O retorno dos cérebros

Estima-se que em torno de 35 mil cientistas abandonaram o Brasil. Por Isaac Roitman

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A fuga de cérebros é um fenômeno mundial que ocorre por meio da saída de cientistas e profissionais extremamente qualificados de países menos desenvolvidos em busca de melhores condições de emprego e renda. As causas da fuga de cérebros estão atreladas a condições insatisfatórias em termos de mercado de trabalho, de qualidade de vida e descontinuidade de fomento à pesquisa.

Essa saída é direcionada, em nível mundial, para países desenvolvidos e industrializados, que possuem um mercado de trabalho mais valorizado e consolidado e onde os investimentos em Ciência e Tecnologia fazem parte das prioridades de ações governamentais. Esses profissionais são pesquisadores, professores do ensino superior, médicos, engenheiros e outros especialistas. A fuga de cérebros provoca um desenvolvimento científico lento, que a longo prazo nos leva a uma dependência tecnológica externa e a uma estagnação econômica.

As principais medidas a serem tomadas nesse caso são o maior incentivo às carreiras no meio científico e a ampliação dos investimentos destinados à ciência e educação, à inovação e à tecnologia, tornando as condições estruturais e a remuneração muito mais atraentes tanto para novos talentos quanto para profissionais experientes. Além disso, é importante o desenvolvimento de políticas econômicas que estimulem a valorização profissional e a criação de vagas destinadas a esses profissionais altamente qualificados. Não há estudos consistentes de quantos cientistas abandonaram o Brasil. Estima-se que sejam em torno de 35 mil.

Nos últimos anos, o Brasil experimentou instabilidades em seus investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação. Um dos efeitos adversos desta instabilidade é a chamada “diáspora científica”. Outra consequência indesejável é a falta de oportunidades para recém-doutores seguirem carreira em CT&I no Brasil por falta de posições em Universidades, Centros de Pesquisa ou Empresas.

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O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), através do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq), está elaborando ações para incentivar o retorno dos cientistas (cérebros) exilados através do Programa de Repatriação de Talentos – Conhecimento Brasil – com investimento de R$ 1 bilhão em cinco anos. Esse programa tem como objetivo repatriar pesquisadores brasileiros que permaneceram no exterior após a conclusão de seu mestrado ou doutorado em instituições estrangeiras e permitir a fixação de pesquisadores brasileiros que concluíram seu mestrado no exterior nos últimos 10 anos e que não tenham estabelecido vínculo permanente com instituições de pesquisa no Brasil.

Os objetivos do programa são excelentes e oportunos. No entanto, será fundamental uma suplementação de recursos do CNPq para não causar um retrocesso nos programas de bolsas e fomento dessa importante agência de fomento. É importante também investir fortemente na absorção de doutores e pós-doutores formados no Brasil e fomentar as pesquisas desse segmento.

Atualmente, um grande número de doutores e pós-doutores não está tendo oportunidades de trabalho nas instituições de pesquisa e nas empresas. É uma emergência a abertura de concursos, principalmente em Universidades públicas e Centros de Pesquisa, e a incorporação de doutores nas empresas brasileiras.

Se não fizermos isso, haverá um aumento da diáspora científica. É preciso que os investimentos em Ciência e Tecnologia sejam contínuos, através de políticas de estado para alcançarmos a soberania. Lembremos um pensamento de Sócrates, que há cerca de 26 séculos dizia: “A vida sem ciência é uma espécie de morte.”

Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília e da Universidade de Mogi das Cruzes, pesquisador emérito do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências e do Movimento 2022–2030 o Brasil e o Mundo que queremos.

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