O Novo Chile e algumas reflexões sobre inovações

‘Novo’, neste caso, é a oposição ao perfil das grandes marcas, que dominam o mercado de vinhos chilenos no Brasil.

Em 2019, eu escrevi uma série de artigos sobre as regiões vitivinícolas do Chile para esta coluna, e terminei falando das inovações em curso, com a exploração de áreas situadas a norte, sul, na costa do Pacífico, visando uma produção de vinhos com perfis distintos do que foi mais representativo nas últimas décadas. Além de novas regiões, multiplica-se a experimentação de novas cepas, os engajamentos em produções orgânicas, a variação nos métodos na vinificação, de forma a gerar produtos, digamos, mais “autorais”. Os resultados geram expectativas em consumidores cada vez mais connaisseurs, que buscam não apenas apreciar o vinho, mas entendê-lo.

Fui convidada a conhecer o projeto Novo Chile Wine-Week 2019, que aconteceu no eixo Rio-São Paulo, voltado à apresentação de um grupo de produtores independentes. Fiquei muito curiosa a respeito, mas, infelizmente, não pude comparecer ao evento nas datas. Em 2020, o evento ganhou sua versão digital: Novo Chile On-Wine, com uma programação de palestras, degustações, entrevistas e cursos online. Recebi dois vinhos para participar de uma live com dois produtores do projeto. Tem sido difícil cobrir a quantidade de iniciativas do mundo do vinho no Brasil. Há uma efervescência em relação ao tema nas redes e, como os eventos presenciais (que eram locais) não podem acontecer, tudo passou para o formato virtual, que, em tese, está disponível para todos.

O projeto Novo Chile foi idealizado por um produtor e importador brasileiro, David Giacomini, proprietário da vinícola chilena La Recova (integrante do projeto), visando apresentar vinhos fora do circuito tradicional das grandes marcas no Brasil. A expressão “inovação” vem sendo usada no século XXI para todos os setores, tornando-se praticamente um jargão da linguagem mercadológica. Inovar significa “trazer novidade” ou “renovar”. A necessidade de giro num mercado altamente competitivo requer uma simulação constante de inovações para despertar a curiosidade do consumidor e dar suporte à rotatividade comercial. E nem o vinho (produto com uma aura mais tradicional) escapa disso. Resta efetivamente reconhecer o que traz mudanças substanciais ou é simplesmente um artifício de linguagem.

O Novo Chile talvez se oponha em alguns aspectos ao que significou “Novo” para a grande renovação chilena a partir dos anos 1980, quando vários procedimentos enológicos “inovadores” foram incorporados às produções mais rústicas e rotineiras, visando elevar o padrão de qualidade dos vinhos, a exemplo de outros países do chamado Novo Mundo do Vinho. Apesar de ter contribuído definitivamente para um salto qualitativo, esse movimento gerou muitas críticas por padronizar práticas produtivas que tornariam vinhos de regiões distintas com o mesmo perfil gustativo. De certo modo, esses vinhos ficaram rotulados como “vinhos tecnológicos” – tecnologia aí sugerindo uma aproximação com o perfil industrial de produção, que passa pelo uso indiscriminado de recursos invasivos a fim de controlar o padrão sensorial do vinho. Que fique claro que tecnologia também pode agir positivamente, até eliminando o uso de recursos mais invasivos, mas, neste caso, a colocação é depreciativa.

No caso do Novo Chile, o novo se opõe a esse caráter padronizador novo-mundista e reflete outra tendência mundial em curso: o resgate da viticultura mais tradicional, de cunho familiar, artesanal, que busca valorizar as origens e particularidades regionais. Em certa medida, o “novo” é mais conservador, se opondo à padronização decorrente dos processos tecnológicos inovadores que se globalizaram nas últimas décadas do século XX. Veja, por exemplo, o Projeto Villalobos Viñedo Silvestre, que explora a região costeira do Vale de Colchagua (Lolol). Eles descobriram e protegeram videiras antigas, que foram plantadas em simbiose com a vegetação local, sem muito planejamento, conduzidas em parreirais. Ora, o que aconteceu com muitas áreas renovadas na década de 1990 foi justamente o contrário, com a troca radical das conduções em parreiras para espaldeiras – “tecnicamente” mais apropriadas ao padrão enológico moderno.

Os vinhos da live de que participei foram um Pinot Noir da Viña Trapi del Bueno, localizada no Valle de Osorno, uma das zonas mais austrais do Chile (Patagônia chilena), na região fria e montanhosa de Los Rios, no sopé da inclinada face continental da Cordilheira da Costa. Ali, o solo vulcânico profundo tem alto teor de argilas e ferro, o que irá conceder aos vinhos boa mineralidade. Trata-se realmente de um empreendimento ousado, pela ocupação de território pouco explorado, com condições climáticas extremas e ainda pelo resgate de práticas como pisa a pé, uso de leveduras selvagens e engarrafamento sem filtração.

O outro vinho foi o Laura Hartwig Edição de Família da Laura Hartwig Wines – um vinho de peso, corte bordalês, com rótulo que remete à tradição familiar. A produção é cuidadosa, com uso de barrica de primeiro e segundo uso, visando manter a elegância do vinho. Outro produto de destaque da casa é o Selección del Viticultor Petit Verdot 2015, feito de uma cepa habitualmente de corte, que vem ganhando espaço nas inovações da América do Sul. Perguntei a eles por que se classificavam como o Novo Chile. E a justificativa está na forma sustentável e respeitosa de tratar o produto, de baixo rendimento e visando qualidade. O “novo”, neste caso, é a oposição ao perfil das grandes marcas, que dominam o mercado de vinhos chilenos no Brasil.

Ambos excelentes vinhos. Mas o projeto não abre mão da citação das boas avaliações de críticos internacionais, das premiações – poderosas armas do marketing vitivinícola contemporâneo. Ou seja, há uma combinação de fatores muito bem-vindos, que de fato brindam o universo do vinho hoje com um recuo na estandardização e promessa de boas surpresas e experiências. Novo e Velho se combinam e se opõem ciclicamente em suas dimensões simbólicas, ideológicas, tecnológicas e mercadológicas.

Conheçam o projeto pelo site. São oito produtores a serem explorados. Há algumas iniciativas interessantes do grupo, como o Wine Academy, que é uma formação online sobre vinhos do Chile, com fornecimento de certificação.

 

Para infs sobre cursos de Míriam Aguiar (Cafa Bordeaux e Wine Masters Class onlines e presenciais): [email protected] – miriamaguiar.com.br/blog. Siga minhas avaliações de vinhos pelo Instagram: @miriamaguiar.vinhos e a série de Podcast Vinhos etc no Spotify e Itunes.

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