O Sul da Ásia e a pandemia

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 15:39 - 3 de abr de 2020

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A Índia, finalmente, abordou, de uma maneira decisiva, a emergência de saúde resultante da disseminação da Covid-19: um verdadeiro e completo isolamento foi imposto desde 25 de março, com uma duração prevista de 21 dias, em todo o país. Islamabad e Dhâka, por outro lado, não enfrentam a emergência da mesma forma, pelo menos à primeira vista.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, impôs um bloqueio compreendendo medidas extremamente restritivas (praticamente, proibindo qualquer tipo de atividade não relacionada à sobrevivência, à informação e à saúde), que foi prontamente identificado na imprensa internacional como “o maior bloqueio no país”, da “história”. O Ministério do Interior indiano ordenou a aplicação de medidas restritivas, confiando sua implementação e controle aos gerentes das administrações locais, que gozam de plenos poderes e funções como comissários da emergência.

 

Subcontinente indiano é explorado

por várias cadeias globais de valor

 

A implementação das medidas será, no entanto, um esforço sobre-humano, para um país de 1,3 bilhão de habitantes, com áreas urbanas superpovoadas e grande parte da população sem a segurança do acesso diário aos meios de subsistência.

Em 25 de março, o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, declarou a necessidade de coordenação entre as medidas de contenção implementadas no nível das administrações provinciais, repetindo que considerava uma medida extrema (como a indiana) muito arriscada para a economia. A preocupação com Islamabad parece ser as atividades comercial e de suprimentos, entre suas várias províncias, considerando a grande divisão de áreas montanhosas.

No entanto, mesmo na República Islâmica, onde o vírus parece ter vindo do Irã, os casos confirmados começam a aumentar, em número (mais de mil contágios). Levando em consideração que, com toda a probabilidade, o sistema de saúde do país não consegue lidar com um aumento importante de contágios e que, certamente, as estruturas de saúde de nível médio, não são facilmente acessíveis para essa parte da população, cerca de 20% dos habitantes, que vive em regiões montanhosas, muitas vezes remotas. Será, portanto, difícil entender até que ponto as medidas, a serem tomadas, devem se estender.

Em Bangladesh, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde, o governo impôs o bloqueio seletivo do transporte e das atividades escolares e universitárias, mas ainda não o das atividades produtivas: medidas gerais, mas menos restritivas do que na Índia. Dhâka está recebendo ajuda concreta da China, por exemplo, no campo das medidas de proteção individual necessárias para os trabalhadores que ainda trabalham.

A situação, embora gerada pela administração central (que poderia levar ao bloqueio das atividades de produção), ainda é extremamente grave: o estado é o décimo no mundo, em densidade populacional, depois de microentidades como Hong Kong, Vaticano e Macau, e está encontrando resistências, da opinião pública, a um bloqueio completo. Poderia, portanto, levar a uma situação de difícil gerenciamento.

Mesmo que a ordem mundial não seja perturbada, o sul da Ásia certamente sofrerá uma gigantesca mudança: a economia indiana, já em apuros, sem dúvida sofrerá uma reação poderosa. Todo o subcontinente indiano, que abriga, aproximadamente, uma população de cerca de 1,8 bilhão – grande parte com acesso reduzido a recursos primários e a cuidados básicos de saúde – também é uma reserva estratégica de trabalho, para várias cadeias globais de valor, que geralmente tiram vantagem, comprimindo os custos do trabalho, como bem, com práticas de exploração.

A combinação desses fatores representa, portanto, uma bomba socioeconômica, escorvada e prestes a explodir. A solução para o dramático dilema de considerar o bloqueio, em função das necessidades reais e imediatas da população, se houver, não é, no entanto, pouco dolorosa.

Se, por um lado, a Índia impôs um bloqueio total, criando as condições para uma solução mais lenta da pandemia, por outro lado, devemos analisar quais serão os efeitos colaterais, de mais de 1 bilhão de seres humanos, com uma riqueza média muito menor àquela ocidental, e como os efeitos afetarão o controle direto das medidas.

Um outro aspecto a considerar é certamente a necessidade de coordenação entre os três principais atores da área que, se não for implementada, corre o risco de anular as medidas sobre uma parcela da população, que representa cerca de um quarto da população do planeta (sem a disponibilidade de acesso a recursos e a uma organização comparável à da China).

É claro que, a solução para a pandemia passará pela resposta do subcontinente indiano, assim como fica manifesto que as condições não são as melhores. No futuro imediato, parece muito provável que o papel da Índia seja reduzido e, no vazio deixado por Nova Délhi, uma nova realidade terá que ser inserida, capaz de desempenhar um papel para neutralizar o poder chinês, e também, é desejável, seja exercido, por ela, o papel de provedor da segurança. Mas essas são perguntas a serem consideradas no futuro.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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