Os desdobramentos do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã

Segundo Leonardo Paz, da FGV-RI, Trump dobrou a aposta ao bloquear o Estreito de Ormuz. A questão é saber por quanto tempo ele consegue sustentar esse bloqueio.

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Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV
Leonardo Paz é pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV

Conversamos com Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, sobre os desdobramentos do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã.

Qual a sua leitura sobre os acontecimentos no Oriente Médio?

Existiam três fatos que já mostravam que esse acordo teria dificuldade para sair do papel. O primeiro foi que o documento que Trump disse ter aceitado não era o mesmo do governo iraniano. Isso fez com que houvesse uma confusão sobre os itens base da negociação. O segundo foi a retórica americana, que é muito complicada.

Por exemplo, um dia Trump diz que vai apagar uma civilização do mapa, mas no outro diz que quer conversar com o Irã. Quando o Irã aceitou conversar, enquanto J.D. Vance disse que a negociação ia ser construtiva, Trump disse que o Irã cedeu, pois perdeu tudo, e agora nós vamos ganhar tudo. Por mais que isso seja uma jogada para sinalização interna, e os iranianos sabem disso, não se negocia de boa fé com alguém que tem uma retórica tão competitiva e agressiva como essa.

Por fim, como Israel, em tese, não tinha nada a ganhar com esse cessar-fogo, ele não tinha o menor interesse em que ele funcionasse. Como Israel não podia atacar diretamente o Irã, ele pegou pesadíssimo com o Líbano, o que fez com que se criasse a confusão sobre se o Líbano fazia ou não parte do acordo. Veja que o ataque de Israel ao Líbano não foi trivial, mas brutalíssimo, com a morte de 300 pessoas em um só dia. Se esse acordo tivesse avançado, ele teria conseguido, no máximo, uma extensão da negociação.

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A guerra começou com Estados Unidos e Israel de um lado e o Irã do outro, mas em pouco tempo ela se tornou um conflito entre Estados Unidos e Irã. O que aconteceu com Israel?

Israel continua no conflito. O que mudou um pouco foi que como o Irã escalou o conflito, Israel teve que se colocar, de certa maneira, um pouco mais na defensiva, com os Estados Unidos, até pelo ponto de vista da retórica de Trump, passando a agredir mais o Irã. Mais recentemente, Israel parou de atacar o Irã por causa das etapas da negociação, pois ele não podia minar os esforços de Trump. Vale ressaltar que Israel precisa do governo americano, mais do que nunca, para o seu esforço para conter os ataques de mísseis e drones iranianos.

Eu não diria nem mesmo que nós tivemos um recuo tático de Israel, mas sim uma reorganização do conflito no contexto do que Israel pode vir a fazer ou não. É claro que ele está aproveitando o momento para atacar o Líbano, já que ele vinha fazendo um esforço, há mais de dois anos, para enfraquecer o Hezbollah, ocupando a parte sul do Líbano justamente para fazer uma área de segurança de Israel, uma espécie de buffer zone.

Dessa forma, eu não concordo que Israel saiu do conflito. Ele continua, mas de outra maneira. O ponto é que a nossa mídia fica muito apegada ao Trump, já que é muito difícil fugir dele, pois ele fala muito e de forma agressiva. Como Trump usa a mídia o tempo todo, ele fica mais aparente, mas Israel continua no conflito.

Para o Irã, o simples fato de não capitular, independente de todas as perdas que ele tenha, seria uma vitória. Como os Estados Unidos podem sair dessa situação?

Os Estados Unidos têm um problema que pode ser uma solução ao mesmo tempo. Desde o início da guerra, Trump já disse que os Estados Unidos tinham uma série de objetivos, entre eles: acabar com a marinha, com a questão nuclear, com o programa de mísseis e com o governo do Irã. Com tantos objetivos, fica difícil obter uma vitória, mas também fica mais fácil, em tese, dizer que se um objetivo foi alcançado, a campanha foi um sucesso.

Mais do que em termos de sucesso, nós temos que pensar em termos de século 21, ou seja, qual será a narrativa dominante que vai colar com o fim do processo. Se Trump conseguir um acordo que pode ser bem vendido para o americano médio e a guerra passa a não impactar mais na eleição de novembro, ele ganha no final das contas, pois hoje em dia, a medida de sucesso está mais relacionada ao que se empacota e se vende do que ao que se atinge.

O problema é que isso tem um custo a longo prazo. Desde o fim da Guerra Irã-Iraque, o Irã deixou de correr atrás da produção da bomba atômica. Ele sempre tentou chegar no limiar, mas sempre parou ali. O ponto é que daqui para a frente, eu não vejo um governo iraniano, na mesma linha do governo de hoje, sem buscar um artefato nuclear. Esse conflito deixou claro e patente que eles precisam disso para se defender. É por isso que a ação de Trump pode ter um efeito problemático a médio e longo prazo. O Iraque e a Líbia são dois exemplos claros de países que abriram mão de artefatos nucleares e capitularam. Já a Coreia do Norte é um exemplo que foi atrás do artefato nuclear e fez com que a retórica mudasse completamente.

Como você tem visto a condução dos países que estão sendo atacados pelo Irã?

Nesse momento, esses países estão na defensiva, pois eles sabem que têm muito a perder. Se o Irã direcionar a sua artilharia para as infraestruturas de energia e de dessalinização de água dos países do Golfo, isso por si só já seria uma cena muito dramática. Nós não temos nem mesmo noção dos dados para calcular o tamanho desse problema. Como esses países não possuem economias diversificadas, eles estão torcendo para que o conflito acabe logo, pois eles viram o tamanho das suas vulnerabilidades. Veja que esses países estão tentando ao máximo não antagonizar com o Irã para não sofrer ataques, esperando que os Estados Unidos resolvam isso o mais rápido possível.

O bloqueio do Estreito de Ormuz feito pelos Estados Unidos pode levar a uma situação mais delicada com a China?

Na minha visão, já levou. O responsável pelo Ministério de Defesa da China já disse que o país possui um tratado comercial com o Irã e que não é para criar confusão com esse tratado. Do ponto de vista da geopolítica, esse é o próximo grande marco: os Estados Unidos vão bloquear a China, e a China vai aceitar ser bloqueada pelos Estados Unidos?

Esse pode ser um desdobramento mais complexo do conflito, mas eu não acredito que os dois países estejam imaginando que vão entrar em guerra nesse momento. O problema é que se pode criar uma situação que, caso haja um incidente, pode levar a uma nova onda de retaliações dos dois lados, sem que seja possível prever suas consequências.

Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?

Existem alguns atores que estão atuando pouquíssimo nesse cenário. A Europa se mostrou, incrivelmente, carta fora do baralho. Não se fala mais nos europeus, que estão enrolados com as suas questões de política interna. A Rússia tem interesse em que esse conflito dure o máximo de tempo, pois ele tira a atenção dos Estados Unidos da Ucrânia, mas como ela não está avançando na Ucrânia, é difícil olhar para a Rússia como um ator que vai fazer diferença de forma decisiva.

O grande ponto é que a estratégia de Trump faz algum sentido. A estratégia do Irã foi socializar o seu custo com a guerra com metade do mundo através do aumento do preço do petróleo e da interrupção do abastecimento de petróleo e gás natural. Isso criou uma pressão sobre os Estados Unidos que funcionou, tanto que os americanos ficaram desesperados para negociar com o Irã e segurar esse processo. Agora, Trump dobrou a aposta, socializando o seu custo com a outra metade do mundo, justamente os países mais próximos ao Irã  que estavam conseguindo passar pelo bloqueio iraniano. Esses países já compartilhavam esses custos devido ao aumento dos preços das commodities, mas não em termos de acesso.

Por mais que Trump tenha dobrado a aposta, ela é uma aposta arriscada, pois é preciso ver por quanto tempo ele consegue sustentá-la. O Irã vai entrar em colapso? A China vai peitar e furar? Ou os Estados Unidos e seus aliados não vão aguentar a falta de petróleo e dos seus derivados, além dos seus preços? Por exemplo, a Austrália já está desesperada com a falta de diesel, o que está fazendo com que os seus custos de frete estejam dobrando. É preciso ver como esse duplo bloqueio vai aumentar, ainda mais, os custos para a metade do mundo que já estava sendo afetada e quanto esses países vão pressionar os Estados Unidos para que eles achem uma solução para esse problema.

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