Parceria forçada

O ataque do presidente FH ao Congresso no mesmo em que foi divulgada a nova pesquisa CNT/Vox Populi, mostrando que já chega a 65% à rejeição a seu governo, mereceu comentário irônico do deputado tucano Osmar Dias (PR). Para Dias, as críticas foram uma tentativa de FH tentar dividir com o Congresso o preço da impopularidade.
Quase lá
O aumento da impopularidade de FH ameaça transformá-lo num Buarque Chico, ou seja, uma unanimidade às avessas do que já foi o compositor hoje criticado pelo ressentido tucano.

Promoção
A Caixa Econômica entrou no esforço de marketing do Governo para tentar mostrar que os juros estão baixando. As reduções, porém, são tão tímidas que equivalem a dizer que quem estava se afogando numa piscina de oito metros de profundidade agora pode respirar aliviado – a piscina passa a ter apenas sete metros e meio. O crédito pessoal, que tinha juros entre 4,10% e 5,05%, passou para 4,10% a 4,90%; no cheque especial as taxas “despencaram” de 7,50% a 8,50% para 6,70% a 8,50%; no empréstimo para capital de giro os juros passaram de 3,90% a 4,55% para 3,60% a 4,30%; pior ainda no cheque especial empresa: redução de 7,00% a 7,50% para 6,9% a 7,50%. Estas taxas, convém lembrar, não são anuais, em que uma queda de meio ponto percentual seria significativa; são juros mensais.

Aos fatos
Os que alegavam ser improcedente o pedido de abertura de processo contra o presidente da República por improbidade já têm tal fato. Basta ler, na última edição da revista CartaCapital, a matéria de capa sobre a privatização do sistema Telebrás, na qual é relatada a tentativa de varrer para debaixo do tapete um débito fiscal superior a R$ 1 bilhão e constituído integralmente durante o primeiro mandato de FH. As participações dos personagens estão determinadíssimas.

Sugadouro
A comparação dos investimentos diretos no país com a remessa de lucros, royalties e dividendos revela que, além da transferência do poder decisório e da renúncia ao desenvolvimento de tecnologia própria, a remessa de capitais ao exterior ameaça engolir mais rapidamente o dinheiro internalizado no país do que poderiam supor os críticos do tucanato. Nos últimos 12 meses, ingressaram no Brasil, segundo neoliberais otimistas, US$ 30 bilhões. Como a maior parte desses dólares se destina à compra de ativos já existentes, privados e públicos, a remessa de lucros saltou de US$ 700 milhões, em 94, para US$ 7,7 bilhões, em 98. Como os próximos anos devem registrar o crescimento das remessas de lucros para as matrizes, não é difícil calcular o aumento da pressão desse item sobre a balança de pagamentos.

Paralisia tucana
A abulia do governo FH atingiu fortemente o segundo e terceiro escalões. São cada vez mais preocupantes os sinais de paralisação da máquina administrativa. Diante da inapetência dos chefes, vários funcionários dos escalões intermediários estão se limitando ao feijão com arroz. A comunicação com as chefias exclusivamente por memorandos está virando praxe.

Preço a pagar
Desde a era Collor até o primeiro longo ano do segundo mandato de FH, o Brasil recebeu empréstimos de US$ 140 bilhões. Os dados são da economista Maria da Conceição Tavares, que faz questão de ressaltar que a esmagadora maioria desses empréstimos foram feitos ao setor privado. Somados aos US$ 40 bilhões liberados pelo FMI, têm-se US$ 180 bilhões num período de quase dez anos. “O preço disso foi a explosão da dívida pública, que saltou de R$ 60 bilhões para R$ 500 bilhões”, compara Conceição.

Defensiva
A maré mudou. Antes arrogantes e autosuficientes, os defensores da política tucana estão sendo obrigados a sair para o debate, tentando responder a propostas feitas por economistas do porte de Celso Furtado ou Luiz Gonzaga Beluzo. Acostumados ao pensamento único, faltam aos neoliberais argumentos, o que acaba levando a uma análise simplista ou a divulgação de dados de origens desconhecidas. Nesse ritmo, vão acabar conseguindo provar que a estatística é a arte de mentir usando números.

Indecisão
O presidente FH disse ontem, no seu longo e maçante discurso na abertura da Abras 99, no Riocentro, que “o povo não aguenta mais indecisão”. E reforçou quem enxergou na declaração uma autocrítica inconsciente: “E a indecisão não é do presidente da República.” Completou, quase se defendendo: “É de quem não aparece no Congresso para votar nem diz ao povo porque não vota”. Como o Governo aprovou, com métodos vários, o que quis no dócil Congresso, a frase de FH parece  mais uma tentativa de se esquivar do recorde de impopularidade, confirmado pela pesquisa da CNT/Vox Populi.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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