Os sinos choram o luto

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 18:29 - 23 de mar de 2020

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Filas e filas, no meio da noite. Com ritmo lento, a procissão fúnebre avança, sem um único membro da família para segui-la, para orar por aquelas vidas rompidas pelo vírus amaldiçoado, que impede a respiração. As imagens noturnas, que chegaram de Bérgamo, contam, mais do que qualquer outra, o drama que a Itália está vivendo. O coronavírus tem colocado uma nação inteira de joelhos e, apesar dos constantes esforços dos médicos, na linha de frente, e da comunidade científica que luta para encontrar uma cura, o número de mortos continua a aumentar inexoravelmente. Assim, a fragilidade de viver também arrebata a esperança de sair dela.

Coube ao exército retirar os caixões de Bérgamo. Nas últimas horas, eles se acumularam um após o outro, enquanto os respiradores de terapia intensiva não conseguiam mais manter as pessoas infectadas agarradas ao último suspiro. Dezenas delas foram-se sufocadas como se afogadas pelas águas. Seus corpos não terão um enterro normal. Medidas para conter a infecção o proíbem.

 

Da ilusão que fazia nos sentirmos onipotentes,

entendemos que somos apenas homens

 

E, assim, à noite, juntamente com os cidadãos de Bérgamo, testemunhamos – pasmos – uma procissão fúnebre que nunca iremos esquecer. A coluna de 30 veículos militares atravessava o coração da cidade, do cemitério monumental até a rodovia, para transportar, até os crematórios de cidades vizinhas, mais de setenta caixões que o cemitério não pôde mais administrar.

Desde que a epidemia começou a se espalhar pelos vales, a espera para cremar os cadáveres logo excedeu uma semana, tempo demasiado para evitar o colapso de estruturas não acostumadas a esse massacre. “Agora, em Val Seriana, são ouvidas, apenas, as sirenes das ambulâncias e os sinos que choram a luto”, disse uma testemunha. “Talvez – continuou – as pessoas que não moram aqui não percebam, mas, em nosso vale, morremos como se estivéssemos em guerra.”

Desde o início da epidemia, muitos não conseguem entender a seriedade do momento. As imagens de Bérgamo nos agridem como um soco no estômago: mais do que qualquer outra, elas nos atingem na cara com a tragédia que estamos enfrentando e nos forçam a refletir.

Antes, nossa geração as via, apenas, na televisão ou no cinema, naqueles filmes que em Hollywood simulam um mundo devastado por pandemias ou guerras nucleares. Hoje, elas são verdadeiras. Tocamos nelas com as mãos, experimentamos a dor na nossa pele. E essas imagens permanecerão conosco, para sempre. Provavelmente, ajudarão a curvar as pessoas irresponsáveis que não respeitam as proibições, ou a tornar os burocratas, que se apegam a cláusulas, regras e burocracia, ainda mais humanos diante do mundo devastado pela calamidade do coronavírus.

Enquanto isso, nós, que estamos trancados em casa e tentamos escapar do contágio, nos sentimos mais fracos: em uma época que nos iludiu fazendo com que nos sentíssemos onipotentes, finalmente entendemos, que somos apenas homens impotentes antes do futuro.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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