Paulo Freire, 100 anos!

Orgulhosa, a pesquisadora apresentou-se assim: ‘A minha tese é sobre Paulo Freire’.

Não sei precisar onde, nem quando, só o quê. Detalhes circunstanciais foram apagados da minha memória. Assistia a uma entrevista de Paulo Freire, quando ele narrou um caso em que foi envolvido. Ele tinha ido ao Chile receber uma homenagem. Na saída da solenidade, um professor anfitrião fez questão de acompanhá-lo ao aeroporto, onde Paulo Freire embarcaria de volta ao Brasil.

Caminhando no salão do aeroporto, Paulo Freire fez um gesto de carinho muito comum entre os homens no Brasil: passar o braço por sobre o ombro daquele que está ao lado. Caminhando, notou que a fisiologia do anfitrião mudara, com uma contração na musculatura. Perguntou então: “Está se sentindo bem? Notei que está contraído.”

Ao que o anfitrião respondeu, pedindo desculpas. É que, no Chile, não é costume este gesto de se colocar o braço sobre o ombro de outro homem, podendo ser visto de forma desmoralizante por outras pessoas. Paulo Freire se desculpou e tirou o braço, não sem uma reflexão silenciosa sobre o tipo de cultura que deprecia um gesto de carinho entre dois homens.

Alguns anos se passaram, quando então ele foi ao Paquistão, também a convite. E um dos anfitriões acompanhou-o ao aeroporto de onde partiria o seu voo. Enquanto caminhavam no salão do aeroporto o paquistanês, fardado e portando um vistoso bigode, como é comum ao padrão de estética masculina daquele país, pegou a mão de Paulo Freire e continuou caminhando.

Lembro-me do bom humor de Paulo Freire em enfatizar que eram mãos dadas com os dedos entrelaçados, até que ele conseguiu enfim se soltar, não sem antes se lembrar do incidente no Chile, há poucos anos e não sem uma reflexão silenciosa sobre o tipo de cultura que repele um gesto de carinho entre dois homens.

 

Mais sobre Paulo Freire

Há, em Nova York, no emblemático bairro do Harlen, um centro engajado na promoção da cultura afroamericana, o Schomburg Center, vinculado à Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL). Apesar da geografia desafiadora, participo da instância consultiva do Centro e, em uma das minhas presenças físicas, fui solicitado a buscar uma parceria entre o Schomburg e uma Universidade brasileira. Procurou-me uma pesquisadora que tem também uma função executiva lá. Orgulhosa, apresentou-se assim: “A minha tese é sobre Paulo Freire.”

 

‘20 de setembro, o precursor da liberdade’

  • “Mostremos valor, constância, nesta ímpia e injusta guerra/Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra/Mas não basta para ser livre/Ser forte, aguerrido e bravo/Povo que não tem virtudes/Acaba por ser escravo” (do Hino do Estado do Rio Grande do Sul).
  • Depois da Ponte da Fanfa, sobre o rio Jacuí, até a Carta de Alegrete, as memórias vivas de Anita e Giuseppe Garibaldi, Bento Gonçalves, João Goulart, Leonel Brizola, Martin Fierro; Barbosa Lessa; Antonio Augusto Fagundes; Universindo Rodríguez Díaz, Lílian Celiberti e tantos mais, guerreiros natos nas lutas por ideais, esta Homenagem.

 

Nem tudo se globaliza

Quais as consequências presumíveis para a Humanidade de dois acontecimentos muito recentes, a Conferência de Durban e o 11 de Setembro de Nova York?

Desde o final dos anos 1980, após a queda do muro de Berlim, o mundo vivia um sonolento otimismo, considerando a suposta impossibilidade de um conflito armado global, diante da capitulação de um das potências polo da guerra fria. No século 21, o conflito armado terá outro aspecto, as ações não são declaradas nem lutadas entre inimigos frente a frente. As responsabilidades não se resumem a conquistar posições, fazer a sua parte, mas fazer o que deve ser feito.

A globalização, de início apresentada como um bem generalizado, nos últimos dias revelou de forma emblemática o seu verdadeiro alcance. O cargueiro norueguês Tampa, com 438 refugiados afegãos e paquistaneses em sua maioria, foi impedido de aportar na Austrália, país sabidamente beneficiado pela globalização. Poderiam ser citados os mexicanos que se arriscam para cruzar a fronteira dos EUA ou os marroquinos que atravessam Gibraltar em frágeis embarcações. Nem tudo se globaliza, portanto.

 

‘O verdadeiro trabalho começa após a conferência de Durban’

(Nkosazana Zuma, Ministra do Exterior da África do Sul)

Semana passada, dizíamos que o conceito de empresa-cidadã é recente. Nesta semana podemos acrescentar que já está gasto. A velocidade das transformações que o mundo atravessa tem essa propriedade – o que nasce e funciona bem já está superado.

A Conferência mundial da ONU contra o racismo, em Durban, África do Sul, teve na sessão de encerramento 99 das 173 delegações de países-membros, significativa amostra das dificuldades verificadas nos debates. As tentativas de transformar a Conferência em um acerto de contas entre o Terceiro Mundo e o Primeiro e de equiparar sionismo a racismo inibiram a possibilidade de estabelecer estratégias efetivas de combate às desigualdades e de promoção dos países da África, onde estão 33 dos 50 países mais empobrecidos do mundo. Estima-se em 23 milhões o número de africanos contaminados pelo vírus da aids, afastados dos benefícios da globalização e da solidariedade.

As possibilidades de diminuição das desigualdades encontram nas políticas afirmativas um foco de debates importante. Uma modalidade de ação afirmativa é representada pelo estabelecimento de cotas de integração social, seja, como se discute hoje, para ingresso em universidades públicas, seja para admissão em empregos. Nos EUA, a discussão sobre o sistema de cotas nas universidades na Suprema Corte durou de 1973 a 1978, o que sugere que poderá durar muito também no Brasil. Antes disso, as empresas que se pretendem cidadãs podem se adiantar.

 

Há 20 anos, na coluna Empresa-Cidadã

Após a Conferência de Durban (12/9/2001)

Fazendo uma breve viagem no tempo para buscar referências capazes de amparar os sistemas de gestão corporativos na intenção de promover a plena inclusão dos negros, os terrenos visitados pareceriam desertos. Faltava muito na metodologia da gestão empresarial, até fazer da luta contra o racismo e o preconceito estratégias corporativas, incluídas nos instrumentos de gestão.

 

Pitorescas experiências derivadas das primeiras apurações do balanço social

Uma das primeiras questões que as empresas pioneiras na divulgação do balanço social enfrentaram foi a inexistência de registros estatísticos a respeito. As informações tinham que ser garimpadas. Em alguns casos, tentava-se lembrar daquele “fulano,” no setor “tal”, outro na operação da máquina “qual” e assim reconstituir de memória o que os registros sistemáticos da organização não consignavam.

Depois, aparecia a dúvida quanto à própria identidade de negro. Algumas empresas alegavam que em muitos casos não era possível identificar quem era negro, tantas as denominações oferecidas (marrom bombom, escuro, moreno etc. etc.). A partir da obrigatoriedade de se informar à Rais, para este contingente das empresas, a dúvida não fez mais sentido; bastava repetir a informação.

Outra preocupação que afligia as empresas pioneiras na apuração do balanço social era a da possibilidade de ser interpretada como manifestação de racismo a própria e simples anotação deste dado em algum cadastro da empresa. Em decorrência, deixava-se de acompanhar e criticar as práticas da empresa junto a este contingente de trabalhadores.

Admissão, qualificação, promoção e remuneração são alguns dos aspectos que as empresas devem monitorar junto ao segmento de trabalhadores negros como forma de contribuírem efetivamente e no seu âmbito de atuação para a equiparação de oportunidades étnicas ou raciais, antes da possibilidade de políticas de ação afirmativa, a exemplo das cotas, tornarem-se realidade.

Voltaremos a Durban.

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

Vinhos do Dão: elegância consistente do Centro Norte de Portugal

Dão Experience apresenta a riqueza de sua vitivinicultura com prova virtual de cinco vinhos premiados.

Eleitores brasileiros no exterior

Por Bayard Boiteux

‘Vices’ assumem e dão show de competência

Por Sidney Domingues e Sérgio Braga.

Últimas Notícias

Reforma da Previdência desestimulou contribuição

Por Isabela Brisola.

Guedes fica mesmo avaliado com nota baixa

Apesar de abrir a possibilidade de aumentar a crise econômica e do desrespeito ao teto de gastos ou outras regras fiscais para bancar medidas...

Ex-ministro de Temer substituirá Funchal

O ex-ministro do Planejamento Esteves Colnago assumirá o comando da Secretaria Especial de Tesouro e Orçamento da pasta. A nomeação foi confirmada nesta sexta-feira...

Receita Federal abre consulta a lote residual de Imposto de Renda

A Receita Federal abriu nesta última sexta-feira consulta a lote residual de restituição do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) relativo ao mês...

Vendas do Tesouro Direto superam resgates em R$ 1,238 bi em setembro

As vendas de títulos do Tesouro Direto superaram os resgates em R$ 1,238 bilhão em setembro deste ano. De acordo com os dados do...