Os desafios econômicos de Javier Milei

Segundo Marcos Buscaglia, economista argentino, Milei deverá focar na grande preocupação dos argentinos: a microeconomia.

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Marcos Buscaglia (foto divulgação)

Conversamos com Marcos Buscaglia, economista e escritor argentino, sobre os desafios econômicos de Javier Milei, eleito presidente da Argentina para o período de dez/2023 a dez/2027.


Em termos econômicos, como pensa Javier Milei?

Milei se define como um liberal libertário. Seu principal pensamento é tirar o peso do Estado da atividade econômica, desregulando, privatizando e deixando que as pessoas possam produzir livremente. A base fundamental de Milei implica uma mudança substancial do ordenamento econômico, contudo, eu não me refiro à macroeconomia, que sempre falam muito, como a dolarização e o ajuste fiscal, mas a parte que mais preocupa os argentinos: os muitos impostos, as regulações, a economia muito protegida e a intervenção sindical muito grande no trabalho. O fundamental de Milei é a microeconomia, e não a macroeconomia.


Qual a sua avaliação sobre a inflação argentina?

A Argentina está num processo muito delicado de inflação, que pode terminar, facilmente, acima de 180% em 2023. Em termos de análise, é bastante simples entender esse processo: como o governo tem déficits fiscais, mas a Argentina não tem um mercado de dívida para financiá-lo, ele acaba sendo financiado por emissão monetária.

Isso faz com que o Banco Central emita muitos pesos, mas como as pessoas não os querem, elas compram bens e dólares, o que faz com que tenhamos dois fenômenos simultâneos: pressão sobre os mercados paralelos de dólar e sobre os preços. Para terminar com a inflação argentina é preciso acabar com a capacidade do Banco Central de emitir pesos para financiar o governo.

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Como está a dívida pública da Argentina?

A dívida pública argentina corresponde a 68% do PIB, mas é como se esse número fosse mentiroso. O problema é que esse PIB é calculado com o câmbio oficial, que não é representativo. Se a dívida fosse medida pelo PIB calculado pelas cotações paralelas do dólar, a dívida ficaria mais próxima a 90%. No governo de Alberto Fernández, a dívida pública argentina cresceu mais de US$ 100 bilhões, ultrapassando o total de US$ 400 bilhões.

Diferente do Brasil, o problema é que 75% da dívida pública argentina é dolarizada. Isso significa que quando há uma desvalorização da moeda, o peso da dívida sobre o PIB aumenta.


A taxa de juros argentina tem impacto na dívida pública do país?

Não, não tem tanto impacto. Esse impacto está numa dívida que não está na dívida pública, que é a dívida do Banco Central. Na Argentina, o Banco Central não usa bônus do governo como no Brasil, mas sim bônus próprios chamados LELIQs, que não estão no número que te passei da dívida pública. Se estivessem, seriam mais 10 pontos percentuais do PIB. A taxa de juros impacta nas LELIQs porque elas estão em pesos.

A taxa nominal argentina é alta, mas a taxa real é menor que a inflação esperada, ou seja, negativa, diferente da brasileira, que é altamente positiva.


Como se explica que a taxa de juros não tenha mais efetividade no combate à inflação?

É preciso pensar que o mecanismo de transmissão monetária na Argentina é muito débil, pois o volume de depósitos corresponde a 15% do PIB e grande parte dos ativos do Banco Central não são créditos, mas instrumentos do governo e do próprio Banco Central. Isso faz com que a taxa de juros não seja um mecanismo de transmissão monetária eficiente, mas sim muito rude.


Como está a questão previdenciária na Argentina?

O governo de Alberto Fernandéz mudou a fórmula de indexação das aposentadorias, o que faz com que as aposentadorias caiam em relação ao PIB quando a inflação acelera, o que fez com que, nos últimos meses, as pensões caíssem de maneira muito forte em termos reais. É quase irônico que o ajuste fiscal feito pelo atual governo tenha sido esse.

Além disso, o sistema previdenciário argentino precisa de uma reforma, da mesma forma como foi feito no Brasil. Contudo, eu diria que a reforma argentina seria muito mais complicada que a reforma brasileira, que era, em termos técnicos e políticos, e agora você vai rir, mais simples.

Na Argentina, a reforma é mais complicada pois existem muitos regimes, chamados de privilégios, e que não são gerais. Por exemplo, se você for trabalhador de uma empresa de carvão do Estado, você terá uma aposentadoria muito mais alta, da mesma forma como em várias outras empresas. Sem contar que existem muitas pessoas que se aposentam sem terem feito as contribuições correspondentes.

Esse é um problema muito mais complicado que o brasileiro, pois não há uma solução técnica. Se, politicamente, uma reforma previdenciária é difícil de ser feita em qualquer país, na Argentina, além dessa dificuldade, ela é muito mais difícil tecnicamente.


O que pensa Milei sobre o Mercosul?

Milei vê o Mercosul como um experimento que precisa ser renovado. Ele quer abrir a Argentina ao mundo. Não sei se de imediato, mas esse parece ser o objetivo. Se o Mercosul for um obstáculo para isso, me parece que ele vai tentar fazer com que a Argentina faça esse processo sozinha. Obviamente, ele vai precisar do Congresso, mas não está claro se ele vai ter apoio para isso.


Existe chance da Argentina sair do Mercosul?

Não me lembro de ter visto declarações de Milei a respeito disso, mas acredito que haja uma forma muito mais eficiente para fazer esse processo, que é converter o Mercosul, que é uma união aduaneira, em uma área de livre comércio.

Para que as pessoas entendam a diferença, o Mercosul é uma união aduaneira, que além de ter um comércio livre entre seus integrantes, possui uma mesma política de tarifas aduaneiras para os outros países do mundo. Numa área de livre comércio, além de haver um livre comércio entre seus integrantes, cada um pode fixar a sua política aduaneira.

Como o Uruguai está querendo fazer um acordo de livre comércio com a China, pode ser que Milei coloque a pedra na tumba do Mercosul como união aduaneira.


Uma coisa era o candidato. Outra é o presidente. Como Milei deverá conduzir a relação governamental com o governo brasileiro?

Acredito que de uma forma muito pragmática. Eu conheço Diana Mondino, futura ministra de Relações Exteriores, e posso dizer que ela é uma pessoa muito sensata. De fato, desde que foi eleito, se nota Milei muito mais pragmático na formação do seu governo e muito mais disposto em expandir a coalizão de governo.

Outro exemplo. Não está confirmado, mas os jornais argentinos estão dizendo que o atual embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli, poderia continuar na embaixada. Para que você tenha uma ideia, em algum momento da candidatura de Scioli à presidência argentina (2015), Milei trabalhou com ele. Se Scioli seguir como embaixador, haverá um grande sinal de continuidade.


Considerando a conversa que tivemos, você vê mais algum ponto importante para trazermos para essa entrevista?

Milei possui dois planos muito distintos. O primeiro é o plano estrutural, que eu vejo mais bem encaminhado, sobre a forma como será feita a transformação do ordenamento econômico na Argentina. O segundo é a estratégia de estabilização, que é muito sensível, mas que não possui muita informação.

O governo atual deixou uma bomba armada. Se mexerem num cabo errado, a bomba explode. Temos que ver se Milei está formando uma equipe para cortar os cabos sem que a bomba exploda.

Link para o Relevamiento de Expectativas de Mercado (REM) de outubro, o boletim Focus da Argentina.

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