O que trava o setor industrial?

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Os dados do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2011 – de 2,7% para o conjunto da economia e de 1,6% para o setor industrial – deflagraram uma verdadeira enxurrada de análises negativas sobre um suposto processo de desindustrialização no país e uma corrida por encontrar “culpados” e saídas.
Boa parte dessas vozes passou o primeiro semestre do ano passado alardeando a necessidade de uma política de expansão da taxa Selic de juros para conter um processo inflacionário que resultava da combinação de fatores sazonais e da alta internacional do preço das commodities. Não faz sentido agora estranharem os números do PIB, pois a trava dos juros surtiu efeito, e a inflação ficou em 6,5%, no limite da meta.
Esses mesmos analistas elegeram a apreciação cambial e o custo de produção como os vilões das dificuldades da indústria brasileira. De fato, o câmbio tem sido um obstáculo de competitividade aos produtos nacionais e o custo de produção é algo a ser superado.
O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e outras iniciativas em infra-estrutura – energia, telecomunicações (banda larga), estradas, portos, aeroportos etc. – visam a atacar nossos entraves de logística e reduzir o custo de produção, mas sabemos que a reforma tributária, que depende de um envolvimento dos governadores para acontecer, é essencial.
De todo modo, o governo da presidenta, Dilma Rousseff, tem utilizado um conjunto de políticas para desonerar setores produtivos, estimular a produção nacional e diminuir o peso da folha salarial, o que não substitui a reforma.
Na questão cambial, o governo tem tomado medidas para conter a apreciação e, principalmente, impedir grandes oscilações, mas não podemos nos esquecer que a atratividade do Brasil no contexto internacional de hoje é um fator de influência no câmbio – um fator, inclusive, desejável.
Mas o que não podemos é desprezar o impacto dos juros altos no setor industrial. Reduzir a Selic é fundamental, pois ampliamos a oferta de crédito e estimulamos a atividade econômica, além de diminuirmos a dívida pública e as pressões sobre o câmbio por uma remuneração menor nos títulos atrelados aos juros.
Portanto, o maior problema da indústria é a dificuldade em obter capital a taxas acessíveis, que possam servir de alavanca aos investimentos em tecnologia e inovação – os grandes responsáveis pelo aumento da produtividade e competitividade na próxima década. Nesse sentido, é preciso ampliar a concorrência no setor bancário brasileiro, para que a oferta de crédito à indústria seja maior via redução dos spreads.
É claro que é importante o acordo entre centrais sindicais e entidades patronais para promoção de atos de defesa da indústria, até porque a idéia é criar uma frente parlamentar no Congresso Nacional que deve ampliar o espaço para o debate sobre a reforma tributária. Portanto, é preciso apoiar a iniciativa. Mas se esse movimento não enfrentar o problema central dos juros e da falta de concorrência bancária, estará diminuindo sua abrangência e eficácia.

José Dirceu
Advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT.

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