Oportunidades no perigo

Por Francisco Victer.

Opinião / 18:31 - 23 de mar de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Em um de seus discursos de campanha, John Kennedy registrou que “na língua chinesa, a palavra ‘crise’ é composta de dois caracteres, um deles perigo, e o outro, oportunidade.” Por mais memoráveis que sejam essas palavras, lamentavelmente os linguistas chineses afirmam que isso se trata de uma interpretação errada da expressão, que normalmente se entende como “perigo em um ponto fraco”. No entanto, a tradução que Kennedy fez em seu discurso se tornou tão icônica nas esferas do mercado e da política que, ao fim da década, já havia chineses escrevendo a palavra “crise” dessa exata maneira.

Contudo, para que não trabalhássemos com uma citação errada, Albert Einstein veio ao nosso auxílio: “No meio da dificuldade, encontra-se a oportunidade”. E com essas palavras nós ficaremos.

 

É preciso montar um plano e estabelecer

metas durante as ‘férias’ forçadas

 

Quem estiver lendo esse texto na época em que foi escrito logo concluirá que com “crise” me refiro à pandemia global de coronavírus, ou mesmo ao presente colapso internacional das bolsas e do mercado financeiro. Também! Mas nesse momento, escrevo da pequena perspectiva de um estudante que está obrigado a ficar em casa em isolamento.

É natural que, em uma condição de quarentena global, muitos tenhamos coisas importantes em jogo, mas com essa mudança de paradigma, mesmo alguém que esteja trabalhando de casa ganhará algumas horas extras em seu dia.

Tudo bem, tudo bem, estamos em condições excepcionais sem dúvida alguma, mas sair da rotina e passar um período em casa será atemporal enquanto existir no mundo ao menos um operário que está se recuperando de um acidente menor ou um executivo que foi obrigado a tirar licença. O ponto é que, independentemente de vírus, haverá em nossas vidas muitos problemas que gerarão situações similares, e que cabe a nós fazer algo com esse todo esse tempo.

Agora, estando em um contexto como esse, o nosso primeiro impulso é inconscientemente agradecer pela oportunidade de finalmente sairmos da intensidade do dia a dia. No momento seguinte, passamos a especular mentalmente o que fazer durante esses dias ou semanas de ócio. E quando percebemos, já estamos deitados em um sofá ou cama, aleatoriamente vendo notícias e observando as horas passarem.

Veja bem, um pouco de procrastinação de tempos em tempos é saudável, mas o problema surge quando esse hábito se torna um ritual diário das suas “férias”. Para combater isso, é preciso montar um plano e estabelecer metas a serem atingidas durante essa época de tempo extra, seja arrumar a organização dos armários de casa ou escrever sete capítulos de um livro.

Segundo estudos do mundo todo, umas das principais complicações que pessoas ocupadas têm em seu dia a dia é a falta de sono, algumas delas deficientes há tanto tempo que mal percebem que estão aquém de todo seu desempenho mental. Esse hábito de dormir mal é tão forte que permanece até nesses períodos em que há tempo de sobra, alimentando uma procrastinação que devora horas da madrugada. Sabemos que cada indivíduo possui uma fisiologia diferente, mas com todo esse tempo livre, por que não tentar corrigir seus ciclos circadianos e experimentar dormir oito horas e meia por dia em uma semana? É possível que os resultados sejam surpreendentes.

Ainda que não tenham um impacto tão direto quanto a correção do sono, o mesmo vale para exercícios físicos. Existem muitos treinos que podem ser feitos em casa sem o uso de aparelhos, e pessoas de todas as idades podem sentir melhoras objetivas na energia e flexibilidade do corpo.

Para não abrir mão dos clichês, sugiro a dica mais antiga (e provada) dos manuais de autoajuda: leia um livro (ou mais). Se nada nesse texto lhe for útil, garanto que existe algum autor nesse mundo que tem exatamente o que você quer, quer seja uma aventura medieval épica ou dicas de investimento para um mercado deflacionário.

Se você é um estudante ou profissional e deseja se especializar, encontrará cursos gratuitos e pagos, com certificado, em plataformas como FGV, edX, Coursera, Skillshare e Udemy. Por que não dominar uma biblioteca de uma linguagem de programação? Ou mesmo avançar naquele idioma que você começou a aprender pelo Duolingo ou Babel?

Ou, claro, faça exatamente como esse autor e passe uma tarde pesquisando e redigindo um artigo sobre algum tema contemporâneo; uma ação como essa certamente refletirá bem no seu currículo e chamará a atenção de futuros empregadores. Um motor consome muito mais combustível se parar e voltar a rodar, e, analogamente, um indivíduo deve buscar estar sempre produzindo, ou estagnará no seu crescimento.

Em qualquer mercado, o tempo vale dinheiro, e como pessoa não há motivo para você não investi-lo da mesma maneira. Durante uma crise global ou pessoal, em vez de temer que as oportunidades lá fora estejam em perigo, faça o que Kennedy e Einstein sugeriram e os chineses abraçaram, e busque suas próprias oportunidades no que os outros chamam de perigo.

Francisco Victer

Estudante de Engenharia de Produção na UFRJ.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor