Onda marrom

Se é a imprensa decadente e os institutos de pesquisa acreditam na existência de uma “onda verde” pró-Marina Silva na última semana da campanha, por que não incluem o nome de Marina nas simulações de segundo turno? Ou a “onda” tem teto e beneficiário indireto?

Tiro no pé
Mesmo com a crise aguda de 2008, a barragem ideológica do Estado mínimo criou em algumas elites uma tendência a exigir sacrifícios – restrito, porém, aos outros. Pesquisa realizada pela KPMG é exemplar. Dos 538 empresários ouvidos em 26 países – Brasil incluído – 72% estão preocupados com o nível de dívida pública interna; 43%, bastante ou extremamente preocupados. A solução apontada por sete entre dez para reduzir a dívida pública é via cortes nos gastos públicos não-financeiros (77% entre os participantes europeus). E 53% acham que o corte deve começar pelos salários do funcionalismo (considerada pela KPMG a opção mais popular – resta saber popular para quem, cara-pálida); 34% pregam a redução dos pagamentos de benefícios.
Até o candidato a estudante numa faculdade de Economia sabe que sem demanda o capitalismo naufraga. Mas a questão aqui é ideológica. Mais patente fica quando vistos os resultados individuais de alguns países. Na Irlanda, 100% dos empresários são a favor do corte dos salários do setor público; na França, apenas 12%.
Menos mal que 47% defendem a redução dos gastos com defesa; e somente 24% apoiam o corte em investimentos públicos em infra-estrutura como opção para gerenciar a dívida. Houve maiorias a favor da manutenção dos gastos com infra-estrutura em todos os países, exceto Japão e Hong Kong, nos quais as opiniões se dividiram ao meio, e na China, onde 61% são a favor do corte nos investimentos em infra-estrutura.
Sem qualquer surpresa, a opção menos escolhida foi o aumento de impostos. Somente 1% optou por esse caminho.

Diagnóstico&cura
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi preciso ao detectar e denunciar a existência de uma guerra global no câmbio, com economias desenvolvidas desvalorizando suas moedas para exportarem para outros as perdas internas para tentarem sair da crise. Faltou, no entanto, passar do diagnóstico para a cura, anunciando as medidas que pretende adotar para proteger a indústria nacional dos riscos que identificou, com acerto. A não ser que esteja pensando em convencer na lábia Estados Unidos, China e União Européia a reverem suas estratégias cambiais, o ministro da Fazenda do Brasil precisa definir uma política cambial que defenda os interesses do país. Afinal, na guerra, para usar a linguagem bélica de Mantega, ninguém se protege apenas com palavras; precisa de munição.

Indignação seletiva
Deve haver um bom motivo para um “jornalão” do Rio dedicar uma chamada na primeira página e a manchete do caderno local para uma investigação da polícia contra suposto desvio cometido pelo ex-governador Garotinho, enquanto escondia numa página interna os quatro “arrastões” feitos pela bandidagem no estado. Deve haver igualmente milhões de motivos para a reportagem sobre a ação dos bandidos não tocar nos nomes do governador, e candidato à reeleição, ou no do secretário de Segurança. Mas, com certeza, esses motivos não passam pelos bons manuais de jornalismo.

Práticas
Deve haver também motivos para que a mídia decadente classifique de stalinismo do PT a suposta quebra do sigilo fiscal de alguns políticos tucanos, enquanto ache normal e republicana a ação da polícia estadual contra o ex-governador Garotinho, desafeto do atual governador, justamente às vésperas das eleições..

Não é a Internet
Pesquisa realizada anualmente pela Gallup mostra que 57% da população dos Estados Unidos não confiam na mídia.

Só para amigos
Curiosamente, os que comparam a votação de Hugo Chávez com a obtida pelo conjunto da oposição venezuelana são os mesmos que defendem a adoção do voto distrital no Brasil. E não demonstraram a mesma indignação por George Bush ter sido eleito presidente dos Estados Unidos com menos votos do que Al Gore, noves fora o aval da justiça eleitoral da Flórida, cujos juízes foram indicados pelo mano Jeb Bush.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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