O que está acontecendo com o Magazine Luiza e a Via Varejo?

Companhias dependem muito de crédito e sofrem com alta dos juros.

Conversamos com três especialistas do mercado de ações sobre o que está acontecendo com o Magazine Luiza (MGLU3) e a Via Varejo (VIIA3), e quais são as perspectivas de recuperação dessas ações. No ano, as ações do Magazine Luiza e da Via Varejo acumulam baixas de 45% e de 43%, respectivamente. Desde o final de 2020, as baixas são de 84% e 81%.

Bruno Komura (foto divulgação Ouro Preto)
Bruno Komura, analista da Ouro Preto Investimentos

Eu acredito que os papéis da Magazine Luiza e da Via Varejo estão se movimentando muito mais por fatores macros do que por fundamentos das empresas. Precisamos entender que a inflação tende a arrefecer no segundo semestre, tirando a pressão sobre o consumo da população, e que a curva de juros já está dando uma aliviada.

Quanto maior os juros, maior a taxa de financiamento e de crédito concedido no mercado, o que afeta o principal produto dessas empresas: o consumo. A taxa de juros mais baixa ajuda bastante no consumo e na parte técnica de valuation.

Como são empresas que estão crescendo, que estão precisando de recursos para financiar esse crescimento e que têm grande parte do fluxo de caixa e do lucro no passado, e não nesse ano ou no próximo, a taxa de juros tem um impacto bastante significativo.

Em relação ao valuation, se o lucro estiver no futuro, nós temos a taxa de desconto e toda a ideia de valor do dinheiro no tempo. Quanto maior a taxa de juros, maior é o custo de oportunidade e o desconto que você dá pelo dinheiro que será gerado no futuro. Quanto mais no futuro estiver o dinheiro, maior será a penalização pela taxa de juros. Esse fator está dominando o mercado, principalmente as companhias varejistas como Magazine Luiza e Via Varejo.

Outra questão é a concorrência. As empresas estrangeiras estão pressionando a competitividade e fazendo com que o custo de aquisição do cliente, o investimento em infraestrutura logística e a qualidade do serviço aumentem. Tudo isso acaba diminuindo a rentabilidade dessas empresas, sendo que a margem de equilíbrio faz bastante diferença. Por exemplo, quanto você vai cobrar de cada vendedor em cada transação? Se você tem um mercado muito competitivo, o vendedor pode decidir não fazer um anúncio na sua plataforma porque você está cobrando muito caro pela transação.

A entrada das empresas estrangeiras também está pressionando o take rate, o valor que a plataforma consegue capturar de cada transação. Como nós temos um mercado que está ficando muito competitivo, esse take rate tende a ser mais baixo. Nós não sabemos até que ponto isso vai cair e qual o patamar de estabilidade dessas margens.

O nível de serviço e a escalabilidade também fazem bastante diferença. Não é factível pensarmos que o mercado brasileiro é muito diferente dos outros mercados. Nós não vamos ter uma empresa que vai dominar todo o mercado como ocorre no mercado americano e chinês, mas também não temos espaço para 5 ou 6 empresas competindo para conseguir ter uma escala suficiente que justifique, por exemplo, a rentabilidade.

Marco Saravalle (foto divulgação Sara Invest)
Marco Saravalle, economista-chefe da Sara Invest

O que está acontecendo não é exclusivo do Magazine Luiza ou da Via Varejo. As ações das Lojas Renner, uma empresa excepcional, caíram 33% nos últimos 12 meses. As ações da C&A, uma empresa mais agressiva, caíram 73% nos últimos 12 meses. Acredito que seja algo muito mais do setor do que das companhias.

Se considerarmos o resultado do Magazine Luiza no 1T22, nós tivemos um crescimento da receita, apesar do prejuízo registrado. Poderia ter sido melhor ou mais forte, mas ela e as demais companhias continuam em expansão.

Para começarmos a entender o motivo pelo qual as ações estão caindo, temos que entender que essas companhias dependem muito de crédito em todas as pontas. Grande parte do prejuízo do Magazine Luiza veio justamente da maior despesa financeira, ou seja, dos juros maiores por causa da Selic. Isso vai impactar a linha final dessas companhias ao longo do ano, diminuindo seus lucros ou até mesmo fazendo com que elas apresentem prejuízo, como o próprio Magazine Luiza.

A grande leitura para o setor é que em 2020 essas companhias foram avaliadas e precificadas como empresas perfeitas, de altíssimo crescimento, expansão de rentabilidade e múltiplos extremamente altos. E mesmo com a queda recente, os múltiplos continuam altos em relação à média do Ibovespa, mas talvez mais próximos de uma racionalidade para o setor. Alguns analistas acreditam que pode haver espaço para novas quedas, mas eu acredito que, no curto prazo, nós podemos ter um fôlego adicional para o setor.

Isso viria do fechamento da curva de juros, com o Banco Central mostrando que os juros estão chegando num pico na próxima reunião, sem que tenhamos novas altas. A inflação pode ter uma melhora gradual daqui para frente. Nós já começamos a ter algumas revisões do PIB para cima. Ao mesmo tempo, talvez nós não tenhamos a mesma recuperação na velocidade do que aconteceu em 2020, já que hoje nós temos um cenário muito mais competitivo no setor.

Com isso, ficam duas dúvidas: será que as companhias vão crescer na mesma intensidade? Como será o comportamento das margens e da rentabilidade nesse segmento, já que várias empresas, principalmente estrangeiras, estão acelerando os investimentos no Brasil?

Depois de tamanha desvalorização, nós vemos um potencial de alta para esses ativos, e um reduzido potencial de queda.

Sidney Lima (foto divulgação Top Gain)
Sidney Lima, analista da Top Gain

O contexto econômico segue desafiador para o setor de varejo. Os recorrentes aumentos nas taxas de juros acabam afetando o poder de consumo das pessoas, o que reflete diretamente no resultado de empresas como VIIA3 e MGLU3.

Como esperado, as empresas não divulgaram resultados muito favoráveis. No caso do Magazine Luiza, mesmo revertendo o lucro líquido no 1T21 de R$ 258 milhões para um prejuízo no 1T22 de R$ 161 milhões, esperava-se um prejuízo líquido de R$ 189 milhões.

Ambas empresas sofreram muita pressão vendedora em suas ações, fazendo com que os preços fossem negociados a patamares muito atrativos ao olhar do investidor de longo prazo. Esse investidor entende que o mercado é cíclico.

Como o impacto tem sido justamente pela alta incisiva de juros para conter a inflação, acredito que teremos melhores horizontes, já que em breve o Banco Central colocará o pé no freio. Isso impulsionará a economia e a relação de consumo.

 

Coordenação: Jorge Priori

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