Pandemia deteriora o mercado de trabalho na América Latina

São esperados mais 11,5 milhões de desempregados até fim do ano, elevando o número a 37,7 milhões na região.

Conjuntura / 12:22 - 25 de mai de 2020

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A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgãos da ONU, divulgaram nesta segunda o relatório conjunto "Conjuntura Trabalhista na América Latina e Caribe. O Trabalho em Tempos e Pandemia: Desafios frente à Enfermidade por Coronavírus (Covid-19)".

Segundo Vivaldo José Breternitz, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo e professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie, "o relatório não traz boas notícias: são esperados mais 11,5 milhões de desempregados até o final deste ano, levando esse número a 37,7 milhões na América Latina e a taxa de desemprego a 11,5% - no Brasil já é maior. Esse aumento é reflexo da queda do PIB neste ano, que deve chegar a 5,3% na região; é a pior queda desde 1930, quando da Grande Depressão. Também se espera uma queda na qualidade do emprego, aumentando o número de trabalhadores informais, que já são 54% na região, concentrados entre a população mais vulnerável. Também haverá uma queda no volume de horas trabalhadas, atingindo cerca de 32 milhões de trabalhadores - é mais redução de renda."

Segundo ele, todos esses fatores farão a pobreza extrema aumentar em 2,6% e a pobreza moderada em 4,4% em relação a 2019; o Banco Mundial define pobreza extrema como viver com o equivalente a menos de um dólar por dia e pobreza moderada como viver com o equivalente a mais de um e menos de dois dólares por dia. Se isso acontecer, e é provável que aconteça, a pobreza afetaria 34,7% da população latino-americana (214,7 milhões) e a pobreza extrema 13% (83,4 milhões) - quase a metade da população total da região.

O relatório prevê um futuro difícil para o mercado de trabalho na área, com recuperação bastante lenta dos empregos perdidos, para o que são necessários investimentos visando aumentar a segurança dos trabalhadores e melhorar os níveis de educação e formação profissional. Na apresentação do relatório, as Nações Unidas apontam que apesar de todos os problemas, a crise está começando a forjar mudanças no mundo do trabalho que serão permanentes, avançando-se em direção a um "normal melhor" com mais formalidade, equidade e diálogo.

Já pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em parceria com a Konduto apontam que, com a pandemia, o comércio eletrônico no Brasil. Outros setores como farmácias, serviços ligados a saúde, brinquedos, pijamas e itens relacionados ao trabalho remoto também tiveram crescimento e até chegaram a abrir novas oportunidades de emprego, desde março de 2020 as áreas da saúde, supermercados, farmácia e logística tiveram mais vagas de emprego, segundo pesquisa realizada pela empresa Catho.

De acordo com Ariane Marta, contadora e diretora da Brascont Contabilidade, os setores menos prejudicados durante a pandemia foram os essenciais, porque conseguiram continuar com sua rotina de trabalho.

"Os segmentos ligados a saúde e alimentação foram os mais beneficiados com o aumento da demanda. Na sequência vem aqueles que já trabalhavam sem o atendimento presencial, como lojas virtuais, produtos digitais, tudo isso que já era digital ou restaurantes que já viviam de delivery tiveram crescimento. O consumo de quem está em casa com compras virtuais aumentou, pelo menos no começo do isolamento social" acrescenta.

A especialista também alerta sobre outros setores que vão precisar se reinventar e lutar para se recuperar.

"Os mais atingidos são os que não estão conseguindo manter o funcionamento do comércio nesse período, como restaurantes que não trabalham com delivery, ou o comércio varejista, hotéis, turismo, eventos, entre outros negócios que ficaram totalmente parados. Uma das soluções para a recuperação é usar o máximo de financiamentos possíveis liberados pelo governo, como linha de crédito, BNDES, adiar os impostos, renegociação, analisar e levar em conta as MP trabalhistas. Tudo isso deve ser levado em conta para aumentar a vida do caixa da empresa. Não é de uma hora para outra que os shoppings, bares e restaurantes vão abrir, isso não vai voltar tão cedo. Por isso as medidas relacionadas ao fluxo de caixa, controle financeiro, avaliação de crédito entre outras, devem ser levadas em consideração", revela Ariane Marta.

 

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