Todos os anos, milhões de brasileiros cumprem uma obrigação fiscal e, sem perceber, deixam passar uma oportunidade concreta de transformação social. A destinação de parte do Imposto de Renda (IR) para fundos que apoiam crianças, adolescentes e idosos segue sendo um dos mecanismos mais eficientes e, ao mesmo tempo, menos aproveitados de impacto coletivo no país.
Os números mais recentes comprovam essa realidade. Na declaração de 2025, o potencial estimado de destinação por pessoas físicas chegou a R$ 14,76 bilhões. No entanto, apenas R$ 394,54 milhões foram efetivamente direcionados, distribuídos em 290.425 doações. Em outras palavras: menos de 3% do potencial disponível foi utilizado.
Isso significa que mais de R$ 14 bilhões deixaram de reforçar projetos sociais já estruturados, conselhos municipais, redes de proteção à infância e iniciativas de cuidado com a população idosa. Recursos que não exigiriam aumento da carga tributária, criação de novos impostos ou programas públicos complexos. O dinheiro já existe. Falta decisão e, sobretudo, informação.
O problema, neste caso, não é tributário. É comunicacional.
Durante décadas, o Imposto de Renda foi tratado apenas como um dever burocrático. Pouco se discutiu sobre seu potencial como instrumento de cidadania. O contribuinte aprendeu a declarar, pagar, restituir e evitar erros. Não aprendeu a escolher o destino de parte desse recurso.
Quando observamos que 58,2% das destinações foram para fundos da Criança e do Adolescente e 41,8% para fundos da Pessoa Idosa, fica evidente que existe sensibilidade social entre os brasileiros. O que ainda falta é escala. É por isso que 2026 pode representar um ponto de inflexão.
Hoje, o país conta com um ambiente mais favorável do que em anos anteriores: digitalização do processo de declaração, maior familiaridade da população com aplicativos financeiros, crescimento da agenda ESG nas empresas e amadurecimento das organizações sociais em transparência e prestação de contas.
Se governos, empresas, contadores, imprensa e terceiro setor atuarem de forma coordenada, a arrecadação pode avançar de maneira significativa já no próximo ciclo. Não é irrealista imaginar que o país ultrapasse a marca de R$ 1 bilhão em destinações nos próximos anos -desde que o tema seja tratado como prioridade estratégica.
Para isso, três movimentos são essenciais.
O primeiro é simplificar a mensagem: doar via IR não custa mais ao contribuinte. Ele apenas decide onde parte do imposto será aplicada.
O segundo é regionalizar a narrativa. Quando o cidadão entende que pode fortalecer projetos de sua cidade, escola, abrigo ou hospital local, a adesão cresce e o impacto social se torna visível de forma direta.
O terceiro é transformar contadores e consultorias em agentes de mobilização. Nenhum canal possui tanta credibilidade nesse momento quanto o profissional que acompanha a declaração.
O Brasil discute, com razão, como financiar políticas públicas e reduzir desigualdades. Mas talvez uma parte relevante da resposta já esteja dentro do programa da Receita Federal, aguardando um clique. 2026 pode ser o ano em que deixaremos de enxergar o Imposto de Renda apenas como cobrança e passaremos a entendê-lo também como escolha.
Porque, quando o contribuinte participa do destino do recurso, o imposto deixa de ser somente obrigação e se transforma em legado para a sociedade.
Vanessa Pires, CEO da Brada

















