Uma reflexão em busca de auto-estima
A Editora Record, em boa hora, organizou a coleção “Metrópoles” da qual o livro do professor Carlos Lessa é o segundo lançamento, o primeiro foi Porto de Histórias sobre Porto Alegre, de Moacyr Scliar e estão programados ensaios sobre Recife, Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. Essa coleção preenche uma lacuna na historiografia nacional de estudos sobre o desenvolvimento dos grandes centros urbanos brasileiros, redigidos por intelectuais nascidos ou que adotaram essas cidades como local de moradia. O professor Lessa é um genuíno carioca e assim suas reflexões estão voltadas para a cidade do Rio de Janeiro, que atualmente derrama-se muito além das suas fronteiras políticas. Ele, elegantemente, não deprecia a incorporação da pobre periferia dos morros e baixada nas suas análises e define esse amalgama como o carioca. Este é o mestiço dos brasis.
O livro é uma coletânea de brilhantes ensaios na mais pura tradição do século XIX sobre a cidade do Rio de Janeiro. Como intelectual renomado e um dos mais argutos economistas de sua geração que produziu Maria da Conceição Tavares, Antônio de Barros Castro, Antônio Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen, o livro é um hino de amor a cidade. A marca dos ensaios aqui reunidos é uma visão comprometida com seu projeto político de reconstruir a alma do Rio de Janeiro e soldar os fragmentos do seu espelho partido e as muitas cidades que coexistem no seu espaço urbano. Sua paixão pela cidade tomou vulto, na primeira gestão do prefeito Maia; a partir de uma idéia do arquiteto Conde o professor Lessa foi o elaborador do Plano de Estratégico da cidade, sua primeira ode ao Rio, enquanto tentativa de recriar a auto-estima, via intervenção pública. Este plano projetou o nome do secretário Conde que acabou se elegendo prefeito da cidade.
A cidade do Rio de Janeiro tem uma vasta crônica sobre inúmeros aspectos de seu cotidiano, mas poucos estudos analíticos; o texto do professor Lessa preenche essa lacuna. Os onze capítulos que compõe o livro são ensaios com vida própria, claro que concatenados entre si. Produzidos ao longo de sua vivência como professor em aulas proferidas no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cada capítulo é uma instigante análise sobre os temas tratados, que vão dos condicionantes naturais e geográficos do Rio de Janeiro da Colônia, Império e República, Cidade Maravilhosa, até pobreza e violência. A erudição do professor fica evidenciada pelo eu passeio pela historiografia brasileira, com seu perfeito domínio dos principais autores; algumas idéias expostas são verdadeiras pérolas para o estudo da cidade.
Examinando o Rio de Janeiro como lugar, memória, representação, sonho e projeto global no imaginário nacional e local, o autor realça a cidade como a primeira Brasília do Brasil. Refaz a trajetória econômica e social da cidade, mostrando como o café, a principal riqueza do Brasil no século XIX e metade do século XX nasceu nas terras do Rio de Janeiro, plantado no Convento da rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga), ganhou o maciço da Tijuca, a Serra da Carioca, espraiou-se pelo vale do Rio Paraíba e transformou-se no ouro verde nacional. Foi a República que engendrou o caso de amor entre o Rio de Janeiro e o Brasil, “a República fez do Rio o espelho da nação como futuro feito presente”. Esta simbiose fez uma sociedade sem interesses regionais, imagem-síntese do Brasil pós-colonial e finalmente na segunda metade do século XX a cidade-partida. Na sua análise a mutilação do Estado brasileiro repercute na cidade mais intensamente que em qualquer outra metrópole nacional. Da Paris dos Trópicos para a Miami da América do Sul dos anos 1990 o Rio se dilacera nos neo-estigmas atuais da violência, criminalidade e pobreza. Em suas palavras: “No Rio a pobreza caminhou do anonimato cinzento do cortiço para a visibilização da favela da encosta. Toda redescoberta ideológica do Brasil e a exaltação do Rio Cidade Maravilhosa incorporou a favela à paisagem; porém, de forma muito precária, à cidade.”
Os capítulos históricos são leituras obrigatórias para os estudiosos da sociedade e da economia do Rio de Janeiro. Da saga do Sá na acumulação da prata de Potosi, da qual o nome Copacabana é um vestígio, até sua hipótese de que o Rio é a chave para a compreensão do processo de formação do Estado brasileiro, da unidade territorial e da identidade nacional. Sua explicação para esse Rio que pensa Brasil é que este não ameaçava os interesses econômicos/políticos de nenhuma região brasileira e quando perdeu a hegemonia econômica não se converteu num gueto burocrático como Brasília ou Frankfurt e assim “antropofagizou” o conflito entre nacional/local e moderno/tradicional.
A história do Rio segundo ele é uma história de perdas, como refazer esta trajetória? A satanização do Rio, para o professor Lessa, é decorrente da imagem de que o brasileiro está no Rio, este é espelho do futuro do Brasil. A frustração nacional com o futuro do País reflete-se de forma aguda na quebra de auto-estima da sociedade e o Rio submerge no imaginário popular, o Rio é o Brasil e o futuro do Brasil está comprometido! Sua conclusão é que a decadência da cidade, paixão dos brasileiros durante o século XX, reflete na realidade a perda de auto-estima nacional.
Economistas e cientistas sociais ganharão muito lendo “O Rio de todos os Brasis”, porque a viagem do professor Lessa pela história da formação sócio-econômica do Rio é uma lição de como se pode navegar pelos distintos campos teóricos da história, economia, sociologia e antropologia com rigor e erudição.
Hildete Pereira de Melo
Professor da Faculdade de Economia da UFF, Vice-Presidente do Instituto de Economia do Rio de Janeiro (Ierj) e membro titular do Conselho Regional de Economia (Corecon/RJ). Jornal dos Economistas, janeiro/2001.















