A história da relação entre os Estados Unidos e a América Latina possui sete capítulos bem definidos. O primeiro deles é a definição da esfera de influência, em 1822, com a promulgação da Doutrina Monroe. Esta explicitava claramente que as nações hispano-americanas que emergiam à independência constituíam território vedado aos apetites imperiais europeus e, por extensão, passava a constituir espaço natural de influência norte-americana.
O segundo capítulo é o do Destino Manifesto. A guerra de 1848 contra o México, no tempo do presidente James K. Polk, objetivou anexar territórios mexicanos considerados como indispensáveis para a realização de seu destino como nação. A posse da Califórnia e Novo México consubstanciam, efetivamente, essa etapa.
O terceiro, é o do Império. Este toma corpo a partir de 1898 com a guerra contra a Espanha e a conquista de seus territórios coloniais remanescentes. Em adição à Filipinas, isto incluía Cuba e Porto Rico. O novo império estadunidense passou então a dispor de dois cenários. Um no Pacífico e outro na Bacia do Caribe.
Em 1903, Washington propiciou a secessão do Panamá da Colômbia, para incorporá-lo como protetorado. No curso das três décadas seguintes, os Estados Unidos invadiram 34 vezes nações da Bacia do Caribe para impor a elas a sua vontade. Isso incluiu a ocupação dos seguintes países: México, Honduras, Nicarágua, Guatemala, Costa Rica, Haiti, Cuba, Panamá e República Dominicana.
Se bem que a Venezuela – país de importância estratégica devido à riqueza petrolífera -, não chegou a ser invadida, caiu dentro desse espaço geopolítico em virtude do chamado Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, que transformou o Mar do Caribe num mare nostrum das finanças e da esquadra americana, dando ordenamento jurídico às futuras intervenções.
Mais ao sul, os tentáculos de Washington enfrentaram a forte presença britânica em matéria comercial, financeira e de infra-estrutura, determinando limites à sua penetração imperial.
O quarto capítulo corresponde à Política da Boa Vizinhança, iniciada em 1933 com a chegada ao poder de Franklin Delano Roosevelt. De acordo com a mesma, Washington retira suas forças de ocupação do Caribe, derroga uma série de tratados que lhe concediam privilégios desmesurados e define uma política de não-intervenção na América Latina.
Esta fase é o resultado de três significativos fatores: a exigência de introspeção derivada de sua depressão econômica, a constatação dos limites de seu poder militar após uma longa e cansativa campanha contra Sandino, na Nicarágua, e o reconhecimento do forte movimento nacionalista latino-americano, simbolizado pela Revolução Mexicana.
O quinto capítulo é o da Guerra Fria. Terminada a Segunda Guerra Mundial e conformado um mundo bipolar, a América Latina se transformou em cenário primacial para a imposição de suas políticas. Novamente se definiu uma relação do tipo imperial, que passou a abarcar toda a região.
A criação da CIA, em 1947, se adequou bem a esse propósito. Até a invasão do Panamá, em 1989, e, salvo pelo breve parênteses da administração Jimmy Carter, quase todos os países da América Latina experimentaram, em algum momento, a mão implacável do governo estadunidense.
O sexto é o do Consenso de Washington. Terminada a Guerra Fria, os Estados Unidos colocaram em segundo plano o seu domínio imperial que passa a ser substituído pelo exercício da hegemonia econômica. A partir daí, a região passou a ser o laboratório ideal para encetar as novas políticas.
Com a chegada de George W Bush ao poder, e após os atentados de 11 de Setembro, levados a efeito em Washington e Nova York, adentra-se no sétimo e último capítulo. Os falcões estadunidenses, não se conformando com a simples adoção da hegemonia econômica, passam a exigir o retorno de um poder coercitivo imperial assumido às escâncaras. Trata-se do denominado “imperialismo democrático”.
A recente invasão perpetrada ao Iraque pelas tropas da coalizão anglo-estadunidense, ao arrepio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, é um exemplo inconteste dessa afirmativa.
Manuel Cambeses Júnior
Coronel-aviador da Reserva, é conferencista especial da ESG, membro titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e vice-diretor do Incaer.















