Pedras no caminho da paz

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Frederico II, da Prússia, enfrentou várias guerras na Europa para consolidar seu Sacro Império Romano Germânico, quase nunca de forma decisiva; a maior vitória de sua vida foi no exterior, justamente no Egito dos infiéis muçulmanos, porém sem o uso da força. Pela via diplomática, estabeleceu um acordo com o inimigo e se garantiu o trono de Jerusalém. O Papa, que já o tinha excomungado antes por retardar o início da Sexta Cruzada, voltou a excomungá-lo pelo acordo com os muçulmanos.
Definitivamente, não é fácil romper paradigmas, mesmo para um rei. E por certo, também, para o presidente dos Estados Unidos. Há forças poderosas no mundo que não querem a paz. Do estamento militar-industrial denunciado por Eisenhower, aos atuais neoconservadores que precisam da guerra, ou de sua ameaça permanente, para justificar sua influência política, há toda uma cadeia de interesses em favor do status quo beligerante, tanto no plano material quanto no psicológico.
O maior inimigo da paz, porém, não são os que se apresentam como belicistas. Estes são visíveis e podem ser combatidos e contra-atacados com argumentos razoáveis diante do império das circunstâncias geopolíticas contemporâneas. Contudo, é impossível contra-atacar um cético. Numa dimensão lógica e histórica, o cético parece ter razão. Como um presidente norte-americano quereria a paz, quando o império americano foi construído pela dupla força da economia e das armas?
Já tratei em outros artigos das razões pelas quais é possível sustentar com razoável grau de certeza que a busca da cooperação para superar as grandes crises contemporâneas – da economia, das mudanças climáticas e da geopolítica – ultrapassa o plano moral, e se apresenta como contingência do amadurecimento das forças produtivas em escala planetária. Em outras palavras, a construção da paz não será obra de um líder, mas um líder que luta pela paz é um produto das circunstâncias.
Contudo, a história só marcha por força de decisões, e decisões são tomadas pelos homens. Uma iniciativa de paz tem que ter uma contraparte. Se existe, na presidência dos Estados Unidos, quem esteja sinceramente empenhado na busca da cooperação e da paz, é preciso que seus interlocutores acreditem nisso. Em matéria de economia, estamos falando em G20. Em matéria de geopolítica, os maiores reptos estão dirigidos para Israel e Irã – com o Afeganistão como caso à parte, a que voltarei.
Tão importante quanto a resposta dos demais líderes mundiais a este desafio norte-americano é a resposta do próprio povo norte-americano, e dos demais países, ao que está sendo proposto como nova orientação da política externa dos Estados Unidos. Qualquer pessoa razoavelmente informada sabe que o presidente dos Estados Unidos lidera, mas não manda. Sem uma pressão permanente de uma parte significativa da cidadania por uma diplomacia de paz, o Congresso a bloqueará. E é nesse ponto que os céticos são decisivos: eles ignoram avanços, suspeitam de retardamentos inevitáveis e, com isso, simplesmente desmobilizam o povo!
Nos seus primeiros nove meses de governo, Obama deu um passo inequívoco para o relaxamento de tensões com os russos ao desistir de instalar bases de radares e mísseis na Europa. Isso foi minimizado. Agora está sendo questionado por conta da ocupação residual do Iraque, da lenta desmobilização de Guantánamo e do envio de mais tropas ao Afeganistão.
Contudo, em relação ao Iraque e a Guantánamo, há iniciativas de desengajamento em marcha que refletem uma decisão tomada, sem possibilidade de recuo. Assim, é a questão afegã que parece estar justificando a posição dos céticos: em lugar de acabar com a guerra, Obama parece estar intensificando-a.
Para julgar Obama nesse caso convém se situar na posição dele. Como candidato, ele jamais prometeu acabar com a guerra do Afeganistão sem a segurança de uma vitória contra esse santuário de Osama Bin Laden, protegido dos Talibãs. É preciso considerar que, do ponto de vista de um norte-americano médio, esta é uma guerra justa. O atentado de 11 de Setembro, com mais de 3 mil civis mortos, foi o primeiro e até agora único ataque ao território norte-americano desde a Independência. Deixar esse atentado sem punição seria considerado uma rendição ao terror.
Assim como está sendo impelido para a paz por um conjunto de circunstâncias que obriga à cooperação, Obama está sendo impelido para a guerra no caso específico do Afeganistão. É uma posição incômoda, mas inevitável. O dramático é que o fim pode ser um Vietnã de novo tipo.
A secretária Hillary Clinton, em visita ao Afeganistão, disse que não há combate eficaz ao terrorismo sem combater a miséria e a falta de perspectiva de vida da população. Ela tem toda a razão, sobretudo quando se refere ao terrorismo suicida. Contudo, isso só se aplica aos jovens, às novas gerações. O que fazer com os que cresceram na miséria e, como adultos, vêem no terrorismo um ato de honra na terra, e de glorificação, no paraíso?

J. Carlos de Assis
Economista e professor, autor de A Crise da Globalização.

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