Os tempos mudam

‘Se você acha que vale a pena salvar o seu tempo, então é melhor começar a nadar, ou você vai afundar como uma pedra’.

Empresa Cidadã / 20:04 - 14 de jan de 2020

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Bob Dylan, Prêmio Nobel de Literatura 2016, entre outras preciosidades, lançou a música The times, they are a-changing, em 1964. Poderia ter sido hoje, o alerta não altera a sua atualidade. Em tradução livre de trecho da música, diz ele:

(...) “Senadores, congressistas, respondam ao chamado. / Não fiquem parados em frente à porta / Não impeçam a passagem. / Quem vai se machucar será aquele que impedir a passagem. / Venham mães e pais de toda a nação / e não critiquem o que não podem entender. Seus filhos e suas filhas estão fora do seu comando. / Sua estrada usada está envelhecendo rapidamente. / Por favor, saiam da nova estrada se não puderem ajudar / Reúnam-se onde quer que estejam / E admitam que as águas ao nosso redor estão subindo. / Reconheçam isso rápido / pois logo estarão molhados até os ossos. / Se você acha que vale a pena salvar o seu tempo / então é melhor começar a nadar / ou você vai afundar como uma pedra / pois os tempos estão mudando.”

 

Primavera Secundarista

Quando, no final de 2015, o então governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, ameaçou com a comunicação de fechamento de 91 escolas públicas estaduais secundaristas, alunos de diversas dessas escolas posicionaram-se contra a ameaça e, como forma de manifestação, passaram a ocupar estas escolas. Este posicionamento dos estudantes foi chamado de Primavera Secundarista, uma analogia com movimentos como a Primavera Árabe.

Três semanas após o anúncio da “reorganização” da rede escolar (assim denominada pelo governador de SP), estopim da manifestação estudantil, o Governo do Estado anunciou oficialmente o recuo da vontade de fechar as quase cem escolas (sem trocadilho...).

Ângela Meyer, eleita em 2014 presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), aos 19 anos, assim avaliou o movimento de ocupação das escolas. “Uma aula de cidadania” que ficará na memória de todos os que dele participaram.

O movimento obteve do Governo do Estado uma vitória relativa. Se não conseguiu a retirada do “projeto” de reorganização (consistia em manejo de alunos de 91 escolas que seriam fechadas, orientado por critérios de lotação das salas de aula e percurso casa-escola-casa), conseguiu ao menos o compromisso de adiamento da implantação do “projeto” por um ano, que seria utilizado para discuti-lo com a comunidade escolar. Isto, estribado na extensão da credibilidade da palavra do governador. O mesmo que, quando anunciou a suspensão do “projeto”, citou uma declaração do Papa Francisco, em que este ressaltava a importância do diálogo. Dias após, em confronto com a PMESP, morreria o estudante Lucas Eduardo.

Ângela Meyer questionou também a ênfase do governo em um controle da população em sala de aula, quando outros aspectos muito mais ponderáveis para a qualidade da educação não estavam contidos na proposta (a exemplo da qualificação continuada dos professores, qualidade de currículo e de material escolar, laboratórios de informática e de ciências adequadamente equipados etc). A propósito, estavam incluídos nas reivindicações do movimento o repúdio à PEC 241 (teto para investimentos sociais em educação e saúde) e à reforma proposta do ensino médio. Ao todo, no Estado de São Paulo, chegaram a ser ocupadas 200 escolas.

Este número foi superado pelo obtido no Paraná, de 800 escolas públicas secundaristas ocupadas. No estado, obteve notoriedade a jovem liderança Ana Júlia (1999), por um pronunciamento incisivo à porta da Assembleia Llegislativa: “O que verdadeiramente estamos vivendo é uma disputa da essência da educação brasileira. O corte de gastos não é uma questão exclusivamente orçamentária. Ele diz respeito, também, admitam ou não, com quem no último período passou a estar no ambiente universitário”.

A disputa é por uma educação emancipadora e popular para todos. Não é à toa que o ministro da Educação tenta nos intimidar, proibindo que estudantes e professores falem dos atos dentro das instituições de ensino, não é à toa que defendem o Escola Sem Partido. Os atos dos estudantes são a mais pura e sincera expressão de defesa da educação. Ontem, quando recolocamos a faixa na fachada da UFPR, também depositamos ali toda a nossa perseverança em defender a educação pública e enfrentar esse governo que ousa querer nos afastar da universidade.”

O ex-secundarista Gabriel Richard acrescenta: “Que fique claro que este não é um diálogo de hoje. Há muito tempo que, de dentro das escolas, cobra-se uma educação laica, emancipatória, de qualidade e, acima de tudo, pública.”

Os tempos estão mudando...

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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