O problema é a ressaca

A votação no Senado favorável aos aplicativos de transporte individual e a indicação de que o Planalto vetará qualquer lei restritiva sugerem que ou o governo está preocupado com o efeito no emprego – o desemprego só não estourou porque muitos trabalhadores conseguem um bico de motorista – ou as práticas que a Lava Jato prometeu varrer do país estão mais firmes e fortes que nunca. Provavelmente, ambos.

O que há de fundo, porém, é o projeto de transformar o subemprego e a extrema exploração em padrão. Os aplicativos de transporte abocanham 25% do ganho do trabalhador, não fornecem os meios de produção e não garantem qualquer direito (isto no jurássico Brasil com sua obsoleta CLT, já que em países que se gabam da legislação trabalhista “moderna”, como EUA e Reino Unido, os direitos dos empregados estão sendo reconhecidos, e as empresas, obrigadas a arcar com suas obrigações). A relação de trabalho é clara, mas escamoteada para garantir máximo lucro e mínimo risco.

Nesse ritmo, daqui a pouco veremos apps de trabalho, em que empresas anunciarão suas necessidades no momento e trabalhadores desempregados, necessitando sobreviver, se submeterão a qualquer humilhação e condição degradante. Qualquer semelhança com um vídeo humorístico(?) que circula pelas redes, comparando o processo de seleção a um programa tipo The Voice, não será coincidência. Com as mudanças na CLT, que entram em vigor dia 11, uma operadora de franquia está oferecendo vagas com salário de R$ 4,45 por hora, para trabalhar cinco horas nos sábados e domingos (a coluna facilita as contas: são R$ 22,25 por dia, o que dá para comprar um Big Bob Artesanal e ficar com R$ 0,75 de troco; por mês, são impressionantes R$ 178). Já receberam 1,1 mil currículos.

A discussão não pode se limitar ao conforto e ao bolso do consumidor. Afinal, se levarmos este pensamento ao infinito, que se libere a venda de crack: dá satisfação imediata por um preço menor que o de uma garrafa de cachaça.

 

Apito

O árbitro de vídeo decidiu o jogo entre os argentinos Lanús e River Plate, na noite desta terça-feira. O River ganhava por 2×0, e seu rival precisaria de quatro gols para se classificar às finais da Libertadores. Conseguiu, sendo que dois deles com ajuda da TV – uma para tirar dúvida sobre impedimento, e a outra para confirmar um pênalti.

Acontece que o árbitro de vídeo não foi decisivo apenas nestes dois casos. No primeiro tempo, quando já ganhava por 2×0, o River Plate teve um pênalti a seu favor; o juiz não viu, mas a TV, sim. Porém, o recurso, que seria fundamental para definir a classificação, não foi utilizado.

Moral da história: o problema não é a tecnologia, mas o modo como é usada – e, principalmente, quem o comanda.

 

A voz do povo

Para desespero dos entreguistas, que não acreditam no Brasil e em nosso povo, a Petrobras foi escolhida, no Top of Mind, da Folha de S.Paulo, pelo 15º ano consecutivo, como a marca que representa o Brasil. A estatal também liderou nas categorias Combustível e Óleo Lubrificante, atestando a liderança da BR Distribuidora, que o Governo Temer deseja privatizar.

O Banco do Brasil e a Caixa encabeçaram a categoria Finanças. A pesquisa é feita junto ao público em geral para selecionar as empresas que se destacam em 63 categorias.

 

Alô, Meirelles!

A Sem Parar, que opera sistemas de pedágio automático, elevou a mensalidade de R$ 16,41 para R$ 21,74, um aumento de 32,5%. Pelo visto, não acreditam no índice de inflação oficial.

 

 

Rápidas

O departamento forense da KPMG no Brasil passou a ser liderado por Antônio Gesteira. O setor, que possui dois laboratórios de alta tecnologia, reúne mais de cem profissionais dedicados à investigação de fraudes *** A Reforma Trabalhista, que passa a vigorar no dia 11, será tema da palestra feita pela Roncato Advogados na próxima quarta-feira, às 9h, em São Paulo. Inscrição gratuita pelo e-mail comunicao@roncatoadvogados.com.br *** A banda Mr. Guns Cover Brasil abre a temporada de novembro do projeto Shows de Sexta do Caxias Shopping (RJ), sempre às 19h30 *** O Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA) realiza, nos dias 9 e 10, o I Congresso Internacional de Mediação, na Firjan. Informações: cbma@cbma.com.br *** Na segunda, a partir das 14h, será realizado na Fiesp oficina Brasil-Portugal sobre gestão de resíduos sólidos. Mais informações: www.fiesp.com.br/agenda/workshop-brasil-portugal-sobre-gestao-de-residuos-solidos/

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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