‘Os cães mais cruéis’

Polícia no Brasil mata 2,6 vezes mais que a dos EUA.

Empresa Cidadã / 16:55 - 3 de jun de 2020

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Em geral, os cães são animais dóceis e prestativos, que adoram “adivinhar” o desejo dos seus tutores para satisfazê-los. Evoluíram seguindo o Homem para desfrutar dos seus restos de alimento, carinho e castigo. Alimento, carinho e castigo utilizados como reforço para o que aprendem a fazer, ou pelo que deixam de fazer. Se o presidente dos EUA sente-se ofendido com os protestos contra mais um assassinato covarde de um negro, desta vez o cidadão George Floyd, por policiais brancos, escolhe como inimigo o grupo Antifa (reunião ocasional de pessoas que se opõem e se manifestam contra práticas fascistas) e ameaça soltar os “cães mais cruéis” contra os manifestantes – cães não nascem cruéis – é por que foram adestrados para atacar.

A relação recente dos afro-americanos com presidentes republicanos não tem sido feliz. Reagan, ator, não só deixou Flint quebrar (GM), como também pisou no acelerador do mantra de Victor Lebow (“...tornemos a compra e uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual, a satisfação de nossos egos, no consumo...”), incrementando o hiperconsumismo materialista, predador da natureza e promotor de desigualdade, mãe da injustiça, para quê? Para viabilizar, ainda que a um preço impagável, a sua “reaganomics” (a “supply economics”) política econômica estribada no aumento desmedido da oferta, através da criação de necessidades vazias, desde que capazes de domesticarem os custos de produção.

A propósito, Victor Lebow foi assessor econômico do general presidente Dwight D. Eisenhower, não menos republicano, orgulhoso na definição do complexo militar-industrial norte-americano. Saiu Eisenhower, entrou John Kennedy (democrata, assassinado), sucedido por Lyndon Johnson (democrata que afundou mais ainda os EUA no Vietnã, até ser derrotado por Ho Chi Minh), de quem Martin Luther King Jr e outros extraíram o Ato Patriótico de 1965, legislação conquistada pelos afroamericanos nas ruas.

A confusa (para ser gentil) democracia norte-americana produziria ainda George Walter Bush, filho de outro ex presidente, que foi eleito presidente por uma canetada de uma juíza de primeira instância, nomeada pelo governador da Flórida, irmão de Bush, com cerca de 1 milhão de votos a menos do que o seu adversário, Al Gore.

 

Black Lives Matter (lá e aqui)

Relatório apresentado por Samira Bueno, pesquisadora e diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em números, comparou a violência da polícia nos EUA com a violência das polícias no Brasil, na África do Sul e em El Salvador, tomando 2016 como ano-base. A cada 100 homicídios sem envolvimento da polícia nos EUA, policiais norte-americanos mataram 2,9 pessoas. No Brasil, considerando a mesma relação, policiais mataram 7,8 pessoas. A mais alta taxa de letalidade foi observada em El Salvador, uma das incluídas na pesquisa de dados. Foram 10,6 homicídios cometidos por policiais a cada 100 homicídios sem envolvimento policial.

Dados obtidos junto ao Monitor da Violência (G1/Núcleo de Estudos da Violência-NEV/USP/Fórum Brasileiro de Segurança Pública), abrangendo 26 Unidades da Federação apontam 5.804 pessoas mortas por policiais e 159 policiais mortos, em 2019.

Entre tantos outros casos dramáticos, são adolescentes, como João Pedro Mattos, de 14 anos, morto durante uma ação da polícia no Morro do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, onde João Pedro foi atingido pelas costas por um tiro de fuzil, enquanto se divertia na casa de parentes. Assim como a pequena Ágatha Félix, de apenas 8 anos, que morreu, em setembro de 2019, baleada com um tiro nas costas de um fuzil 7.62. Ou como Kauê Ribeiro dos Santos, 12 anos, assassinado com um tiro na cabeça, no Complexo do Chapadão. Ou como Kauan Rosário; 11 anos, assassinado em Bangu, em maio de 2019. Ou como Jenifer Cilene Gomes, 11 anos, assassinada, na porta de casa, durante uma ação da PM fevereiro de 2019. Ou como Kauan Peixoto, 12 anos, baleado, em março de 2019, na comunidade da Chatuba, quando saiu de casa para comprar um lanche. Além desses, mais 11 crianças foram baleadas em 2019, mas conseguiram sobreviver.

Todos negros, sem dúvidas.

 

O castigo vem com os cães mais cruéis

Ou, a cavalo. Ou de helicóptero.

Ou de jipe, com um cabo e um praça.

Fala-se muito no dia seguinte ao fim da pandemia da Covid-19, quando tudo voltar ao normal. Sabemos que normal é distribuição de frequência. E só isso. Não é sinônimo de natural, nem de coisa correta. É apenas o que mais se repete. Logo, podemos indagar: o que será normal quando a Covid-19 passar? Ou seja, quando todos estiverem vacinados em boas condições de saneamento, higiene, alimentação, transporte e, sobretudo, de educação?

 

#Fique em casa

Na paz.

 

Paulo Márcio de Mello é professor servidor público aposentado da Universidade do Estado do RJ (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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