Ordem sem progresso

Por Marcos Seiiti Abe.

Opinião / 17:10 - 6 de jul de 2020

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Em 1789, quando a França ainda se mostrava uma monarquia absolutista, o vilarejo de Salency era governado democraticamente, e a ordem lá imperava. Criminalidade baixíssima, cidade limpa e ordeira, todas as crianças na escola.

A vila era gerida pelo pároco local, regida por sua constituição não escrita e firmada pelos costumes. Contava com sua própria estrutura de participação popular e de solução de conflitos. Todos os habitantes eram considerados como iguais. Os cidadãos de bem trabalhavam a terra e dela colhiam seus frutos em abundância. As crianças da comuna de Salency eram todas mandadas à escola, com um professor pago pela comunidade, e todas aprendiam a ler e escrever.

Em tempos de convulsão social, pandemia e protestos raciais agravados pelas grandes aglomerações, esse ideal idílico da doce e pacata vida no campo já é visto por analistas de fundos e investidores profissionais como tendência e ideal de consumo da população das grandes cidades no mundo.

Desejamos nossa própria Salency como remédio de nossas dores e anestésico para nossas culpas enquanto sociedade, ambicionando uma vida mais reclusa, previsível, curada e distante da urbe, esquecendo o fato de que a tecnologia arrastou a grande maioria de nós para um caminho sem volta, uma grande aglomeração em redes sociais, notícias verdadeiras, falsas, interessantes, interessadas e interesseiras, sem a curadoria do pároco do vilarejo em que todos confiam.

Salency é hoje como todo outro lugar, pois lá se vive em tempo real os protestos, a realidade de um negro suplicando por ar para respirar enquanto sufocado impiedosamente por uma autoridade branca, a mortandade crescente fotografada em valas abertas aos milhares pelo mundo, o embate de ideais manipulado em favor de dividendos políticos por partidos de todos os matizes ideológicos, à direita e à esquerda.

A ordem que imperava em 1789 no vilarejo de Salency tinha por segredo a distância da grande cidade, mas também sua intolerância a qualquer diferença ou fator que pudesse afetar a segurança, os costumes e os valores de seus habitantes. “Estrangeiros”, “bruxas”, homossexuais e aqueles que pecavam contra o recato, como as mulheres que se deixavam perder antes de seu casamento, incluídas as mães solteiras, eram justiçadas muitas vezes até a morte ou precisavam fugir para Paris.

Hoje somos todos Paris, São Paulo, Nova Iorque e Minneapolis, tudo isso sem sair de Salency. Não é mais possível pensar o mundo e viver nele sem dar conta de que, querendo ou não, precisamos nos posicionar em favor de um Estado de Direito onde impera a lei em favor de todos os seus habitantes, incluídos os negros e pardos, índios, os LGBT+, os de outras religiões, os mais vulneráveis às pandemias.

É não somente um contrassenso, mas uma burrice – sem querer ofender o que tem de inteligência o pobre animal – imaginar que as fake news ou a violência verbal ou institucional serão suficientes para mudar o curso da história e permitir um estilo de vida de um “ideal” que jamais existiu, mas que ainda é objeto de sonhos inconfessáveis de alguns.

Salency já veio ao nosso socorro. Não o pároco local, não a comuna em que o diferente é execrado. Veio sobre nós a Salency dos “estrangeiros”, das “bruxas” de plantão, das mulheres irrecatadas e dos que são diferentes. O vilarejo já está aqui, clamando por justiça, inclusão e participação, pelo novo sonho de que diversidade é possível e necessária.

Só vai se safar dessa, viver o belo e o propósito, quem puder gritar a plenos pulmões que o Direito é para todos, talvez ainda mais para o alijado dele por séculos. Com o retorno do sonho, vem o ideal de justiça. E com ele, o verdadeiro Direito para e de todos nós.

Marcos Seiiti Abe

Advogado.

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