O novo PNE e a urgência de parar de desperdiçar talentos

Entenda o PNE e como ele pode transformar a educação no Brasil, priorizando o talento e a mobilidade social de todos. Por Bartira Almeida

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Estudantes na sala de aula, educação
Estudantes na sala de aula (foto de José Cruz, ABr)

O novo Plano Nacional de Educação (PNE) foi aprovado no Senado e agora vai à sanção da presidência. Um PNE é, na prática, a chance de o país decidir se educação será tratada como prioridade ou como promessa recorrente que não muda o destino de quem nasce fora do “CEP certo”.

O Brasil desperdiça talento demais e isso já aparece nos indicadores mais duros. O Banco Mundial estima que um brasileiro nascido em 2019 alcançará, em média, 60% do seu capital humano potencial aos 18 anos. Em outras palavras, 40% do potencial do país fica retido, subdesenvolvido, invisível. E, quando se olha para a mobilidade social, o retrato é igualmente ruim. A OCDE estimou que famílias entre os 10% mais pobres podem precisar de nove gerações para alcançar a renda média.

A desigualdade não opera apenas na base. Ela também comprime o topo. No PISA 2022, cerca de 1% dos estudantes brasileiros atingiu os níveis 5 e 6 em matemática, patamar de alto desempenho, enquanto a média da OCDE é de 9%. Um país que forma poucos alunos no alto da curva e ainda concentra essas trajetórias onde já há mais recursos está aceitando, na prática, que excelência seja privilégio previsível pelo ponto de partida.

É por isso que educação de qualidade tem de ser direito, não uma herança ou privilégio. Sem encararmos essa questão, a conversa sobre meritocracia vira um atalho, porque não há como cobrar desempenho sem oferecer condições minimamente comparáveis.

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O país não perde talentos por falta de gente capaz, perde por falta de ponte. Falta repertório, rede, apoio e continuidade. Falta, muitas vezes, alguém que enxergue e sustente o potencial na hora em que ele normalmente se perde. Melhorar a escola pública é indispensável e é uma agenda de longo prazo. Mas há uma urgência que o Brasil evita nomear. Quem está hoje no sistema não pode esperar uma década para ter acesso a condições mínimas e a desafios compatíveis com o seu potencial.

A discussão em torno do PNE pode ser lida como estímulo para um debate que costuma ficar fora do radar. Qualidade com equidade precisa ser regra, não exceção. Isso também passa por encarar um ponto pouco discutido no país: apoiar os alunos que estão no topo da curva. É preciso identificar e apoiar estes talentos ao longo da trajetória. Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, não temos um reconhecimento de excelência como o Nobel, o que revela nossa dificuldade em desenvolver nosso capital intelectual. Criar caminhos para apoiar esses jovens, especialmente os de baixa renda, é essencial para formar a próxima geração de talentos brasileiros.

O país já sabe o que acontece quando naturaliza o berço como destino. A “loteria do nascimento” segue organizando oportunidades como patrimônio, não como direito. O novo PNE pode ser o marco de uma década em que metas deixam de ser promessa e viram entrega. A diferença estará menos nas formulações e mais na execução consistente, com responsabilização, continuidade e participação do setor privado e da sociedade civil como complemento de escala e redes, não como substituto do dever público.


Bartira Almeida, fundadora e presidente do Instituto Ponte

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