Os desafios para Joe Biden nos EUA

Após uma das mais esperadas e, para alguns, emocionantes eleições dos últimos tempos, o Partido Democrata ganhou a corrida presidencial nos EUA em 2020. A chapa formada por Joe Biden e Kamala Harris venceu a situação, formada pelos republicanos Donald Trump e Mike Pence. A vitória nas eleições como um todo, incluindo a Câmara e o Senado, superaram as expectativas, gerando uma “Onda Azul” no ambiente político americano, de modo que a maioria das pautas propostas por Biden não deverão ter muitos entraves para serem aprovadas.

Dentre essas medidas, destacam-se os pacotes de estímulos à economia, que podem chegar a trilhões de dólares; a agenda em torno de políticas pró-clima, como a diminuição das emissões de carbono; e outras pautas defendidas pelos democratas. No entanto, Biden também terá o desafio de lidar com um país que passa por uma crise sanitária e econômica.

Uma crise está totalmente ligada à outra, pois os principais problemas estão vinculados à pandemia da Covid-19. O fechamento do comércio e de estados inteiros fizeram com que grande parte dos negócios falissem, colocando centenas de americanos nas ruas.

As medidas realizadas por parte do Fed não foram suficientes para amenizar os impactos do atual momento. Isso fez o lado fiscal agir de forma conjunta com a monetária, após a resistência do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin. Mas, mesmo assim, a economia americana pode continuar com cicatrizes profundas da crise – não obstante todos os esforços econômicos que devem ser realizados sem os entraves republicanos (em meio à “Onda Azul”).

O dado mais importante referente à criação de empregos nos EUA mostra o quanto a economia americana continua fragilizada. Recebendo impacto do desemprego que persiste, principalmente no que diz respeito aos setores mais frágeis da economia.

Outro indicador importante para verificar a fragilidade do mercado de trabalho é a quantidade de pessoas que continuam demandado auxílios para que consigam sobreviver:

Mesmo que muitos estímulos sejam feitos e já exista um calendário de vacinas, o avanço da Covid-19 nos EUA ainda pode trazer turbulências. Isso pode fazer com que Biden e sua equipe tenham que apagar alguns incêndios no começo do mandato democrata – corroborando para o argumento de Jerome Powell, presidente do Fed, sobre a necessidade de mais estímulos.

O mercado financeiro olha tais estímulos de forma muito positiva, abrindo oportunidades de investimentos, principalmente em mercados emergentes. Contudo, os riscos em torno dessas políticas são alertados por alguns economistas, como John H. Cochrane, pesquisador associado do National Bureau of Economic Research e do Instituto Hoover da Universidade de Stanford.

A possibilidade de taxas de crescimento econômico baixas e outros fatores podem gerar consequências desastrosas para a economia, conforme Cochrane fala em artigo intitulado “Debt denial”. Nesse caso, entra também a teoria de James M. Buchanan, professor, economista e Nobel de Economia em 1986, evidenciando que o governo pode aumentar a utilidade de sua Teoria da Escolha Pública já pensando em uma aprovação, não apenas no agora, mas em sua popularidade e possível recandidatura.

O campo da diplomacia também exige cuidado mesmo na administração de Biden. Apesar do perfil diferente em relação ao de Donald Trump, a crise diplomática com a China e a Rússia continua sendo um ponto de fragilidade para o governo americano. A China será o primeiro país a ter sua economia recuperada após a crise e expande fortemente sua influência ao redor do mundo.

Isso não significa apenas a expansão econômica de um país, mas, também, ganho de espaço e persuasão em todo o mundo. O país oriental tem expandido a sua influência, vendendo ao mundo um possível modelo de como fazer economia após a crise.

Não raro, muitos professores em universidades pelo mundo, inclusive no Brasil, têm colocado o modelo chinês como um dos mais eficientes do mundo. Liu He, vice-premiê do Conselho de Estado da República Popular da China, diz que o país não abrirá mão de seu modelo liderado pelo aparelho estatal. Além disso, afirmou que a economia do país será a mais forte do mundo.

Como oportunidade para o democrata, a reaproximação dos EUA com parceiros como a União Europeia e o retorno à política mais abrangente com o Irã, como foi com o ex-presidente Barack Obama, pode aliviar algumas pressões da agenda internacional sobre o governo democrata.

Por outro lado, países como Brasil, Polônia e Hungria podem perder fortemente a sua representatividade no cenário internacional. Trump estava mais alinhado com as ideias dos presidentes dos países citados, sem se opor à condução da política ambiental e outras pautas progressistas, que são defendidas por Biden e a maioria dos membros da União Europeia. Como tais países não podem gerar grandes problemas como os do Oriente Médio, terão de dançar conforme à música, o que acaba sendo uma oportunidade para Biden.

A vitória de Biden nas três instâncias do poder não mostra a situação atual do país. No dia da diplomação do presidente eleito, manifestantes mais radicais invadiram o Capitólio, discordando da legitimidade da eleição do democrata. Além disso, muitos manifestantes pró-Trump fora do capitóliAvanço da Covid-19 pode fazer com que democrata e equipe tenham que apagar alguns incêndios no começo do mandato.o também mostravam apoio ao republicano e à renúncia de Biden. Os atos resultaram, inclusive, em um tiro à queima-roupa que levou uma manifestante à morte.

A situação é uma imagem da divisão em que a maior democracia do mundo se encontra. Apesar dos negros, latinos e imigrantes ainda votarem maciçamente em democratas, as últimas eleições mostraram elevação nos números de pessoas desses grupos votando no partido republicano. Isso evidencia que a hegemonia democrata focada em determinados grupos da sociedade americana pode não ser mais uma regra. Exemplo disso são grupos como Black Conservatives for Truth e pessoas influentes como Cadence Owens, Ben Carson e J. Kenneth Blackwell, entre outros. Tal mudança está muito relacionada ao perfil ideológico de muitas dessas pessoas.

Apesar de os aspectos econômicos e diplomáticos serem os principais vetores de risco para os mercados, a divisão dentro dos EUA também pode impactar negativamente o mercado. Todavia, o pragmatismo americano em relação às condições econômicas do país, mediante a um pacote de estímulos que pode fazer a economia americana voltar a crescer, e os receios da parcela da população que se opõe a Biden podem ser arrefecidos, o que é uma oportunidade para o ex-vice-presidente de Obama.

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Matheus Jaconelli

Economista

Nova Futura Investimentos

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