Passividade

A passividade com que o Itamaraty aceitou a decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC) de conceder uma compensação de US$ 1,4 bilhão a favor do Canadá contra o Brasil não faz jus ao serviço diplomático brasileiro, que, ao lado do francês e do soviético, já foi considerado um dos três melhores do mundo na defesa dos interesses de seus países.
O sentimento de impotência tipicamente tucano diante do enfrentamento com interesses externos não encontra sustentação nos fatos. Para fazer garantir seus interesses, o Canadá ameaçara retaliar o Brasil com corte de US$ 700 milhões por ano nas vendas de nosso país. Tudo bravata em que só tucano acredita. Ano passado, as exportações de lá para cá somaram US$ 972 milhões, contra vendas de cá para lá de US$ 513 milhões, gerando superávit canadense de US$ 459 milhões. Ou seja, se as ameaças canadenses não fossem meramente virtuais, seriam um tiro no pé, pondo fim a relações comerciais que lhe são extremamente vantajosas.
Outra opção
A passividade diante da OMC sequer é unânime no governo. Há não pouco tempo, o então ministro da Indústria, Francisco Dornelles, acusou a organização de ser composta por “um bando de desocupados interessados em prejudicar o Brasil”. Não por acaso, à época em que Dornelles ocupou a pasta, sua equipe e os rapazes do Itamaraty, comandado por Celso Lafer – defensor da integração passiva do Brasil à globalização – andaram às turras durante as discussões sobre a implantação da Alca.
Ativo
Antes de submeter o país servilmente à decisão da OMC pró-Canadá, o Itamaraty deveria explicar aos brasileiros que fim levaram as sanções adotadas pela organização contra os Estados Unidos, que, alegando “razões ecológicas” taxaram as importações de gasolina do Brasil e da Venezuela. Condenados pela OMC, que considerou sua atitude protecionista, os EUA pediram prazo de 18 meses para pôr a resolução da OMC em prática. Seria uma boa oportunidade para o país saber como a novela acabou e para o Itamaraty aprender como diplomatas norte-americanos defendem os interesses de seu país.
Sem vôo próprio
A propósito, independentemente da posição passiva do governo diante a OMC, o episódio deu nova demonstração dos malefícios da privatização. Toda a argumentação do Canadá contra o Brasil se sustenta nos generosos subsídios de cerca de R$ 4 bilhões com que o governo contempla uma única empresa, a Embraer, privatizada sob a alegação de deixar de viver à custa do contribuinte.

Cassino local
O analista da Click Invest Gabriel Jaffet acredita que a Bovespa precisa de capital estrangeiro para voltar a subir com fôlego. Mas lamenta que bolsa brasileira não atrai mais os estrangeiros dispostos a investimentos de risco, porque a volatilidade que eles querem para operar (e ganhar) já encontram na Nasdaq.

Prevenção
O Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), o Movimento de Cidadania pelas Águas, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e o Greenpeace estão preparando um abaixo assinado a ser encaminhado ao Congresso Nacional e ao governo federal solicitando a apreciação, em caráter de urgência urgentíssima, dos projetos de lei sobre moratória para o plantio de transgênicos. Segundo o documento, o objetivo é “permitir que se pesquise exaustivamente os efeitos dos transgênicos para a saúde humana e animal, bem como para o meio ambiente”, e permitir um amplo debate sobre a conveniência da introdução desses plantios. O documento exige ainda a rotulagem de produtos transgênicos, como determina o Código do Consumidor, e a rigorosa fiscalização das importações.

Ligações
Reportagem da agência de notícias Bloomberg, publicada no jornal The Miami Herald, traz algumas insinuações perigosas para o Banco Central ao comentar as perdas de negócios do banco de investimentos J.P. Morgan & Co. no Brasil. Executivos da instituição, não identificados, atribuem a queda nos negócios ao fato de eles não manterem laços de amizade com o presidente do BC, Armínio Fraga, ou seus principais assessores. “Os concorrentes do Morgan mantêm. O representante no Brasil do Merrill Lynch, Marcílio Marques Moreira, por exemplo, foi quem deu a Armínio seu primeiro emprego no BC, há alguns anos”, destaca a Bloomberg. O J.P. Morgan perdeu para o Merrill Lynch e para o Morgan Stanley Dean Witter – de onde Francisco Gros saiu para presidir o BNDES – a liderança no lançamento de bônus do Brasil. Das cinco emissões no valor US$ 8,8 bilhões, o J.P. não levou nenhuma. Daniel Gleizer, do BC, destaca na reportagem que o banco norte-americano falhou em questões de timing e estrutura. Já o J.P. destaca que lançou sete bônus da Argentina e três do México.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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