Para driblar IR, empresas privilegiam Juros sobre Capital Próprio

Estatais como Sabesp e Copasa pagam 100% em Juros sobre Capital Próprio; no setor bancário, 80% é pago sob forma de JCP

406
instalações da sabesp com cartaz sobre qualidade da água
Sabesp (foto reprodução Facebook)

Por Gilmara Santos, especial para o Monitor

O ano de 2023 guarda grandes semelhança com o período de pandemia, pelo menos no que diz respeito à elevação do uso de Juros sobre Capital Próprio (JCP) pelas empresas para melhoria de resultado líquido e economia de impostos.

Apesar de o governo se mostrar publicamente contrário e buscar uma revisão ou até extinção do uso deste mecanismo nas empresas privadas para elevar a sua arrecadação, as estatais atualmente são as que mais distribuem seus proventos utilizando a modalidade, conforme levantamento realizado pela plataforma Meu Dividendo.

“O mercado de dividendos passa por grandes transformações. São evoluções, como a ampliação do conhecimento dos investidores sobre o tema, novas empresas que despontam na lista de grandes pagadoras de proventos”, diz o CEO e cofundador da plataforma Meu Dividendo, Wendell Finotti.

Espaço Publicitáriocnseg

“Ao mesmo tempo, estamos em um momento de desafios e isso se reflete na regressão em alguns aspectos, como a ampliação dos prazos de pagamentos e o pagamento indiscriminado por meio da modalidade Juros sobre Capital Próprio”, completa.

tabela com jcp
Tabela com JCP (elaboração Meu Dividendo)

Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, explica que ao longo de 2023 observamos um alongamento nos prazos entre a Datacom (prazo máximo para adquirir as ações e obter o direito de recebimento dos dividendos) e a Data de Pagamento e, em paralelo, vimos a distribuição de proventos por meio de JCPs alcançar quase 50% do volume total de proventos distribuídos.

“Ao distribuir recursos por meio de Juros sobre Capital Próprio, as companhias conseguem reduzir a base de cálculo de incidência de Imposto de Renda atribuído às suas atividades operacionais e financeiras, e, dessa forma, são capazes de reduzir a queima de caixa, transferindo o peso do tributo para o investidor final”, diz Belitardo.

Dentre as principais razões para o aumento dos JCP próximos aos vistos durante a pandemia, o especialista destaca:

  • Frequentes cenários de estresse na curva de juros e ciclo lento de queda na taxa Selic resultam em saídas de caixa elevadas com as atividades financeiras por parte das companhias.
  • Pressão negativa na moeda doméstica devido ao menor diferencial de juros para a Renda Fixa Brasil, quando comparadas às taxas de juros de países desenvolvidos, com câmbio forte.
  • Potencial escalada da inflação em 2024, com o ajuste no ICMS da gasolina, diesel e gás.
  • Potencial extinção do JCP, sem resistência no Congresso.

A concentração de JCPs encontra-se no setor bancário, onde a modalidade de distribuição ultrapassa os 80% do total de proventos distribuído pelos bancos, com o Banco do Brasil liderando a mudança entre os bancos.

Prazos de pagamento de JCP e dividendos aumentam

tabela de prazo de pagamento de proventos (dividendos e jcp)
Tabela de prazo de pagamento de proventos (elaboração Meu Dividendo)

Ainda na comparação com o momento de pandemia, as empresas começaram a segurar o pagamento de dividendos por um período maior. O levantamento da Meu Dividendo mostra que, nos anos seguintes, os prazos começaram a diminuir. Em 2022, a média para os pagamentos foi de 55 dias. Já em 2023, os prazos estão voltando aos mesmos patamares de 2020.

De acordo com a plataforma, a extensão dos prazos afeta os investidores, com uma forte desvalorização de seus proventos, já que, com exceção do BB, não há correção monetária dos valores. O prazo médio de 117 dias (cerca de quatro meses) registrado em outubro é o mais longo dos últimos seis anos.

Leia também:

Siga o canal \"Monitor Mercantil\" no WhatsApp:cnseg

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui