O terrorismo islâmico na África

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 15:32 - 21 de fev de 2020

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O terrorismo islâmico, na África, é generalizado e, nos últimos anos, tornou-se cada vez mais central na galáxia jihadista. Abu Bakr Al Baghdadi, líder do Isis capturado e morto em 27 de outubro de 2019, em seu último vídeo instou os terroristas que operam na África a aumentar seus ataques. Pouco antes da descoberta de seu último refúgio, na Síria, muitos creditaram Al Baghdadi estando, precisamente, no continente negro. Isso é para demonstrar a importância do terrorismo jihadista na África. O crescimento e a disseminação do islamismo africano são uma preocupação particular na Europa.

O terrorismo jihadista no continente negro está presente, tanto com grupos próximos à Al Qaeda, a organização fundada por Osama bin Laden, que chegou às manchetes da organização do ataque de 11 de setembro de 2001 nos EUA, quanto com milícias que se acredita serem afiliadas ao Isis.

Até há alguns anos, a Al Qaeda era a organização terrorista que tinha mais seguidores. A situação, agora, é considerada muito mais equilibrada: o Isis conseguiu invadir o continente africano, e muitos grupos operam sob os lábaros das bandeiras negras.

 

Isis conseguiu invadir o continente

africano e divide região com Al Qaeda

 

No geral, as mesmas diferenças ideológicas e operacionais entre a Al Qaeda e o Ísis encontradas no Oriente Médio também existem na África. As diferenças se referem, principalmente, à ideia de um califado islâmico, que, para o Isis, foi realidade, ao longo de cinco anos, entre a Síria e o Iraque, enquanto que, para a Al Qaeda, trata-se, apenas, da meta final, a longo prazo, da luta contra o Ocidente, e os objetivos atingidos durante ataques.

A situação na Líbia é particularmente preocupante e isso por duas razões: por um lado, o país do norte da África está geograficamente muito próximo da Europa e, especialmente, da Itália; por outro, a desestabilização da queda de Muammar Gaddafi, em 2011, torna o terreno muito fértil para o surgimento do fenômeno jihadista.

Nos anos 90, no leste da Líbia, graças a um contexto político-social historicamente mais sensível às ideologias islâmicas, os grupos extremistas se espalharam, não muito longe do que era promovido pela nascente Al Qaeda. Em 1998, o governo de Kadafi foi o primeiro a emitir um mandado de prisão internacional para Osama Bin Laden. As autoridades de Trípoli perseguiram as várias células islâmicas presentes no país e, no início dos anos 2000, a ameaça terrorista na Líbia parecia ter sido erradicada.

A guerra de 2011 e o fim da era de Kadafi mudaram a situação. De fato, muitos grupos islâmicos e várias milícias salafistas surgiram, mais uma vez ativas, maiormente, na Cirenaica. Em 2015, no entanto, apareceram as primeiras bandeiras negras do Isis. O movimento Al Baghdadi teve seus primeiros seguidores na Líbia na área de Sabratha.

Posteriormente, o Isis estava muito ativo na área de Sirte, cidade natal de Kadafi. Nesta, os terroristas conseguiram montar um pequeno califado, no mesmo modelo daquele ativo entre a Síria e o Iraque. No verão de 2016, o novo governo liderado por Fayez Al Sarraj, em Trípoli, pediu ajuda internacional para expulsar o ISIS de Sirte.

Os primeiros ataques dos EUA começaram em agosto de 2016, enquanto as operações terrestres foram lideradas por milícias da cidade de Misurata, leais ao governo de Al Sarraj. Dentro de algumas semanas, Sirte foi libertado do Ísis e o pequeno califado foi derrotado.

No entanto, a ameaça terrorista na Líbia ainda está iminente e, de fato, cada vez mais forte sob alguns aspectos. O Isis parece ter se reorganizado no sul do país, aproveitando a total falta de controle de vastas províncias no deserto. Nos últimos meses, seguidores de Al Baghdadi realizaram vários ataques em Trípoli e em outros lugares do país. A guerra pelo controle da capital, ocorrendo entre as milícias próximas a Al Sarraj e o exército de Khalifa Haftar, está dando ao ISIS uma maneira de se fortificar.

 

Boko Haram na Nigéria

 

Um grupo que, nos anos 2000, começou a criar grandes dores de cabeça na África Ocidental, foi o que mais tarde recebeu o nome de Boko Haram. Em Hauçá (uma das principais línguas africanas, a língua com o maior número de falantes), o termo indica “a educação ocidental é proibida”. O movimento foi fundado pelo nigeriano Ustaz Mohammed Yusuf.

O campo de ação inicial é o norte da Nigéria, onde a população é majoritariamente muçulmana, e as condições de pobreza de muitos cidadãos ajudaram o Boko Haram a encontrar muitos seguidores e muitos milicianos. A organização nasceu com a intenção de impor a sharia, lei islâmica, no norte do país. Por esse motivo, a partir de 2009, o Boko Haram adotou a causa jihadista: naquele ano, as ações terroristas do grupo e as respostas militares do governo nigeriano causaram muitas vítimas. Entre elas, o fundador Yusuf.

O atual líder, Abubakar Shekau, o sucedeu e, em 2015, decidiu pela afiliação do Boko Haram ao Isis. O objetivo do grupo é, portanto, estabelecer um califado real, no norte da Nigéria e em outras áreas onde os milicianos se espalharam entre Camarões, Chade e parte do Níger.

O Boko Haram realizou vários ataques durante esse período, causando massacres entre militares e civis. A ação mais famosa continua sendo a realizada em Chibok, onde 276 meninas adolescentes cristãs foram sequestradas, estupradas e vendidas como escravas, causando revolta na comunidade internacional.

Outro grupo muito perigoso para a estabilidade do continente negro é o dos terroristas somalis de Al Shabaab. No entanto, essa milícia parece muito diferente do Boko Haram. Em primeiro lugar, Al Shabaab realiza suas atividades no chifre da África, em particular, entre a Somália, o Quênia e a Etiópia.

Em segundo lugar, a organização somali é afiliada à Al Qaeda e não ao Isis. E isso leva a diferenças significativas também do ponto de vista puramente ideológico: enquanto o Boko Haram, em conformidade com os ditames do Isis, tem como objetivo imediato a fundação de um califado, a Al Shabaab considera esse objetivo, como de fato se aplica à própria Al Qaeda, como algo a ser realizado a longo prazo.

Além disso, a Al Shabaab tem uma particularidade que a torna parcialmente diferente dos outros grupos, próximos ao movimento fundado por Bin Laden: dentro dela tem um componente que parece colocar a defesa do território somaliano em primeiro lugar, mesmo antes dos objetivos a serem alcançados. Uma espécie de pequena costela “nacionalista” da Somália, que vê no Islã a chave para derrubar as atuais instituições somalis, consideradas um verdadeiro braço armado e político dos “cruzados” ocidentais.

Isso pode ser visto, por exemplo, no último discurso do líder da Al Shabaab, Abu Ubaidah, que pediu um ataque aos americanos, presentes no país, sendo vistos como invasores antes mesmo de serem considerados infiéis.

Afinal, a Al Shabaab nasceu em 2006 como um movimento juvenil dos Tribunais Islâmicos da Somália, um grupo que, naquele ano, passara a controlar o território do país africano e também o próprio Mogadíscio, a capital. Com a derrota dos Tribunais Islâmicos, após a intervenção aérea dos EUA e de tropas de uma coalizão liderada pela Etiópia no local, Al Shabaab tomou as rédeas do terrorismo islâmico na região.

Em 2013, o grupo terrorista foi responsável pelo ataque a um shopping center em Nairóbi e, em 2015, em Garissa Al Shabaab, causou um massacre de jovens estudantes após o ataque no campus da universidade local. Até o momento, o grupo ainda é muito ativo, especialmente, no sul da Somália.

Além de estar presente no Sahel e no Chifre da África, o terrorismo no continente negro também atua na parte central e sul. No Congo, por exemplo, o Isis anunciou recentemente o nascimento do Estado Islâmico da África Central (Iscap), que, por sua vez, derivou sua base de outro grupo, fundado em 1995: a força democrática da Aliança (ADF).

Esta última milícia está bem estabelecida entre as regiões de Ituri e Kivu do Norte, onde há anos realiza um movimento de guerrilha, apoiada pelo Isis, desde 2015, estendendo a invasão, igualmente, em Uganda. A chegada das bandeiras negras, ao lado do ADF, deu força a um grupo que, ao longo dos anos, foi dizimado pelas intervenções de Uganda e Ruanda. Hoje, a Ascap e a AFD parecem ser muito ativas e criam, desde 2018, tensão nas regiões atormentadas pela epidemia de ebola.

No sul da África, as células jihadistas estão presentes, também, na África do Sul, enquanto o avanço de um grupo chamado Al Sunna, em Moçambique, é motivo de grande preocupação. No último ano, vários ataques foram realizados no norte do país africano, com dezenas de vítimas entre as populações e o risco de ativar um efeito de emulação, mesmo nos países vizinhos.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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