O preço da mentira

Alguém está mentindo na questão das perdas das distribuidoras de energia elétrica com o racionamento. E o resultado desta mentira, se prosperar, será novo assalto ao bolso do consumidor, residencial ou industrial. As cifras mais faladas destas supostas perdas – como se os demais setores da economia também não estivessem sofrendo com o racionamento – chegam a R$ 6 bilhões. Tal valor não encontra respaldo nas contas das distribuidoras, pelo menos não nos balanços que apresentam na hora de pagar (ou não pagar) impostos e obrigações fiscais.
Uma conta simples mostra que as perdas das distribuidoras estão a anos-luz do que vem sendo ventilado extra-oficialmente. O consumo de energia elétrica no país em 2001 deveria ficar em torno de 300 mil GWh (300 milhões de quilowatts), segundo dados da Eletrobrás – que ainda existe, apesar de alguns atores do setor elétrico preferirem vê-la extinta, deixando mais espaço para a complacente Aneeel. Do consumo de 300 mil GWh, 50 mil GWh ficariam na Região Sul, que está fora do racionamento e portanto das supostas perdas. Sobram portanto 250 mil GWh. Apenas para facilitar a conta, digamos que – por baixo –  10 mil GWh venham de geração própria e, assim, não passam pelo faturamento das distribuidoras. Restam 240 mil GWh, ou 20 mil GWh por mês.
Seriam portanto consumidos 140 mil GWh nos sete meses, do início do racionamento até o final do ano. Porém, as distribuidoras não faturam, em média, 10% do que compram, por perdas diversas, como furto de energia (o popular “gato”). Perdas bem acima da média internacional que se situa entre 1% e 2% e cujo combate tem sido relegado a segundo plano pelas empresas daqui, satisfeitas com o mercado cativo e as elevadas tarifas. Sobram portanto 112 mil GWH a serem faturados. Se a economia forçada se mantiver em 20% – nem o governo sabe que percentual vai vigorar no verão – isso significa que as distribuidoras teriam uma perda teórica de 22,4 mil GWh.
Recorrendo novamente à Eletrobrás, vemos que a tarifa média cobrada pelas distribuidoras em 2000 era de R$ 108,01 o MWh (já sem o ICMS). Já o que as companhias pagaram pelo que compraram das geradoras ficou em R$ 36,73 o MWh. O faturamento líquido, portanto, foi em média de R$ 71,28 o MWh no ano passado. O generoso aumento que vem sendo concedido às distribuidoras em 2001 está na faixa de 16%. Chega-se a um valor médio de R$ 82,69 o MWh.
Na nossa continha – já não tão pequena assim – chegamos a R$ 82,69 multiplicados pelos 22,4 milhões KWh que deixariam de ser faturados. Resultado: R$ 1,852 bilhão. Ou menos de um terço das supostas perdas. O número real, porém, será ainda menor. Basta levar em conta alguns fatores: a maior parte do consumo ocorre no verão, quando o racionamento deve ser abrandado; a redução de consumo no Nordeste é metade do que a prevista; e boa parte da queda dos gastos se deve à desaceleração da economia e não ao racionamento.
Mercadoria
O que se pretende é encenar uma crise muito mais forte que a existente para propiciar um “Proel” para as distribuidoras (por alguma razão nem tão difícil de se compreender, não se fala em perdas das geradoras, quase todas estatais). As tarifas, desde a privatização, já subiram 108%, bem acima da inflação.
Este, porém seria o objetivo secundário. O principal é transformar a energia elétrica numa commodity, propiciando gordos lucros para empresas estrangeiras que assistem a restrições em seus mercados de origem. Viabilizaria também a instalação a toque de caixa de termelétricas para atuar nesse gordo mercado, apesar de operar na produção real não ser a prioridade para tal tipo de empresa. Esse tipo de combinação já deu errado na Califórnia, motivo do cerceamento às ações desses “players” nos Estados Unidos.

Restrições
A intensificação dos bombardeios ao Afeganistão faz crescer, geométrica e proporcionalmente, as restrições à ação militar dos Estados Unidos. A semana começa com o chefe do Comitê Parlamentar para assuntos da Comunidade de Países Independentes (CEI) – reúne ex-repúblicas soviéticas – e Relações com os Compatriotas no Estrangeiro, Boris Pastukhov, apressando-se em advertir Washington de que o apoio do Uzbequistão aos EUA “não ultrapassará o limite depois do qual será posta em jogo a sua soberania”. O parlamentar salientou que o acordo com os EUA se limita à cessão de aeródromos para atendimento médico e fornecimento de cargas humanitárias e equipamentos, excluindo o uso de corredores aéreos e pistas para bombardeios e operações militares. “Afinal, esse é um assunto interno da república”, frisou.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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