O significado do Carnaval

Por Reis Friede.

Opinião / 14:01 - 28 de fev de 2020

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Todos os anos, em uma metrópole mundialmente conhecida por sua pujança cultural, realiza-se uma magnífica festa popular que movimenta a economia e gera oportunidades de trabalho, sobretudo no comércio e no setor de serviços. Nos vários dias de folguedo, dezenas de milhares de turistas domésticos e estrangeiros unem-se aos locais vestindo fantasias coloridas para celebrar com desfiles, música, dança e – por que não? – milhões de litros de cerveja, a bebida “oficial” do evento.

As referências do parágrafo acima poderiam facilmente ser associadas ao Carnaval do Rio de Janeiro, a maior festa de rua do mundo, porém a descrição aqui posta trata da Oktoberfest, realizada anualmente em Munique, na Alemanha, entre meados de setembro e o começo de outubro. Há, sim, similitudes entre as duas expressões culturais, mas há também diferenças importantes sobre as quais vale refletir.

 

Festividade em Munique não estorva

as atividades normais dos alemães

 

Tal como o evento alemão, o Carnaval é um aliado econômico que deve não somente ser prestigiado, como igualmente incentivado. Em números, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as atividades turísticas no período de Momo movimentaram R$ 8 bilhões em 2020, no Brasil.

No entanto, os ganhos podem ser depauperados pelo fato de que a folia por aqui tem início virtualmente no primeiro dia do ano, imediatamente em seguida ao Réveillon, o que torna realista o velho rifão: “No Brasil, o ano só começa depois do Carnaval”, ou seja, com um atraso de quase 90 dias no calendário, já que o período é marcado por problemas na mobilidade urbana e no funcionamento das cidades. Diferentemente, na Okberfest, a festividade não estorva as atividades normais dos alemães, nem tampouco dos muniquenses.

Lá, a ordem pública impera nos dias de folia, e não se concebe a preparação, que no Rio é inescapável, envolvendo a colocação de tapumes protetivos em fachadas de shoppings centers, blindex de bancos e lojas comerciais e de cercas em jardins na orla das praias, a propósito de precaução contra as renitentes cenas de vandalismo e depredação.

Lá, há banheiros públicos em quantidade e disposição adequadas à dimensão do evento. Além disso, o sistema de transporte público e de controle do tráfego funcionam. Aqui, a quantidade e a qualidade dos banheiros são precárias, e as reconhecidas deficiências dos modais de passageiros, assim como as recorrentes interdições de vias para a passagem e concentração de blocos, resultam em engarrafamentos que são provações para cariocas e turistas, sem falar no risco de situações graves, quando é preciso o deslocamento rápido, por exemplo, para buscar ajuda médica.

Lá, os direitos de quem quer e de quem não quer participar do Carnaval são respeitados. Aqui, os transtornos colaterais à festa, principalmente no Rio de Janeiro, resultam em inúmeras violações a garantias da cidadania.

Não se trata de empanar a beleza do Carnaval brasileiro, nem de reputá-lo inferior, em qualquer aspecto, a qualquer outro evento similar no planeta, mas sim de reconhecer que na sua realização nos falta a preocupação com a coletividade em seu sentido mais amplo.

É nossa obrigação, na qualidade de autoridades, cidadãos e particularmente de foliões, evitar a todo custo que essa festa formidável, tão representativa da alegria do povo brasileiro – e, em especial, dos cariocas – deixe de ostentar o originário brilho. Não vamos permitir, em última análise, que esse patrimônio cultural brasileiro também se corrompa, perdendo seu significado e sua beleza.

Reis Friede

Desembargador federal e presidente do TRF-2.

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