Partem Martha, Itamar, Villar e Bivar

Por Paulo Alonso.

Opinião / 17:05 - 9 de jul de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

O mês de julho nem começou, mas já deixou saudade em muitos brasileiros. Partiram, nos primeiros dias deste mês, a estonteante Martha Rocha, cuja beleza, simpatia, carisma e afabilidade foram características dessa baiana, nascida em Salvador e que, em 1954, foi eleita a primeira Miss Brasil.

Outros que deixaram a dramaturgia mais pobre foram Leonardo Villar, ator dos mais consagrados e que, em seu primeiro trabalho no cinema, abocanhou a Palma de Ouro, no concorrido Festival de Cannes, na França, em 1962, sendo o único filme nacional até os dias atuais a receber prêmio tão importante nesse festival; e Antonio Bivar, ícone da contracultura, e que deixa marcas em cantoras, como Maria Bethânia e Rita Lee, pela direção de seus shows, e no punk brasileiro.

Artista multimídia, atuou em muitas frentes da cultura nacional. Ou da contracultura, universo ao qual sempre esteve associado esse genial diretor, produtor musical, dramaturgo, roteirista compositor, biógrafo, jornalista, escritor, tradutor e ator.

Também partiu o talentoso e versátil José-Itamar de Freitas, que assumiu, convidado por Boni, a direção-geral do Fantástico, em 1977, quando o programa tinha apenas quatro anos de idade, ficando no cargo até 1991. Essas quatro personalidades da vida nacional pontificaram durante décadas no cenário da cultura brasileira, promovendo todos eles, com raro brilho e muito talento, momentos de glórias e de entretenimento.

Conhecida e reverenciada pela delicadeza dos gestos, pelo sorriso largo, pelos belíssimos olhos azuis e pelo corpo escultural, Martha Rocha foi, como disse a atriz Vera Fisher, Miss Brasil 1969, a Rainha das Misses Brasil. Depois de ganhar o concurso de Miss Brasil, aos 18 anos, Martha viajou aos Estados Unidos, a fim de participar do concurso de Miss Universo, ficando em segundo lugar e perdendo o cetro para a americana Miriam Stevenson.

A história das duas polegadas foi uma invenção do jornalista João Martins, da revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro, para consolar o orgulho brasileiro com a perda do título. A própria Martha autorizou a versão, conforme consta na autobiografia, mas ela própria dizia que essa história não era verdadeira, pois “nos Estados Unidos, nunca ninguém me tirou as medidas”, divertia-se.

No ano seguinte à conquista do título, Pedro Caetano, Alcyr Pires Vermelho e Carlos Renato lançaram uma marchinha de Carnaval onde se cantava: “Por duas polegadas a mais, passaram a baiana pra trás/Por duas polegadas, e logo nos quadris/Tem dó, tem dó, seu juiz!”.

Martha Rocha viveu uma vida de luxo e sofisticação e morava em uma belíssima cobertura na Avenida Atlântica, em Copacabana. Foi lá justamente que estive em numerosas ocasiões, entrevistando-a, assim como em vários eventos. Carinhosa e terrivelmente bela, Martha seduzia com seu olhar cândido, terno e profundo. Foi casada duas vezes, o primeiro com Alberto Piano, que faleceu pouco tempo depois do casamento, deixando dois filhos; e, anos mais tarde, com Ronaldo Xavier de Lima, com quem teve uma filha.

A vida de celebridade mudaria radicalmente, a partir de 1995, quando perdeu todas as aplicações, com a quebra da Casa Piano, administrada por seu cunhado, Jorge. A partir daí, dedica-se às artes plásticas, pintando telas e recebendo cachês para participar de programas de televisão e propagar os concursos de Miss.

Não conseguindo se manter no Rio, foi morar em Volta Redonda, onde viveu por 12 anos, e, nos últimos seis anos, passou a residir em Niterói, onde morreu. Lá, sem condições, teve de ir para um abrigo de idosos. Foi acompanhada, nesse final de vida, pelos dois filhos homens, e precisou entrar na justiça, em ação movida contra a filha, para que ela lhe ajudasse monetariamente a sobreviver. Uma triste história de vida passada por uma Deusa da beleza nacional.

O talentosíssimo José-Itamar de Freitas, que, com imensa criatividade, lucidez e inteligência rara, dirigiu o Fantástico, fez com que o programa se tornasse uma bela revista eletrônica. Em sua despedida, Boni falou: “Nós imaginamos o Fantástico, um mosaico. Que tivesse todas as coisas da TV Globo, e o melhor da TV Globo. Era um formato inédito no mundo. Cada pessoa do elenco apresentava uma matéria.”

E José-Itamar, com muito comprometimento, fez com que esse programa, que já atravessa décadas de sucesso, pudesse inovar e se atualizar. Outra marca de José-Itamar eram os textos emocionantes que ele escrevia para o encerramento do Fantástico. Marcou momentos importantíssimos para o entretenimento nacional e deixa sua marca registrada na televisão brasileira, por sua importância e alto grau de profissionalismo.

A morte de Leonardo Villar fez os telejornais destacarem seu papel mais importante no cinema, Zé do Burro, protagonista de O Pagador de Promessas, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro, em Cannes. A estreia de Leonardo Villar aconteceu, em 1965, na novela A Cor da Sua Pele, da TV Tupi. Interpretou Dudu, par romântico de Clotilde, vivida por Iolanda Braga, a primeira atriz negra a protagonizar um folhetim na televisão brasileira.

Procedente do lendário Teatro Brasileiro de Comédia, o jovem ator chamou a atenção pelo talento e por sua beleza. Em 1972, ele enfrentou uma missão difícil. A apenas 28 capítulos do final da novela O Primeiro Amor, o ator principal do elenco, Sérgio Cardoso, morreu de ataque cardíaco. Villar foi escalado para assumir o papel do professor Luciano. Em uma cena icônica, Sérgio Cardoso saiu de um cômodo e, quando a porta foi aberta novamente, Villar surgiu na pele do personagem. Um trabalho penoso ao ator, que tinha sido amigo de Sérgio Cardoso, desde os tempos de TBC. Nos anos seguintes, Villar marcou presença em outras produções de sucesso, como Os Ossos do Barão, Escalada, Estúpido Cupido e Barriga de Aluguel.

E foi esse ator notável que, por diversas vezes, tive a honra e o raro privilégio de estar, em seu amplo apartamento da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Posto Cinco, conversando sobre os caminhos da educação, da cultura do país, das dramaturgias nacional e estrangeira, sobre os seus gêneros preferidos na literatura e, claro, sobre o lendário O Pagador de Promessas, nos deixou. As entrevistas feitas com ele eram profundas, pela sua capacidade de pensar a vida sob os vários ângulos e pela sua visão estupenda de mundo. Um ator genial e um intelectual brilhante.

Revelação do teatro nacional, em 1969, Antonio Bivar sai de cena, deixando marcas expressivas em sua rica trajetória e sempre ao lado de Bethânia e Rita Lee, além de colaborações com Simone. Com Bethânia, a vida de Bivar se conectou em 1973, ano em que o artista concebeu e dirigiu um dos mais espetaculares shows da cantora, Drama – Luz da noite, de moldura teatral. O show mostrou Bethânia dando voz a alguns textos de Bivar, sendo que um deles, A trapezista do circo, atravessou gerações, sendo sampleado por Ana Carolina, na gravação da música Dadivosa (2001), parceria da artista com Adriana Calcanhotto e Neusa Pinheiro.

No embalo da repercussão de Drama – Luz da noite, primeiro show de Bethânia após o antológico Rosa dos ventos (1971), fantástico, Bivar colaborou na direção do primeiro show profissional de Simone. E ajudou Rita Lee a orquestrar o espetáculo Fruto proibido (1975).

Em 1982, Bivar foi um dos organizadores do festival punk O começo do fim do mundo, em São Paulo, principal cidade-sede do punk no Brasil. A proximidade com o universo punk legitimou Bivar a escrever o livro O que é punk? Foi autor de diversas peças de sucesso, como Cordélia Brasil, que lhe valeu o prêmio Molière, de 1970. Participou intensamente da agitação inovadora dos movimentos de contracultura dos anos 60, 70 e 80. Residiu em Londres, onde conviveu com outros nomes da cena cultural, então exilados pela ditadura militar, como Mautner, Gil, Caetano e Leilah Assumpção. No campo da dramaturgia, escreveu obras premiadas como Alzira Power e Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã.

Martha Rocha, José-Itamar de Freitas, Leonardo Villar e Antonio Bivar partiram e deixaram um legado de beleza, inovação, talento e criatividade em todos nós, que buscamos na cultura uma fonte de inspiração para a vida. Seus exemplos, nesse ou naquele contexto, ficarão para sempre registrados, pelas belas passagens que tiveram por aqui. Na partida dessas quatro grandes personalidades, precisamos apenas e tão somente reverenciar o que plantaram e demonstrar nossa gratidão pelo amor, simplicidade, generosidade, talento, desprendimento e ousadia que marcaram suas vidas.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor