembra quem sediou a Copa de 1990? Ou a de 2006?
Esse suposto reposicionamento internacional muitas vezes se apoia mais em percepções do que em evidências concretas. No longo prazo, o efeito tende a se dissipar. Além disso, sem uma liga nacional forte e competitiva, estruturas construídas para o evento acabam se transformando em “elefantes brancos”, como observado em países como Catar e África do Sul.
Valor de marca: não se paga e não agrega
A grande verdade é que quem ganha com uma Copa do Mundo é quem a organiza como entidade, e não quem recebe o evento. Esse “valor de marca” funciona de forma semelhante ao valuation de um clube de futebol: são estimativas baseadas em teorias e números, porém ninguém sabe se o valor está inflado ou se é real.
O valor de marca não se paga e muito menos agrega algo concreto ao país que recebe a Copa. Vamos pegar o caso do Brasil em 2014: foram feitos estádios nos quatro cantos do país, gastou-se uma fortuna e, após mais de dez anos, o futebol continuou concentrado no Sudeste. Estádios como a Arena da Amazônia, a Arena das Dunas e o Mané Garrincha recebem poucos jogos e dependem de eventos pontuais, como o próprio Mané Garrincha, que eventualmente sedia a Recopa do Brasil. No final do dia, o futebol dessas regiões continua dependente do Sudeste e, regionalmente, não houve evolução relevante. Ou seja, o legado, na prática, não existiu.
Além diss, é preciso considerar as obras de infraestrutura. Aeroportos, rodoviárias e estações, em sua maioria, já estavam previstos nos planos diretores das cidades e não surgiram por causa da Copa do Mundo. Em muitos casos, executam-se obras desnecessárias apenas para receber um ou dois jogos em locais sem demanda futura. No Brasil, as Arenas da Amazônia, Pantanal e a Arena das Dunas receberam apenas quatro jogos cada durante a Copa do Mundo FIFA 2014, evidenciando um padrão de baixa utilização de ativos que exigiram elevado investimento para um período extremamente curto de operação.
Sendo assim, não houve geração efetiva de valor de marca, o futebol regional não evoluiu e o Estado arcou com a maior parte dos custos.
Na quarta-feira passada, publicamos um texto sobre o custo de a Itália ficar fora da Copa. Agora, mostramos um legado que, na prática, não se sustenta. Na próxima semana, vamos tratar diretamente dos valores. Continue acompanhando no jornal impresso e no digital.
Felipe Araujo, Diretor Executivo e Estratégia no Futebol

















