Onde está o grupo de Minsk?

Por Edoardo Pacelli.

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A região de Nagorno-Karabakh continua turbulenta. O cessar-fogo, que entrou em vigor em 18 de outubro, durou poucos minutos. A luta recomeçou, rapidamente, com cada lado culpando o outro por violar a trégua. Embora ninguém esperasse que o acordo pudesse curar, magicamente, décadas de disputas pelo território, havia pelo menos alguma esperança de que uma pausa pudesse se firmar e permitir o avanço da diplomacia.

Quem tem a missão de manter a paz na região é o Grupo de Minsk, presidido pela Rússia, junto à França e aos Estados Unidos. Sob os termos do último acordo, de fato, o Azerbaijão e a Armênia se comprometeram novamente a negociar uma paz duradoura, segundo as indicações do Grupo de Minsk, mirando a um acordo que, infelizmente, não evitou a retomada dos combates.

A verdade é que um simples cessar-fogo não é suficiente, considerando as forças em ação no conflito entre Armênia e Azerbaijão. Sem ninguém para responsabilizar os Estados por quebrar a trégua, há pouco incentivo para honrá-la. Não foi a primeira vez, neste mês de outubro, que um acordo de cessar-fogo tenha sido tentado: dia 10, um pacto semelhante foi fechado e, como o último, também rapidamente descartado.

 

Outra guerra por procuração

Com a Turquia e a Rússia alimentando lados opostos na guerra, a rivalidade continuará até que não sirva mais aos interesses dos dois países. Embora Moscou tenha mediado o acordo de 10 de outubro, entendia, com toda a probabilidade, que estava destinado ao fracasso. Afinal, o Kremlin está travando batalhas por procuração contra a Turquia, na Líbia e na Síria. Elas, as batalhas, representam a forma pela qual a Rússia está expandindo sua esfera de influência, desafiando Ancara.

O presidente russo, Vladimir Putin, não é conhecido por jamais desistir de um desafio. Simplificando: o conflito em Nagorno-Karabakh é visto, por Moscou, como mais uma oportunidade – talvez até uma obrigação – de enfrentar a Turquia. Essa mentalidade é precisamente a razão pela qual a luta não vai cessar tão cedo.

Ao contrário da Síria e da Líbia, Nagorno-Karabakh já fez parte da União Soviética. A batalha entre a Armênia e o Azerbaijão é ampliada quando vista através desta lente, com a qual Putin aborda a situação. Para adicionar mais justificativas explicando o apoio russo, existe um acordo de defesa mútua com a Armênia, que implica a possibilidade do apoio militar de Moscou. Por enquanto, a Rússia descartou a opção.

 

Onde está o grupo de Minsk?

O problema com o grupo de Minsk é que seus membros são inadequados quanto à tarefa de manter e restaurar a ordem. Washington não está em condições de negociar a paz com um presidente que se encontra em plena campanha eleitoral. A França seria a mais equilibrada das três potências, mas no momento sendo consumida pela árdua luta em curso no Sahel e em outras áreas de seu interesse, na África, especialmente, na Líbia.

A Rússia está igualmente estagnada, já que os recursos do Kremlin são muito escassos. Ela está envolvida em conflitos em todo o mundo, da Grécia e Líbia à Bielorrússia, e está até mesmo enfrentando protestos domésticos.

O Grupo de Minsk foi estabelecido para ser um órgão dedicado à paz, de longo prazo, porém, com apenas três membros, cada um ocupado em tentar demonstrar ser a próxima superpotência, o Grupo está numa situação de fraqueza e ineficiência.

 

Problema da Armênia na Turquia

Por fim, neste cenário, há o aspecto turco. Ancara lançou grandes dúvidas sobre o sucesso da paz, sem a retirada completa dos armênios da região. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, provavelmente, vê a recente eclosão de um novo conflito como uma chance de Ancara ter, em fim, seu domínio na região.

Embora a Turquia, como o Grupo de Minsk, tenha clamado pela paz na região, ela apenas a aceitaria em seus termos, o que significa que os armênios teriam de abandonar o território que mantiveram por décadas.

 

O que a paz exigirá?

A paz em Nagorno-Karabakh só virá quando as potências mundiais – o Grupo de Minsk e a Turquia – decidirem que a região não se tornará um campo de batalha para uma guerra, por procuração, entre Ancara e Moscou. Além disso, depois de décadas no limbo, é hora de o mundo reconhecer a região independente do Azerbaijão. O cessar-fogo em Nagorno-Karabakh está ficando cada vez mais curto. Em breve, pode haver uma guerra total, porque a organização responsável por evitá-la não está muito interessada nem preocupada em buscar ativamente a paz.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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