Os passageiros de esquerda e o destino do Poseidon

Por Cássio Faeddo.

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The Poseidon Adventure é um filme norte-americano dirigido por Ronald Neame lançado em 1972. A película foi baseada no livro de Paul Gallico.

O SS Poseidon é uma grande embarcação na linha do Titanic, sendo um transatlântico que no lugar de atingir um iceberg é atingido por uma onda e emborca totalmente. Em outras palavras, o convés vai para o fundo e o casco para cima. Na trama, Gene Hackman, no papel de Reverendo Scott, Ernest Borgnine, interpretando Mike Rogo, e Red Buttons, como James Martin, envolvem-se na aventura de chegar acima da linha d’água e salvar um grupo de passageiros.

Pouco haveria o que fazer com o transatlântico, mas havia nele esse grupo de pessoas determinadas e corajosas que desafiavam a tragédia. Não eram todos os passageiros, mas alguns poucos.

Assim como o SS Poseidon, o Partido dos Trabalhadores (PT) é imenso, mas uma grande onda o atingiu fatalmente, e o capitão está longe de compreender que sua nau não mais chegará ao porto sem reparos e sem a ajuda de um grande rebocador.

O PT surgiu nos anos 80, aglutinando sindicalismo, intelectuais e políticos de esquerda, especialmente aqueles que retornavam do exílio.

Nesse período, o PT conseguiu crescer e elegeu dois presidentes da república. Por inúmeras razões de ordem política, quando governou, deixou de promover uma reforma sindical que emancipasse os sindicatos e os aproximasse novamente das bases, uma vez que a burocracia eternizada no poder sindical distanciou as associações dos trabalhadores.

Já nos anos 2000, o trabalho fabril consolidava o processo produtivo na Ásia, em especial para a China, que já vinha em forte processo de crescimento industrial. As fábricas do ABC fechavam, base do PT, mudavam para outros países ou diluíam-se em unidades pelo país. As pequenas metalúrgicas fechavam. A classe operária passou a criar filhos sem perspectivas de empregos sólidos. Sugiram os trabalhadores precários, uberizados, intermitentes e sem vínculo de emprego.

Com isso, o PT perdeu sua principal característica: ser o partido do operariado. Talvez, se quando no comando do país e durante a forte expansão chinesa, pudesse negociar algo do processo produtivo industrial para o Brasil, não perdêssemos tanto. Perdeu o partido, perdemos os empregos. No entanto, a atenção foi nula, e o Brasil perdeu a chance de negociar enquanto as commodities tinham bons resultados no mercado global.

Restou ao PT, ferido pela Lava Jato, buscar abrigo nas pautas de grupos sociais e de ideologia. Ocorre que nessa seara o Partido Socialismo e Liberdade (Psol) tem conseguido acolher com sucesso as demandas que envolvem desde os infotrabalhadores precários até a causa LGBTQ+.

Parece que os simpatizantes da esquerda estão confortáveis no Psol, partido que lembra o PT dos anos 80. É como se PT e Psol dividissem um mesmo mercado, guardadas as proporções.

Não é causa totalmente perdida, pois o PT ainda é muito forte. Resta apenas saber como lidará com os novos desafios da política nacional e reconstruirá sua imagem pós Lava Jato, especialmente se conseguirá novos quadros e se novamente conseguirá dialogar com a sociedade para almejar novos cargos majoritários.

A missão é desafiadora.

Cássio Faeddo

Advogado.

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