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O PIB do primeiro trimestre de 2026

Segundo o economista Roberto Luis Troster, PIB para 2026 está sendo subestimado. Para 2027, a dúvida é saber se a ressaca será boa ou ruim.

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roberto luis troster
Roberto Luis Troster (foto divulgação)

Conversamos com o economista Roberto Luis Troster sobre o PIB do 1T26, que cresceu 1,1% em relação ao 4T25. Em relação ao 1T25, o PIB cresceu 1,8%, e nos últimos quatro trimestres, 2%. Pela ótica da produção, Agropecuária, Indústria e Serviços cresceram, respectivamente, 2%, 1% e 0,5%, em relação ao 4T25.

Qual a sua avaliação sobre o PIB do 1T26?

Somando os prós e contras, a minha avaliação é positiva. O crescimento anual de 2% mostrou um PIB forte e resiliente, apesar dos problemas, como a alta taxa de juros. O único senão foi a Formação Bruta de Capital Fixo, que é o grande freio no crescimento do país para os próximos anos. O Brasil está recebendo muito dinheiro de fora, mas esse dinheiro não está se transformando em investimento, e sim em aplicação financeira. Esse é um dinheiro que vem, rende juros e vai embora, quando nós precisamos de mais investimentos para crescermos no longo prazo.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho de Serviços, Indústria e Agro?

O avanço de Serviços está diretamente relacionado ao consumo das famílias, que cresceu 1% na margem devido ao aumento do salário mínimo e à isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil. A Indústria teve um desempenho muito bom, com destaque para a Indústria de Transformação. O Agro foi bem, mas o seu desempenho depende de fatores exógenos como o clima.

O desempenho do Agro em 2025 pode se repetir em 2026?

Depende. As projeções indicam uma safra 3,6% maior em relação a 2025, mas existe a ameaça de um Super El Niño para este ano. O desempenho de 2025 pode se repetir, até porque São Pedro, que deve ser brasileiro, tem ajudado muito o Brasil, mas é um risco achar que o país vai passar incólume indefinidamente. Não podemos nos esquecer do problema enfrentado pelo Rio Grande do Sul há dois anos.

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Depois de ter crescido 2,3% em 2025, o PIB, segundo o último boletim Focus, deve crescer 1,89% em 2026 e 1,7% em 2027. Como essas informações devem ser interpretadas?

Aqui nós temos dois pontos. O primeiro é que estão subestimando o potencial de crescimento para 2026. A minha projeção indica um crescimento de 2,2%. O segundo é que podemos ter uma ressaca em 2027, que dependendo das ações que forem tomadas a partir do próximo dia 5 de janeiro, pode ser boa ou ruim.

Se os cortes de gastos forem bem feitos, isso sinalizaria um compromisso com políticas econômicas consistentes, aumentaria os investimentos e faria com que o país crescesse mais. Neste caso, nós teríamos uma boa ressaca. Contudo, se os cortes levarem a uma queda da atividade econômica, nós teremos uma ressaca ruim.

Se os ajustes forem inteligentes, o país pode crescer mais do que 1,7% em 2027, mas se isso não acontecer, o país vai continuar pagando juros muito altos para crescer pouco.

Com relação a expectativa sobre o PIB de 2027, quando ela, de fato, entra no radar?

O PIB de 2027 deveria ter entrado no radar em 2017. O Brasil olha muito para o curto prazo, quando deveria estar olhando para o que vai acontecer nos próximos 10 anos. Como flutuações de curto prazo dependem de fatores conjunturais, como cenário internacional ou clima, o crescimento que conta, que realmente mostra potencial, é o de longo prazo. Por exemplo, a China começou a montar planos quinquenais na década de 1950.

Agora em 2026, o Brasil deveria estar olhando para 2036, justamente para não ficar tão dependente do curto prazo. Essa miopia que existe na política econômica e na política gerencial é resultado do instável quadro macroeconômico que tivemos nas últimas décadas.

O que falta para que o PIB brasileiro cresça de forma sólida, estruturada e consistente?

O que falta é visão de longo prazo. O Brasil precisa olhar distante e ver o que precisa ser feito. Além disso, o país precisa ajustar uma série de aspectos, como as contas públicas e o papel do próprio Estado, já que a reforma administrativa, que está sendo discutida, foca muito mais em cargos e salários. O governo precisa ser reestruturado para funcionar de forma mais eficiente. Por exemplo, a Embrapa, o baixo clero do Judiciário, a Polícia Federal e a Receita Federal funcionam bem, mas não é todo o governo que funciona assim.

Outro aspecto é a eficiência do governo. Por exemplo, a base do crescimento para 2036 é a educação primária, mas um aluno do ensino universitário público federal custa, em média, 12 vezes mais que um aluno do primário que recebe uma educação deficiente.

O ambiente de negócios também precisa melhorar. O Brasil não aparece bem em rankings mundiais de ambiente de negócios e de tributação. A Reforma Tributária melhorou um pouco essa questão, mas ao invés de termos um IVA, nós vamos ter dois, e em vez de termos uma alíquota para tudo, já existem uma série de reduções e cada estado e município podem ter suas alíquotas [Troster se refere ao IBS]. Além disso, nós teremos uma transição de 8 anos em vez de termos uma transição rápida.

Com relação ao Imposto de Renda, o governo colocou um pouquinho de perfume com a isenção até R$ 5 mil e a cobrança sobre dividendos acima de R$ 50 mil. Ou seja, não há uma preocupação com a consistência fiscal. 

Isso é ruim, pois nós temos excelência em áreas como tecnologia, fintechs e pesquisa agrícola. É como se tivéssemos dois Brasis. Um moderno, que está entre os melhores do mundo, e um arcaico.

Por fim, é preciso reformar o sistema de crédito, que não funciona mais. Em um país com mais de 80 milhões de negativados, um programa como o Desenrola apenas posterga a hora da verdade. Se todas essas dívidas fossem perdoadas, em pouco tempo teríamos o mesmo quadro novamente, já que a raiz do problema não está sendo atacada.

Como você está vendo a possibilidade de crises para os próximos anos?

Eu vejo uma possibilidade muito grande. A dívida pública segue crescendo, e as projeções indicam que ela vai seguir essa trajetória nos próximos anos. Segundo o IFI, Instituto Fiscal Independente, a dívida pública deve atingir 117% do PIB em 7 anos. Isso se deve à alta taxa de juros, ao déficit fiscal e ao déficit da previdência. Como esse modelo é inconsistente, se não houver uma mudança, nós vamos ter uma crise. A questão é saber se isso será daqui a 2, 5 ou 10 anos.

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