Otimismo do varejo cai pelo segundo mês em meio a incertezas econômicas

Pesquisa indica que 39% dos bares e restaurantes no RS terão que demitir funcionários por conta dos impactos das enchentes no estado

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Mesas vazias: divulgação
Mesas vazias: divulgação

O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec), apurado mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), marcou 106,1 pontos em junho, uma retração de 0,5% em relação a maio. Essa foi a segunda queda consecutiva, descontados os efeitos sazonais. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, o índice também apresentou queda de 0,3%, mantendo a tendência negativa observada desde janeiro de 2023.

Apesar de o subindicador de condições atuais – que avalia a economia, o comércio e a empresa – ter recuado 0,4% pelo segundo mês consecutivo, o principal destaque positivo foi o aumento de 1,1% na confiança dos comerciantes, em relação às condições atuais do comércio. Esse aumento reflete um entusiasmo renovado dos empresários em relação ao varejo, impulsionado por indicadores de crescimento do comércio, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Contudo, conforme o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, o momento é de expectativa para as decisões macroeconômicas dos próximos meses. “Com o freio na queda da taxa Selic, imposto pelo Banco Central, e a incerteza em relação à inflação, o varejo deve adotar movimentos cautelosos no futuro próximo”, afirma Tadros. Ele lembra que a queda do volume do comércio varejista ampliado desperta ainda mais atenção para o momento atual.

A pesquisa Intenção de Consumo das Famílias (ICF) da CNC revelou um aumento de 0,5% em junho na percepção dos empresários, mas com uma desaceleração no crescimento devido aos desafios no controle da inadimplência.

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Houve uma queda de 1,2% no subindicador de expectativas – em relação à economia, ao setor e à empresa – em junho, em relação a maio, a primeira negativa após cinco meses de alta. Conforme o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, a taxa reflete a dificuldade atual dos empresários em relação aos próximos meses. A expectativa em relação à economia apresentou a maior queda, com redução de 2,3% na comparação mensal.

Apesar do mercado de crédito desafiador e da percepção negativa das condições atuais, o indicador de intenção de investimentos foi o destaque positivo, com alta de 0,4% na comparação mensal. Entre os subindicadores que compõem esse indicador, a intenção de investir na empresa cresceu 0,8%, superando os níveis observados no mesmo período do ano passado.

“Diferentemente do que ocorre em relação aos consumidores, o saldo do crédito oferecido para pessoas jurídicas vem diminuindo e a inadimplência das empresas permanece em torno de 3,3%”, explica Felipe Tavares. Segundo o economista-chefe, isso revela que os varejistas estão recorrendo menos a esses recursos por conta da redução ,0de oferta, e não porque precisam amenizar os custos com dívidas, já que a parcela de empresários com dívidas atrasadas não diminuiu.

Após um início de ano positivo, o Rio Grande do Sul apresentou recuo no Icec, em maio, de 2,1% e queda ainda maior em junho, de 8,6%, a mais significativa desde abril de 2021, quando o índice chegou a cair 10%. Em junho, o Icec alcançou 93,4 pontos, o menor desde maio de 2021 e a primeira vez abaixo de 100 pontos, desde então. O desastre ambiental no estado levou os comerciantes a repensar seus investimentos, com o subindicador apresentando a maior queda mensal, de 10,4%. A intenção de contratação de funcionários caiu 13,7% e a de investimento em estoques retroagiu 6,9% – ambas retornaram à zona de insatisfação.

A percepção das condições atuais se deteriorou 8,2%, especialmente em relação à economia – o subindicador caiu 12,1%. Embora as expectativas tenham reduzido 7,4%, elas permaneceram acima do nível de satisfação, aos 115,8 pontos, com os empresários mais confiantes em relação aos próximos meses por conta das medidas de suporte ao estado.

Segundo pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), 39% dos estabelecimentos gaúchos precisarão demitir funcionários por não conseguirem arcar com a mão de obra; ainda de acordo com o levantamento, 46% devem demitir entre três e cinco empregados.

Além da perda sofrida pelos estabelecimentos (33% tiveram danos com insumos, 21% com maquinários e 17% danos imobiliários), o que explica a situação crítica dos negócios do setor é a queda acentuada no faturamento: para 84% dos respondentes, o faturamento de maio foi menor que do mês anterior.

O levantamento ainda traz a opinião dos empresários sobre quais políticas públicas seriam efetivas para evitar demissões. Para mais da metade dos respondentes (51%), a adoção do BEm (Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda) por parte do Governo Federal seria a solução viável para a manutenção dos empregos; para 9% a opção ideal seria o Layoff e para 40% nenhuma das duas se aplicariam.

No dia 20 de junho, o Ministério do Trabalho e Emprego publicou a Portaria nº 991, que prevê o pagamento de duas parcelas do salário mínimo para os funcionários das empresas afetadas – com a condição de que a empresa o mantenha empregado por, no mínimo, quatro meses. Porém, empresários têm afirmado que a medida não é suficiente.

A presidente do Conselho de Administração da Abrasel no Rio Grande do Sul, Maria Fernanda Tartoni, traçou um panorama sobre a atual situação do setor no estado, a partir da publicação da portaria. Além de ter sido anunciada quase dois meses após o início das enchentes – momento em que já houve demissões – o texto apresenta trechos confusos, como, por exemplo, não esclarecendo quais estabelecimentos afetados terão direito ao auxílio.

Outro ponto criticado pela Abrasel é que o Governo prevê o pagamento de duas parcelas do salário mínimo; entretanto, o piso da categoria no estado é de R$ 1.655, ou seja: o empresário terá que complementar o valor da folha de pagamento, além dos demais encargos trabalhistas que precisará arcar.

“Pequenos empresários não têm reservas financeiras e não conseguem arcar com três folhas de pagamento. Muitos já enfrentaram dificuldades para pagar a folha de maio sem, sequer, ter faturado, e agora não têm recursos para cobrir os salários de junho e julho. E ainda tem o fator de que muitos negócios vão precisar começar do zero. O Pronampe oferece até R$ 150 mil para apoio aos negócios, mas a liberação não acontece em menos de uma semana. Se reconstruir uma empresa novamente já é um desafio, imagine fazer isso enquanto tem que arcar com as folhas de pagamento”, afirma.

O presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, também chama a atenção para a necessidade da reedição do BEm, explicando a diferença entre o programa e a atual portaria publicada pelo Governo: no BEm havia a suspensão do salário e era pago um piso proporcional, não apenas o salário mínimo, de forma que o empresário não precisasse complementar o valor.

“A portaria assinada paga um salário mínimo por dois meses, mas isso é insatisfatório, uma vez que existem outras despesas que o empresário não consegue arcar, além de precisar tirar do próprio bolso o valor restante para pagar o salário integral. Os donos dos negócios já precisam lidar com as perdas e com o faturamento deficiente. Observando pelo lado lógico, sairia mais barato demitir e é exatamente o que não queremos”, afirma.

O cenário difícil do mercado de trabalho no delivery no Rio Grande do Sul também fica claro com os dados apresentados por uma pesquisa realizada pelo iFood, mostrando que 1.308 entregadores deixaram de logar no aplicativo entre 21 e 27 de maio, e 2.200 restaurantes não registraram pedidos entre os dias 6 e 27 do mesmo mês.

A pesquisa indicou outra preocupação para os donos de bares e restaurantes no processo de recuperação de seus negócios: 62,5% dos respondentes estão com dificuldade de acesso ao crédito. A situação se revela ainda mais alarmante considerando que para 64% dos empreendedores os custos para a retomada das atividades será de até R$ 500 mil, e 25% dos negócios ainda não conseguiram reabrir suas portas.

“Desde o início estamos pedindo acesso ao crédito com juros subsidiados, mas não é isso que recebemos. O que veio foi o Pronampe, que até certo ponto, vem com redução de juros, mas muitos não estão conseguindo acesso. As linhas de crédito estão começando a ser operacionalizadas agora, depois de quase 50 dias do início das enchentes. Nós precisamos de ações mais efetivas. Precisamos de crédito no mercado, e com maior abrangência”, aponta Tartoni.

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