‘Pegadinha’ que envolve os preços de títulos de crédito privado

Capital Research: investidores devem consultar o preço indicativo e a taxa indicativa de debêntures.

Mercado Financeiro / 22:18 - 4 de ago de 2020

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Os investidores que já venderam uma CRI, CRA ou debênture antes do prazo de vencimento provavelmente se surpreenderam com o valor que obtiveram pelos títulos. O tema foi abordado em um novo relatório lançado pela casa de análises Capital Research sobre a “pegadinha” que envolve os preços de títulos de crédito privado no Brasil.

Para Samuel Torres, analista-chefe da Capital Research e autor do relatório, o tema é menos abordado do que deveria no mundo dos investimentos e as corretoras não mostram o preço de todos os títulos de renda fixa porque, muitas vezes, nem elas sabem.

Para evitar surpresa, a Capital Research indica que os investidores consultem o preço indicativo e a taxa indicativa de debêntures, CRAs e CRIs no site da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) sempre que a corretora não oferecer essas informações, pois isso pode ajudar a saber o real valor de mercado dos investimentos.

O relatório ressalta a importância de os investidores consultarem o preço indicativo e a taxa indicativa dos títulos privados de renda fixa que possuem na carteira e explica por que os preços que as corretoras mostram podem não ser exatamente os valores finais obtidos com a venda antecipada desses ativos.

Quando alguém fala sobre o preço de uma ação, o tal valor é simplesmente o último pelo qual ela foi negociada. No caso de um título público, a lógica é a mesma, pois eles são comercializados diariamente. Contudo, o que acontece é que os títulos de renda fixa de crédito privado têm uma liquidez muito baixa e, em alguns casos, nem existe negociação”, afirma Torres.

 

Alternativas

 

Para solucionar o problema, a casa aponta duas alternativas. A primeira é estimar qual seria o preço do título caso ele fosse vendido no mesmo dia (marcação a mercado), o que pode ser feito utilizando os preços de negociação de títulos com características similares, fazendo ajustes conforme algumas variáveis da precificação, como um risco de crédito maior ou menor. “Dessa forma, ainda que a marcação não fornecesse o preço real do ativo, pelo menos daria uma estimativa mais próxima da realidade e ‘em tempo real’, para que o investidor pudesse tomar uma melhor decisão no caso de precisar liquidá-lo antes do vencimento”, afirma Torres.

A segunda alternativa, e a mais utilizada, trata-se da marcação na curva. Nesse método, a corretora calcula o preço do título levando em consideração apenas a taxa de juros contratada no momento da compra, o que é equivalente a considerar que o ativo será mantido até o vencimento. Esse, no entanto, não é o preço real caso seja necessário vender o título, mas sim um preço teórico.

Nesse caso, quanto mais próxima da data de vencimento, mais o preço de mercado (estimado ou não) e o preço teórico se aproximam, mas caso o investidor precise liquidar o título antes, ele pode tanto obter uma rentabilidade superior à prevista naquele momento, quanto simplesmente não encontrar um comprador e não conseguir vender o ativo”, explica o especialista.

O relatório citou um caso famoso envolvendo as debêntures da Rodovias do Tietê, no final do ano passado, ajuda a explicar os impactos que o investidor pode sofrer com essa situação. “Na ocasião, de um dia para o outro, a XP marcou os títulos a zero no extrato dos clientes que tinham o papel, por conta da declaração de vencimento antecipado pelos debenturistas, em função da dificuldade da empresa em realizar os pagamentos”, relata Torres.

Seguno o analista, “quando a corretora coloca no extrato os preços marcados na curva, o investidor fica sem visibilidade sobre as reais condições de seus investimentos e, consequentemente, não tem informações para tomar as melhores decisões. Nesse caso, as dificuldades financeiras da Rodovias do Tietê já eram conhecidas muito antes desse episódio, assim, se esses títulos fossem marcados a mercado desde o início, os investidores já saberiam anteriormente que as condições da empresa e, consequentemente do papel, tinham se deteriorado”.

 

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