Os riscos da transição energética para a Europa

Por Edoardo Pacelli.

Dependência de matérias-primas da China e da Rússia

 

De acordo com um estudo encomendado pela Eurometaux, um grupo que reúne industriais do setor de metais (incluindo gigantes mundiais de mineração como Glencore e Rio Tinto) e reciclagem, a União Europeia corre o risco de uma escassez maciça de matérias-primas críticas para tecnologias renováveis e, portanto, dependências futuras de fornecedores instáveis. A análise, publicada recentemente e conduzida por um grupo de investigadores da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, é a primeira do gênero a quantificar as necessidades materiais da UE, para alcançar a neutralidade climática e o desejo de maior autonomia estratégica, nos setores industriais cruciais para o Green Deal.

A partir de estimativas da Agência Internacional de Energia, que em maio de 2021, publicou um denso relatório sobre a intensidade material da transição energética global, o estudo da associação, com sede em Bruxelas, quantificou a demanda por metais e matérias-primas críticas num cenário em que a UE passaria a ter uma participação maior na produção de tecnologias, como baterias de lítio, painéis fotovoltaicos e ímãs permanentes, essenciais para os motores elétricos dos veículos BEV, e os geradores de turbinas eólicas.

Se o objetivo final é, justamente, reduzir a dependência energética da Rússia, virando-se rapidamente na direção das energias renováveis, ao longo do caminho existe o risco de uma colisão frontal com a falta de matérias-primas.

“A transição energética global é intensiva em metais”, informa a introdução do relatório. “Os planos da Europa para aumentar a produção de tecnologias de energia limpa aumentarão sua demanda por uma ampla gama de metais, principalmente, lítio, cobalto e terras raras.”

O aumento exponencial da demanda dos dois primeiros itens, até 2050 (respectivamente 3.500% e 330% em relação a 2020), é, ao mesmo tempo, acompanhado por números vertiginosos de matérias-primas mais conhecidas: alumínio (mais 5 milhões de toneladas, cobre 5 milhões de toneladas, níquel 400 mil toneladas e zinco 300 mil toneladas).

Para as terras raras, a eventual maior produção europeia de ímãs levará a um aumento entre 7 e 26 vezes o consumo atual para atingir as metas de descarbonização, até 2050. São todos materiais considerados essenciais para a fabricação das 11 tecnologias consideradas, incluindo a do vento, a solar, a do hidrogênio e a das redes de distribuição. Segundo estimativas, na ausência de intervenções adequadas, ao longo de toda a cadeia de abastecimento (desde maiores capacidades de mineração, até investimentos em atividades de refino), a Europa corre o risco de escassez de materiais, já nos próximos 15 anos.

Trata-se de um cenário baseado no mercado que não leva em conta eventos súbitos e difíceis de prever, como conflitos militares nos locais de origem da matéria-prima ou embargos comerciais, como aconteceu há uma década, entre China e Japão, com a primeira crise de terras raras. Os riscos mais óbvios identificados, do lado da oferta, foram os de lítio, de terras raras, cobalto, níquel e cobre, com a Europa dependendo principalmente da China, para os materiais refinados dos três primeiros elementos e da Rússia para o último, além do alumínio.

É necessário um salto qualitativo urgente no planejamento europeu. “Sem uma abordagem mais estratégica para desenvolver capacidades de materiais primários e secundários na Europa, não haverá transição verde e digital, nem liderança tecnológica e resiliência”, esbravejou o Comissário do Mercado Interno Thierry Breton, na Euractiv – uma rede de mídia pan-europeia especializada em políticas da UE, fundada em 1999. Nesse sentido, começa a circular pelos corredores de Bruxelas a ideia de uma Lei de Matérias Primas Críticas que pode fortalecer o mercado interno e incentivar novas soluções industriais para matérias-primas.

 

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus.

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