O P&L da Copa do Mundo: como a FIFA escalou um negócio bilionário global

Entenda como a FIFA estruturou um modelo bilionário global com a Copa do Mundo, centralizando receitas e descentralizando custos ao longo dos ciclos. Por Felipe Araujo

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Copa do Mundo, rua decorada (foto de Fernando Frazão, ABr)
Copa do Mundo, rua decorada (foto de Fernando Frazão, ABr)

A Copa do Mundo não evoluiu apenas dentro de campo. Ela evoluiu, principalmente, como produto financeiro. A FIFA construiu, ao longo das últimas décadas, um modelo de negócio altamente eficiente, baseado em receita global centralizada e custos estruturais descentralizados. Porém, surge uma pergunta de cunho financeiro: onde está o P&L e a DRE desse negócio? Isso existe?

A resposta não é direta. Grande parte do que a FIFA apresenta está diluído em relatórios por ciclo, o que dificulta a leitura clara de uma demonstração específica da Copa. Assim como o tema do legado, que abordamos no último artigo, muitos pontos permanecem mais no campo interpretativo do que na transparência objetiva.

A Copa do Mundo dá lucro? Formalmente, não há um P&L isolado que comprove isso de forma direta. Mas há uma certeza: ela gera muito dinheiro.


1994: o início do modelo moderno

A Copa realizada nos Estados Unidos marcou o início da transformação comercial do torneio. Os números ainda eram modestos em comparação aos padrões atuais, mas já indicavam o caminho: a receita total aproximada do ciclo ficou entre US$ 1,4 e 1,6 bilhão, com cerca de US$ 500 milhões provenientes de direitos de mídia e aproximadamente US$ 300 milhões de marketing e patrocínio.

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O evento foi altamente lucrativo para a FIFA, sobretudo porque o país já possuía infraestrutura pronta, o que reduziu o risco sistêmico e demonstrou, pela primeira vez, que a Copa poderia ser operada como um ativo global escalável. É nesse contexto que se consolida o conceito central do P&L da FIFA: receita global, custo controlado e baixa exposição a CAPEX.


2002: a primeira Copa em dois países

A edição realizada por Coreia do Sul e Japão trouxe uma inovação estrutural importante: a divisão de sede.

Os números evidenciam a evolução do modelo. A receita do ciclo 1999–2002 alcançou aproximadamente US$ 2,7 bilhões, sendo cerca de US$ 1,3 bilhão provenientes de direitos de mídia e aproximadamente US$ 800 milhões de marketing. O resultado líquido do ciclo ficou em torno de US$ 115 milhões.

Enquanto isso, os dois países investiram mais de US$ 7 bilhões em infraestrutura. A leitura é direta: a receita da FIFA praticamente dobrou em relação a 1994, mas o custo estrutural permaneceu fora do seu balanço.

O modelo começava a ganhar escala. Vale lembrar que, nesse contexto, a Copa também ampliou significativamente sua presença na Ásia, consolidando a estratégia da FIFA de se posicionar como um mercado global. Não por acaso, foi após esse torneio que a China passou a ganhar maior visibilidade no mapa do futebol mundial.


2026: a Copa como plataforma global de máxima escala

A próxima edição, sediada por Estados Unidos, México e Canadá, representa o ápice dessa evolução. Pela primeira vez, o torneio contará com 48 seleções e três países como sede.

As projeções oficiais da FIFA para o ciclo 2023–2026 indicam uma receita total estimada em cerca de US$ 11 bilhões, com direitos de mídia entre US$ 5,5 e 6 bilhões, marketing em torno de US$ 3 bilhões e hospitalidade e bilheteria superando US$ 2 bilhões. O resultado esperado é um superávit superior a US$ 2 bilhões.

O ponto central está na estrutura de custos. Grande parte da infraestrutura já existe, especialmente nos Estados Unidos. Isso significa que a FIFA amplia significativamente sua receita sem elevar, na mesma proporção, o nível de risco.

A questão, no entanto, é entender o P&L da Copa. Na prática, essa informação não aparece de forma organizada e direta. Ao longo dos ciclos, a FIFA consolidou um entendimento estratégico: a Copa do Mundo é um produto global extremamente poderoso, que também funciona como instrumento de influência econômica e política. Não há um P&L consolidado da competição como uma unidade isolada.

O que existe são relatórios fragmentados que, muitas vezes, servem mais para justificar a alocação de recursos do que para oferecer uma visão financeira clara do evento. Ainda assim, é evidente que o negócio gera muito dinheiro, e que essa geração cresce a cada ciclo.

A Copa é uma das poucas competições capazes de mobilizar o mundo inteiro, e é justamente nesse ponto que a FIFA mais desenvolveu seu produto. Patrocínios cada vez maiores, alcance global praticamente total e um nível de penetração cultural singular fazem com que até mesmo quem não acompanha futebol consuma o evento de forma indireta. De produtos no varejo a grandes campanhas publicitárias, tudo se conecta à competição, e o consumidor, muitas vezes sem perceber, passa a integrar essa cadeia de monetização.

Para entender completamente o P&L, seria necessário consolidar anos de dados e relatórios, já que o custo estrutural permanece concentrado nos países-sede, sustentado pela narrativa do legado, enquanto a receita global continua centralizada na FIFA. O ciclo se encerra, outro começa, e o modelo se repete. Falando em legado, não deixe de ler nosso artigo anterior.

Na próxima edição, vamos abordar um novo ponto: quanto custa, de fato, levar uma delegação para disputar a Copa do Mundo e qual é o papel da FIFA nesse processo.


Felipe Araujo, Diretor Executivo e Estratégia no Futebol

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