O ‘ponto de não retorno’ da Floresta Amazônica

Momento em que não consegue mais se regenerar pode chegar em 15 a 30 anos.

Entre 2019 e 2020, houve um aumento de desmatamento na Amazônia Legal em relação ao mesmo período do ano anterior, sendo que o mês de julho de 2020 registrou 1.654km² desmatados segundo dados do Inpe. Ao total já foram desmatados cerca de 17% da cobertura total da floresta, o que equivale a 700 mil km² de sua área.

Com o desmatamento, a floresta perde a capacidade de estocar carbono e regular o clima, há uma perda da biodiversidade – que é a verdadeira riqueza de poucos países e ainda mal explorada – não tem mais como evitar a proliferação de doenças e deixa de oferecer oportunidades econômicas de baixo impacto.

A perda de vegetação na Amazônia pelo desmatamento tem implicações graves para as emissões globais de gases de efeito estufa e a perda da biodiversidade. A degradação florestal está ligada a surtos de doenças infecciosas como resultado do maior contato entre humanos e a vida selvagem desabrigada. Especialistas alertam que a Amazônia pode ser a fonte da próxima pandemia.

Além do desmatamento, importa também o alto índice de degradação da floresta. A degradação se apresenta por perturbações decorrentes da influência humana e é mais difícil de ser percebida do que o desmatamento, já que não se apresenta pela remoção ou queima da vegetação local, mas por uma devastação lenta em diferentes locais decorrente do empobrecimento do solo pelo excesso de áreas descobertas e alteração do ciclo das chuvas, com pouca chance de recuperação.

O solo da Amazônia é protegido pela sombra de suas árvores e não possui uma estrutura que permita a sua fácil recomposição ou regeneração das espécies a exemplo de outras florestas que foram recompostas. A Floresta Amazônica possui um solo dotado de fina e sensível cobertura vegetal sobre terreno arenoso que facilmente se expande quando há uma perturbação em sua estrutura provocada pela ação humana, especialmente com a abertura de clarões por onde penetra com intensidade os raios solares. Por esse motivo, dizem os cientistas, a Amazônia está cada dia mais próxima de atingir o que os cientistas chamam de “ponto de não retorno”.

O climatologista Carlos Nobre adverte que se esse ritmo de devastação for mantido o “ponto de não retorno”, ou seja, o ponto em que a floresta não consegue mais se regenerar diante das agressões sofridas, pode chegar entre 15 e 30 anos. Existem dados sobre o aumento da temperatura nas regiões sul e leste da floresta, nas quais a estação seca do ano está mais longa.

É necessário compreender que a Floresta Amazônica necessita ser preservada em prol da sustentabilidade econômica e de uma economia sustentável. Sem ela, perderemos nossas riquezas oriundas do aproveitamento da biodiversidade e a chance de mostrarmos ao mundo a possibilidade do desenvolvimento sustentável capaz de elevar uma nação ao rol dos países desenvolvidos. Regulamentar atividades de exploração energética e garimpo em terras indígenas, a exemplo do Projeto 192/2020, pode ser uma solução, mas sem uma regulamentação rígida sobre a exploração sustentável, a floresta pode ser consumida pelo mercúrio e óleo jogado nos rios e que certamente respingarão em todos nós.

A capacidade humana de alterar as funções vitais do planeta é imensurável. As consequências desse “ponto de não retorno” na Amazônia afetarão a vida de todos no Brasil e no mundo. A substituição do modelo predatório da atividade econômica hoje presente na Amazônia por uma atividade sustentável não é mais uma necessidade, é uma urgência. Quando a Constituição de 1988 atribuiu à Floresta Amazônica a qualidade de patrimônio nacional, não teve em vista um valor meramente simbólico, mas de concretude na sua defesa.

Por isso a importância em superar os retrocessos e avançar com atores vigilantes, de combater os efeitos nocivos que atingiram o sistema nacional do meio ambiente, da necessidade de espaço de participação social para produzir informações pró-sociedade, da importância do desempenho do Brasil no contexto das conferências do clima. Mais do que tudo, é necessária a fé no espírito de solidariedade da espécie humana e o despertar da consciência ambiental que permeia a existência de cada um. Afinal, como diz Almir Sater, é preciso chuva para florir, e cada um de nós carrega o dom de ser feliz. Vamos tocando em frente.

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A Década do Oceano

Ana Rita Albuquerque
Doutora em direito civil pela UERJ.

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