O papel do cientista biomédico nos momentos de pandemia

Por Wanderley de Souza.

Opinião / 17:17 - 17 de set de 2020

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Há, no momento, uma certa polêmica em relação ao fato de que a grande maioria dos grupos de pesquisa no Brasil encontra-se em “estado de quarentena”. Como consequência, os laboratórios de pesquisa estão vazios, inclusive os de instituições que têm como missão o estudo de diferentes aspectos das doenças infecciosas e parasitárias.

Alunos de pós-graduação estão preocupados com o desenvolvimento de suas teses, uma vez que têm bolsas por tempo determinado. As agências de fomento ampliaram os prazos de teses por alguns meses. No entanto, a retomada das atividades exige um trabalho de recuperação de material científico que foi armazenado, geralmente, a baixas temperaturas.

Cabe lembrar que agências vão exigir relatórios que mostrem produtividade científica tanto para a renovação de projetos como para a manutenção das bolsas de pós-doutores, técnicos etc. Com a crescente redução dos recursos direcionados para o apoio à Ciência e a elevação do preço dos insumos para pesquisa em função da desvalorização do real, a disputa pelos poucos recursos tende a ser mais acirrada.

Já estamos há cerca de 6 meses nesse estágio de quarentena, e não vejo uma discussão séria sobre o processo de retorno às atividades. Não havendo diretrizes gerais, o Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ, instituição à qual pertenço, por tradição respeita a posição de cada laboratório que o compõe. É neste contexto que escrevo este artigo.

Inspiro-me no passado, sobretudo nos momentos em que pandemias de grande vulto assolaram o mundo. Destaco aqui a temática abordada no livro A Peste, de Albert Camus, Prêmio Nobel de Literatura de 1957, figura ativa nos movimentos políticos, ideológicos e sociais dos anos 1940. Na realidade, um intelectual rebelde com presença marcante no pós-guerra.

Esse livro é aqui citado em função do comportamento de dois médicos, personagens centrais do referido romance, que conviveram dia a dia atendendo aos pacientes. Estes, em número crescente, foram surgindo com um quadro clínico no início impreciso, mas nitidamente associado à morte de centenas de ratos nas casas e ruas da cidade portuária de Orã, localizada na costa da Argélia.

O médico Bernardo Rieux atendia aos infectados, tanto em casa como nos hospitais. Castel fazia o mesmo, e também montou uma sala no hospital para examinar melhor as amostras recolhidas de abcessos e vômitos dos pacientes que estavam morrendo. Esse trabalho foi feito de forma continuada, levando inclusive a que produzisse, apesar das condições precárias, um soro que pudesse combater o agente infeccioso. Essas atitudes são um exemplo de que os especialistas não podem se afastar da linha de frente e, mesmo correndo riscos, devem exercer sua atividade de pesquisa e de atendimento médico.

Voltando aos dias de hoje, cabe ressaltar que milhares de médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, entre outros, estão presentes e participando do enfrentamento à pandemia causada pelo vírus Sars-CoV-2, agente causal da Covid-19. Nos primeiros meses houve o natural afastamento das atividades de maior contato direto com os pacientes por profissionais com risco mais elevado, mas que já retornaram às atividades inerentes às suas funções.

Por outro lado, desde o início da pandemia vários pesquisadores e estudantes do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ, e certamente em outras instituições do país, vêm se dedicando à detecção e ao isolamento do vírus, sua inoculação em células e estudos detalhados tanto do vírus como dos pacientes. Compreende-se que as equipes de pesquisa não diretamente envolvidas em temas relacionados com a Covid-19 tenham se recolhido ao ambiente familiar, mantendo-se isolados por vários meses.

No entanto, a situação que atravessamos hoje já é bem distinta do que tínhamos entre março e junho. Inicialmente uma doença desconhecida, muitas vezes de evolução rápida e fatal, em que de forma desesperada começou-se a se utilizar todo o arsenal de drogas com ação antiparasitária. Hoje sabemos que o quadro clínico mais grave é apenas disparado pelo vírus, levando a reações de natureza imunológica/inflamatória, que devem ser o foco principal da intervenção médica.

No momento, já há condições seguras que nos permitem, gradativamente, retomarmos as atividades nos laboratórios de pesquisa, sobretudo daqueles que trabalham no campo experimental, onde pouco ou quase nada pode ser feito remotamente. Pessoalmente, me sinto muito mais seguro no laboratório do que no supermercado ou caminhar pelas ruas.

Obviamente, o retorno não pode ser com toda a equipe simultaneamente, uma vez que, em geral, os laboratórios dispõem de espaço físico limitado e há que se manter a distância mínima recomendada, além do uso contínuo de máscara por todos. No laboratório que dirijo, autorizamos inicialmente que somente cerca de um terço da equipe possa estar trabalhando simultaneamente. Esta semana já ampliaremos para 50%.

Após seis meses do início da pandemia de Covid-19, passamos por momentos difíceis, chegando a atingir até 1.600 mortos por dia, com a maioria dos hospitais do Rio de Janeiro superlotados e sem condições mínimas de atender a todos que necessitavam de socorro. Felizmente hoje a situação é bem diferente, ainda que requeira todos os cuidados necessários para que a transmissão do vírus seja gradativamente interrompida. Os dados disponíveis apontam uma tendência de normalização com possibilidades de retomada das atividades.

Neste momento em que as várias atividades vão se normalizando, duas áreas continuam, inexplicavelmente, paralisadas. Enquanto o comércio se agita, com os shoppings, restaurantes, bares e academias voltando a funcionar, setores da sociedade já questionam a paralisação das atividades de pesquisa nas principais instituições científicas do país, ainda que aqueles que se engajaram no estudo do Sars-Cov-2 trabalham diariamente. Esta atitude é inexplicável no caso de pesquisadores que atuam no campo das doenças infeciosas e parasitárias.

Por outro lado, há ainda uma reação corporativa de impedimento do retorno às aulas presenciais em todos os níveis, o que já não se sustenta, uma vez que a experiência do último mês mostra que é seguro o retorno prudente e planejado. Mesmo com o absurdo das multidões em praias ou em bares, todos os indicadores da extensão da pandemia vêm decrescendo. Várias equipes especializadas acompanham diariamente a evolução da pandemia e podem alertar a sociedade para um retorno à quarenta, caso considerem necessário.

Wanderley de Souza

Professor titular da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina.

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