O ‘novo normal’

Não espere a pandemia passar para você mudar.

Seu Direito / 15:45 - 3 de ago de 2020

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Eu não sei se você já parou para pensar no que eu vou dizer agora, mas, se ainda não parou, eu o convido a fazer comigo uma pequena reflexão. Se você concordar com o que está escrito aqui, talvez termine a leitura deste artigo melhor do que quando a começou, ou pelo menos mais introspectivo, reflexivo e responsável. No mínimo, menos chato.

No exato momento em que você está lendo este artigo, provavelmente sentado no seu sofá predileto num cantinho sossegado da sala, ou na sua cadeira giratória, em pleno rush do seu home office, ou na antessala do consultório médico que só agora você teve coragem de visitar apesar de a consulta estar agendada há meses, nada ao seu lado está parado. Os pacientes à sua frente balançam as pernas, levantam-se, abrem bolsas, andam pra lá e pra cá, ouvem música, consultam o celular, há um entra e sai de gente, as secretárias atendem ao telefone, anotam coisas, reviram papéis. Há um barulho de carros lá fora, um choro quase inaudível de criança no prédio ao lado, um tilintar de copos em algum lugar, um ventinho fresco vindo da janela entreaberta, um latido de cachorro, o tique-taque do relógio na parede, a batida do seu coração. A vida é cíclica e tudo está em constante movimento.

Agora pare de ler este artigo um minutinho e ouça o som do silêncio. Veja quanta coisa continua pulsando lá fora sem que você se dê conta, sem que você possa fazer alguma coisa para que seja diferente. Sem que essas coisas se importem com você e sem que você seja necessário a elas. A vida é assim.

Pense comigo. Agora mesmo, enquanto você me lê, em algum lugar do mundo tem alguém nascendo, alguém morrendo, alguém recebendo alta do hospital depois de meses de internação por causa da Covid-19 e sendo recebido com festa, alguém sendo entubado por causa do coronavírus, alguém recebendo o resultado negativo para a doença, alguém confirmando que infelizmente está com a doença, alguém partindo, alguém chegando, alguém sendo despedido do emprego, alguém conseguindo o emprego dos sonhos, alguém se casando com o amor da sua vida e alguém se separando do amor da sua vida. A vida é assim.

Embora você não se dê conta, agora mesmo este planetinha tão judiado e tão bonitinho está girando sobre o próprio eixo a uma velocidade de 1.700 quilômetros por hora. Isso faz o dia e a noite. Ao mesmo tempo em que gira sobre seus pés nessa velocidade absurda, este planetinha que você maltrata jogando no chão um maço de cigarros, um copo de água mineral vazio, uma latinha de cerveja, e que se tornou mais bonito e limpo depois que os homens foram obrigatoriamente confinados em casa por causa de um inimigo tão mortal e tão pequeno que ninguém vê, também está rodando ao redor do Sol numa velocidade de 107.000 quilômetros por hora.

Acredite: a Terra, o Sol e todos os demais planetas que você conhece estão rodando em torno do eixo de sua própria galáxia a uma velocidade espantosa de 1.000.000 de quilômetros por hora. Isso mesmo: um milhão por hora! O giro da Terra em torno do seu próprio eixo faz os dias e as noites, faz você e acordar e dormir. Ok, você não faz ideia do que seja algo girando a 1.700 quilômetros por hora. Você precisa de algo concreto para medir. Dou-lhe um exemplo: a maior velocidade que um carro de fórmula 1 conseguiu alcançar foi de 372,6 km por hora, obtida por Juan Carlos Montoya em 2005, no circuito de Monza, na Itália. Isso significa que a Terra gira em torno do seu próprio eixo 4,56 vezes mais rápido que isso. Imagine um carro de fórmula 1 andando em linha reta a 372,6 km por hora. Agora imagine a Terra girando quatro vezes e meia mais rápido do que isso.

É assim que estamos passeando pelo espaço durante um dia. Mas você não percebe e não tem noção do perigo que isso significa. Considere: todos os milhões de astros muito maiores do que a Terra também estão girando em velocidades muito maiores. Reze para que nenhum deles erre o caminho. Agora, imagine esse mesmo carro de fórmula 1 a 372,6 km, nessa mesma linha reta. A Terra gira em torno do Sol a 107.000 km por hora. Ou seja: 287,17 vezes mais rápido que isso.

Agora você sabe por que os anos passam tão depressa, por que parece que o Natal foi ontem e ainda ontem o seu filho estava perdendo os dentinhos e hoje é médico, advogado, juiz, engenheiro… São esses movimentos absurdamente rápidos que nos fazem contar os anos, os séculos, História, a vida. É por conta desse giro rápido e imperceptível que você e eu nascemos e vamos morrer. Cada volta que a Terra dá em torno do seu próprio eixo é um dia a menos que você e eu temos de vida. Esse é o relógio infalível que nos empurra para a morte. Nós deveríamos torcer para que este planetinha tão bonitinho girasse mais devagar em volta de si mesmo, para que tivéssemos mais horas para brincar, sorrir, cuidar dos filhos, amar, trabalhar, mas não nos damos conta disso e torcemos para que essa pandemia acabe, para que os cientistas descubram logo essa bendita vacina, para que o domingo chegue, para que possamos voltar aos nossos empregos, para que menos pessoas morram de Covid-19.

Não nos damos conta de que desejando mais rapidamente o fim de tudo estamos desejando mais rapidamente o nosso próprio fim. Quando desejamos que 2021 chegue logo e que a gente esqueça para sempre este 2020, o que estamos desejando é que este planeta gire mais rapidamente em torno do Sol. Com isso, só estamos encurtando o pouco tempo que falta para que a nossa esplêndida aventura por este planeta chegue ao fim. Os filhos vão crescendo, indo embora, criando novas famílias, os cabelos vão ficando brancos, a barriga tomando outras formas e, ao fim de tudo, a nossa própria vida escapa pelo vão dos dedos.

Fala-se agora num “novo normal” para ressignificar as coisas, para definir como seremos depois que tudo isso passar. Seremos exatamente como antes. Seremos como todas as pessoas foram depois que a gripe espanhola, a peste negra, o ebola, a varíola, o sarampo, a aids, a gripe aviária, a zika, a chicungunha e as guerras mataram milhões de pessoas. Honestamente, não sei como seremos daqui para a frente, mas, se refletirmos em tudo o que está aqui e em como “a vida é tão rara”, como o disse Lenine, seremos melhores a partir de agora.

Como o disse Fernando Pessoa, “um dia de sol é tão bonito quanto um dia de chuva; ambos existem, cada um como é”. Por isso, não espere a pandemia passar para você mudar. Mude agora. Não espere que lhe digam como deve ser o “novo normal”. Faça você o seu novo normal.

Pare de fumar, ainda que seja por preguiça, pra não ter de procurar um cesto de lixo pra jogar a bituca. Jogue a latinha de cerveja no lixo. Respeite o sinal de trânsito. Dê preferência ao amigo apressado. Não corrompa. Seja gentil, ofereça ajuda. Não dê carteirada porque eu não sei com quem estou falando e, pra ser bem honesta, isso não me interessa. E depois, se você me pergunta isso, é porque nem você sabe. E não sabe mesmo. Ninguém sabe.

Dê bom-dia ao porteiro, ao garagista, ao lixeiro da sua rua. Não veja defeito em tudo. Economize nas críticas e esbanje elogios. Ria mais. Não seja tão amargo. Não queira ser perfeitinho em tudo. Entenda que as pessoas têm defeitos e nem todos tiveram a mesma oportunidade que você teve. Portanto, baixe sua bola.

Não polua as águas. Plante árvores. Cuide dos velhinhos e das crianças. Tenha fé. Trabalhe duro. Cante. Escreva poesias. Quando for deitar-se, agradeça. Cuide da sua saúde e do seu corpo porque a sua alma mora nele e, se ele se estragar, e perecer, sua alma terá de deixá-lo, por mais bela e solidária que seja.

Lembre-se: o seu planetinha, a única casa que você tem agora para morar, está girando desesperada a 1.700 quilômetros por hora. Quase cinco vezes mais rápida que um carro de fórmula 1. Não há nada que você possa fazer para pará-la ou para que vá mais devagar. Apenas torça para que tudo corra bem e que todos os outros planetas não errem os seus caminhos.

Este é o “novo normal”. Fique bem.

 

Mônica Gusmão é professora de Direito Empresarial, do Consumidor e do Trabalho.

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