O risco do Estreito de Ormuz e os impactos no Brasil

Entenda a importância do Estreito de Ormuz no mercado de petróleo e seu impacto nas tensões geopolíticas atuais. Por Sandra Komeso

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Plataforma de petróleo da Petrobras
Plataforma de petróleo da Petrobras (foto Agência Petrobras)

O mercado global de petróleo entrou em 2026 sob um novo regime de risco. A escalada de tensões entre Irã e Estados Unidos – com episódios recentes envolvendo ataques indiretos, sanções ampliadas e ameaças ao tráfego marítimo – recolocou o Estreito de Ormuz no centro da geopolítica mundial. Mais do que um ponto de passagem, Ormuz é hoje o principal “termômetro de risco” do petróleo global.

A possibilidade de fechamento, ainda que parcial, do estreito desencadeia uma reação quase imediata nos mercados: elevação dos preços do barril, aumento dos custos de frete e crescimento do chamado “prêmio de risco geopolítico”. Cerca de 20% a 25% de todo o petróleo consumido globalmente passa diariamente pelo Estreito de Ormuz – o equivalente a algo próximo de 20 milhões de barris por dia. Além disso, o estreito também é crucial para o fluxo de gás natural liquefeito (GNL), especialmente vindo do Catar.

A relevância do conflito se torna ainda mais clara quando observamos quem depende diretamente de Ormuz.


Maiores produtores globais de petróleo

  • Estados Unidos – líder global (~13 milhões bpd), com produção majoritariamente doméstica (shale)
  • Arábia Saudita – ~10 milhões bpd, grande parte exportada via Golfo
  • Rússia – ~9–10 milhões bpd, exportações redirecionadas após sanções
  • Irã – ~3–4 milhões bpd (com restrições), altamente dependente de Ormuz
  • Iraque e Emirados Árabes Unidos – fortemente dependentes do estreito

Ou seja, grande parte da produção exportável do Oriente Médio passa diretamente pela zona de risco.

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Nesse contexto, o Brasil, impulsionado majoritariamente pela Petrobras, já figura entre os dez maiores produtores globais, com forte crescimento via pré-sal. Entretanto, não depende do Estreito de Ormuz, já que sua produção está concentrada no Atlântico Sul, suas exportações são direcionadas majoritariamente para Ásia, Europa e Estados Unidos, e o país está fora da rota da zona de conflito.

Esse movimento ganha ainda mais relevância quando se observa a concentração da produção global. Países como Arábia Saudita, Irã, Iraque e Emirados Árabes Unidos dependem diretamente do Estreito de Ormuz para exportar sua produção. Ao mesmo tempo, grandes produtores como Estados Unidos e Rússia operam com dinâmicas distintas, seja pela autossuficiência logística, seja pelo redirecionamento de fluxos após sanções econômicas. Esse mosaico reforça a percepção de que qualquer disrupção no Golfo Pérsico tem potencial sistêmico.

É nesse contexto que o Brasil, e particularmente a Petrobras, assumem uma posição singular. Diferentemente dos produtores do Oriente Médio, a companhia brasileira possui uma vantagem geográfica relevante: sua produção está concentrada no pré-sal, no Atlântico Sul, distante das zonas de conflito. Isso garante uma independência logística importante, permitindo que o petróleo brasileiro alcance mercados na Ásia, Europa e América do Norte sem a necessidade de transitar por áreas de risco.

Mesmo sem depender de Ormuz para suas exportações, a Petrobras é altamente exposta ao choque de preços global. O preço dos combustíveis no Brasil segue o Preço de Paridade de Importação (PPI), diretamente influenciado pela cotação do Brent.

A elevação do Brent impacta diretamente os combustíveis domésticos, pressionando a inflação e influenciando decisões do Banco Central. Além disso, persiste uma fragilidade estrutural importante: apesar de ser um grande exportador de petróleo bruto, o país ainda depende da importação de derivados, especialmente diesel.

Esse é o principal paradoxo do setor. A Petrobras exporta volumes crescentes de óleo, com o Brasil registrando superávit próximo de US$ 30 bilhões em petróleo e derivados, mas continua importando combustível para atender à demanda interna. O país tornou-se um dos maiores compradores globais de diesel russo, que chegou a suprir cerca de 60% de todo o diesel importado em 2025.

O diesel da Rússia, vendido com desconto devido às sanções ocidentais, tem sido fundamental para segurar os preços nas bombas brasileiras. Essa rota de importação não passa pelo Estreito de Ormuz, vindo de portos no Mar Báltico ou no Mar Negro, o que confere maior segurança logística.

Essa dependência, no entanto, cria um risco adicional. A eventual imposição de sanções secundárias pelos Estados Unidos pode obrigar o Brasil a buscar fornecedores mais caros, elevando os custos internos. Caso esse movimento ocorra simultaneamente a uma crise no Estreito de Ormuz, o país enfrentaria um choque duplo: preços internacionais elevados e aumento do custo de importação de derivados.

Para a Petrobras, o cenário é ambíguo. Por um lado, a alta do petróleo fortalece a geração de caixa e as exportações. Por outro, amplia a pressão sobre os preços domésticos de combustíveis, elevando riscos políticos e econômicos. Essa dinâmica reforça o caráter dual da companhia: uma exportadora altamente competitiva, mas inserida em um mercado interno sensível.

A Petrobras, portanto, emerge como um dos ativos mais bem posicionados do setor, combinando baixo custo de produção, escala crescente e vantagem geográfica. Ainda assim, o investidor deve acompanhar de perto três fatores centrais: a evolução da crise no Estreito de Ormuz, o risco de sanções envolvendo o diesel russo e a política de preços domésticos no Brasil.

Em um mundo mais fragmentado e volátil, o petróleo deixa de ser apenas uma commodity e se consolida como instrumento de poder. E, nesse novo tabuleiro global, o Brasil – mesmo com suas limitações – passa a ocupar uma posição cada vez mais relevante.


Sandra Peres Komeso é diretora de Relações com Empresas na Apimec Brasil

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