O que é que o Equador tem que o Brasil não tem?

Bob Dylan no Méier, desmatamento em alta, operação contra o ministro.

O que é que o Equador tem que o Brasil não tem? Lá, ele usa máscara. Aqui, debocha dela e, com isso, cospe na cara dos familiares de mais de 450 mil vítimas fatais da Covid-19. Sem um gesto, ou uma visita, ou ainda uma palavra de solidariedade às famílias enlutadas. Toda vez que o ronco de uma motocicleta se aproxima e corta o silêncio, eu me lembro dele nas suas jornadas sorridentes de escárnio.

 

O dia em que Bob Dylan me deu carona

A minha geração é aquela que sentiu no rosto a brisa que restou do furacão do final dos anos 1960 e início dos anos 1970, vinda do Hemisfério Norte. Bob Dylan (Duluth, Minnesota, EUA; 24 de maio de 1941; idade 80 anos), nascido Robert Allen Zimmerman, sobrenome pelo qual o pessoal da Contracultura o chamava, marcou a todos nós de forma indelével, com suas baladas (Like a Rolling Stone, 1965; The Times They Are A-Changing, 1964; Blowin’ in The Wind, 1965; e mais umas seiscentas outras). Pai de Jakob, Desiree Gabrielle Dennis-Dylan, Sam, Anna, e Maria. Como conseguiu compor tantas músicas memoráveis com esta filharada?

Formou duplas inesquecíveis com Joan Baez (Staten Island/New York/NY; 9 de janeiro de 1941; idade 80 anos) e Bernice Johnson Reagon (Dougherty/ Geórgia; EUA; 4 de outubro de 1942, idade 78 anos), cantando o que era chamado de “canção de protesto”, como se fosse um gênero musical.

Um dia, Bob Dylan veio ao cemitério de elefantes chamado Brasil. Uma jogada de marketing ousada do grupo de empresários que passou a programar a então recente casa de espetáculos, derivada do tradicional cinema Imperator no distante subúrbio da Central (como era chamado) do Méier. Uma atração internacional deste porte, fora do circuito óbvio da Zona Sul do Rio de Janeiro, era pura ousadia.

Para o pessoal da minha turma era Dylan, Beatles, e Rolling Stones versus a Turma da Jovem Guarda, complexo de controle social arquitetado pela ditadura para conter a garotada, até nos bailinhos de finais de semana. Somada ao DL 477 (controle na Universidade), ao estágio (controle nos períodos de contra-aulas) e Operação Mauá mais Projeto Rondon (controle nas férias escolares).

Fui lá conferir a apresentação do hoje Nobel de Literatura (desde 2016), quando um carro encosta próximo ao meio-fio e o motorista me pergunta: “Por favor, Rua Dias da Cruz, sabe onde é? O cantor aí atrás já está atrasado.” Claro que eu sabia, era o meu terreiro. Expliquei direitinho (estou indo pra lá, acrescentei), mas não me fiz entender. “Entra aqui, te levo lá”, falou o condutor. Entrei e desci na porta do antigo Cine Imperator.

Ainda deu tempo de ouvir um “bye”, vindo do banco de trás.

 

Cresce o desmatamento por corte raso na Amazônia

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), anualmente, divulga a taxa consolidada de desmatamento para os nove estados que formam a Amazônia Legal Brasileira (ALB). O valor consolidado da área desmatada por corte raso, de 1º de agosto de 2019 a 31 de julho de 2020, é de 10.851 km², número que significa um aumento de 7,13%, em relação à taxa de desmatamento em 2019, que foi de 10.129 km², somados os nove estados da ALB. Desmatamento é definido como remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso, qualquer que seja o uso futuro dessas áreas.

Em 2020, quatro dos nove estados da ALB somados (PA, MT, AM, RO) representaram 87,21% de todo o desmatamento, sendo o Estado do Pará o mais atingido, com a perda de 4.899 km² de floresta.

 

Operação Akuanduma

Em 19 de maio, municiada dos mandados devidos, a Polícia Federal deflagrou a operação Akuanduma, com o propósito de apurar suspeitas de facilitação à exportação ilegal de madeira, do Brasil para os EUA e Europa. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o “porteiro”, é um dos investigados, com a autorização do ministro do STF Alexandre de Moraes.

Outra investigada é a Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Estado do Pará (Aimex), por suspeita de esquentar documentos para dar suporte a operações irregulares, ocorridas em 2019 e 2020. Em sua página, a Aimex faz a seguinte profissão de ética. Entre aspas:

“Servir os associados da Aimex envolvidos no comércio de madeira tropical, mantendo a ordem, a estrutura e a ética no mercado global; promover espécies de madeira do Estado do Pará e defender o interesse do setor florestal madeireiro em questões de políticas públicas/privadas; incentivar a exploração sustentada, racional e equilibrada da floresta através do Plano de Manejo Florestal Autossustentado como condição básica para a perpetuação do recurso florestal, de forma que o setor florestal madeireiro possa ser o vetor do desenvolvimento sustentado da economia, associando a conservação da cobertura vegetal e os benefícios dela oriundos com a geração de emprego e renda, contribuindo para que as populações que aqui vivem possam ter um padrão de vida condizente com a riqueza natural da região.”

Que fofo.

 

‘Papai mudou o mundo’

Na passagem da data histórica de 1 ano do assassinato de George Perry Floyd Jr (14/10/1973; Fayetteville/NC – 25/5/2020; Minneapolis/Minn.), afro-americano torturado até a morte pelo então policial Derek Chauvin, detido que foi (“Não consigo respirar”, repetia ele para o policial algoz, lembra-se?) pelo suposto uso de uma cédula falsa de US$ 20 em um supermercado. Gianna Floyd (a filha de 6 anos) declarou, com justo orgulho: “Papai mudou o mundo.”

 

#vacina sim.

Vacinação “PARE-SIGA”: Brasil, país onde até vacina tem torcida.

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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