"O verdadeiro trabalho começa após a conferência de Durban."

Empresa Cidadã / 13:12 - 11 de set de 2001

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(Nkosazana Zuma, Ministra do Exterior da África do Sul) Semana passada, dizíamos que o conceito de empresa-cidadã é recente. Nesta semana podemos acrescentar que já está velho. A velocidade das transformações que atravessam o mundo tem essa propriedade - o que nasce já está velho. Quais as conseqüências presumíveis de dois acontecimentos muito recentes para a humanidade, a Conferência de Durban e o 11 de setembro de Nova Iorque? Desde o final dos anos 80, após a queda do Muro de Berlim, o mundo vivia em um estado de sonolência otimista, considerando a impossibilidade de um conflito armado global, diante da capitulação de um das potências polo da Guerra Fria. No Século XXI, o conflito armado tem outro aspecto, as ações não são declaradas nem lutadas entre inimigos frente a frente. As responsabilidades não se resumem a conquistar posições, fazer a sua parte, mas fazer o que deve ser feito. A globalização, de início apresentada como um bem generalizado, nos últimos dias revelou de forma emblemática o seu verdadeiro alcance. O cargueiro norueguês Tampa, com 438 refugiados afegãos e paquistaneses em sua maioria, foi impedido de aportar na Austrália, país sabidamente beneficiado pela globalização. Poderiam ser citados os mexicanos que se arriscam para cruzar a fronteira dos EUA ou os marroquinos que atravessam Gibraltar em frágeis embarcações. Nem tudo se globaliza, portanto. A Conferência Mundial da ONU contra o Racismo, em Durban, África do Sul, teve na sessão de encerramento 99 das 173 delegações de países-membros, significativa amostra das dificuldades verificadas nos debates. As tentativas de transformar a conferência em um acerto de contas entre o Terceiro Mundo e o Primeiro e de equiparar sionismo a racismo inibiram a possibilidade de estabelecer estratégias efetivas de combate às desigualdades étnicas e de promoção dos países da África, onde estão 33 dos 50 países mais miseráveis do mundo. Estima-se em 23 milhões o número de africanos contaminados pelo vírus da Aids, afastados dos benefícios da globalização e da solidariedade. As possibilidades de diminuição das desigualdades étnicas encontram nas políticas afirmativas um foco de debates importante. Uma modalidade de ação afirmativa é representada pelo estabelecimento de cotas de integração social, seja, como se discute hoje, para ingresso em universidades públicas, seja para admissão em empregos. Nos EUA, a discussão sobre o sistema de cotas nas universidades na Suprema Corte durou de 1973 a 1978, o que sugere que poderá durar muito também no Brasil. Antes disso, as empresas-cidadãs podem se adiantar. Desde os primeiros balanços sociais apurados em empresas brasileiras havia questões como número de negros que trabalham na empresa e percentual de cargos de chefia por eles ocupados. As empresas pioneiras na divulgação dos seus balanços sociais foram quase todas acometidas de dúvidas nestas questões, nos primeiros exercícios. Uma das primeiras questões que enfrentavam era sobre a inexistência de registros estatísticos a respeito. Em alguns casos, tentava-se lembrar daquele no setor tal, outro na operação da máquina qual e assim reconstituir de memória o que os registros sistemáticos da organização não consignavam mas por certo revelavam. Depois, aparecia a dúvida quanto à própria identidade do negro. Algumas empresas alegavam que em muitos casos não era possível identificar quem era negro, tantas as denominações oferecidas. A partir da obrigatoriedade de se informar à Rais este contingente das empresas, a dúvida não fez mais sentido; repete-se a informação, cuja instrução é de somar negros e pardos. Outra preocupação que afligia as empresas pioneiras na apuração do balanço social era a da possibilidade de poder ser interpretada como manifestação de racismo a própria anotação deste dado em algum cadastro da empresa. Em decorrência, deixava-se de acompanhar e criticar as práticas da empresa junto a este contingente de trabalhadores. Admissão, qualificação, promoção e remuneração são alguns dos aspectos que as empresas devem monitorar junto ao segmento de trabalhadores negros como forma de contribuírem efetivamente e no seu âmbito de atuação para a equiparação de oportunidades étnicas ou raciais, antes da possibilidade de políticas de ação afirmativa, a exemplo das cotas, virem a se tornar realidade. Paulo Márcio de Mello Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Correio eletrônico: paulomm@alternex.com.br

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