O problema da arrecadação social no Brasil não é tributário, é comunicacional

Baixa adesão à destinação do Imposto de Renda para fundos sociais evidencia falhas de informação e reduz o financiamento de projetos no Brasil Por Vanessa Pires

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Imposto de Renda IR 2025; homem consulta site e app da Receita Federal
Imposto de Renda 2025 (foto de Joédson Alves, ABr)

Todos os anos, milhões de brasileiros cumprem uma obrigação fiscal e, sem perceber, deixam passar uma oportunidade concreta de transformação social. A destinação de parte do Imposto de Renda (IR) para fundos que apoiam crianças, adolescentes e idosos segue sendo um dos mecanismos mais eficientes e, ao mesmo tempo, menos aproveitados de impacto coletivo no país.

Os números mais recentes comprovam essa realidade. Na declaração de 2025, o potencial estimado de destinação por pessoas físicas chegou a R$ 14,76 bilhões. No entanto, apenas R$ 394,54 milhões foram efetivamente direcionados, distribuídos em 290.425 doações. Em outras palavras: menos de 3% do potencial disponível foi utilizado.

Isso significa que mais de R$ 14 bilhões deixaram de reforçar projetos sociais já estruturados, conselhos municipais, redes de proteção à infância e iniciativas de cuidado com a população idosa. Recursos que não exigiriam aumento da carga tributária, criação de novos impostos ou programas públicos complexos. O dinheiro já existe. Falta decisão e, sobretudo, informação.

O problema, neste caso, não é tributário. É comunicacional.

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Durante décadas, o Imposto de Renda foi tratado apenas como um dever burocrático. Pouco se discutiu sobre seu potencial como instrumento de cidadania. O contribuinte aprendeu a declarar, pagar, restituir e evitar erros. Não aprendeu a escolher o destino de parte desse recurso.

Quando observamos que 58,2% das destinações foram para fundos da Criança e do Adolescente e 41,8% para fundos da Pessoa Idosa, fica evidente que existe sensibilidade social entre os brasileiros. O que ainda falta é escala. É por isso que 2026 pode representar um ponto de inflexão.

Hoje, o país conta com um ambiente mais favorável do que em anos anteriores: digitalização do processo de declaração, maior familiaridade da população com aplicativos financeiros, crescimento da agenda ESG nas empresas e amadurecimento das organizações sociais em transparência e prestação de contas.

Se governos, empresas, contadores, imprensa e terceiro setor atuarem de forma coordenada, a arrecadação pode avançar de maneira significativa já no próximo ciclo. Não é irrealista imaginar que o país ultrapasse a marca de R$ 1 bilhão em destinações nos próximos anos -desde que o tema seja tratado como prioridade estratégica.

Para isso, três movimentos são essenciais.

O primeiro é simplificar a mensagem: doar via IR não custa mais ao contribuinte. Ele apenas decide onde parte do imposto será aplicada.

O segundo é regionalizar a narrativa. Quando o cidadão entende que pode fortalecer projetos de sua cidade, escola, abrigo ou hospital local, a adesão cresce e o impacto social se torna visível de forma direta.

O terceiro é transformar contadores e consultorias em agentes de mobilização. Nenhum canal possui tanta credibilidade nesse momento quanto o profissional que acompanha a declaração.

O Brasil discute, com razão, como financiar políticas públicas e reduzir desigualdades. Mas talvez uma parte relevante da resposta já esteja dentro do programa da Receita Federal, aguardando um clique. 2026 pode ser o ano em que deixaremos de enxergar o Imposto de Renda apenas como cobrança e passaremos a entendê-lo também como escolha.

Porque, quando o contribuinte participa do destino do recurso, o imposto deixa de ser somente obrigação e se transforma em legado para a sociedade.


Vanessa Pires, CEO da Brada

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