Perfumaria

As medidas anunciadas pelo Governo sobre os juros revelam uma única coisa relevante: finalmente, os marqueteiros do Planalto descobriram que satanizar a agiotagem dá mais ibope que prometer o paraíso via desmonte do Estado, ainda que batizando essa via de “reformas estruturais”. Na prática, o fim do compulsório sobre depósitos a prazo põe termo a uma das maiores excentricidades da política monetária do tucanato. É um daqueles surtos de sanidade ao qual ninguém pode se opor.
O resto é perfumaria embalada na última hora. A redução do IOF para empréstimos de pessoa física, de 6% para 1,5%, por exemplo, terá efeito pífio. Quem pagava juros anualizados de 200% para empréstimo pessoal por um mês passa a arcar com taxa anualizada próxima de 150%.
O melhor exemplo para dimensionar o efeito gota no oceano, porém, vem de levantamento da Anefac. O estudo revela que a diferença entre os juros médios cobrados no comércio e a inflação medida pela Fipe chegou a 41.884,84%, entre agosto de 1995 e setembro passado!
Além disso, com a taxa de juros básica em 19% ao ano, qualquer alívio no aperto monetário vai beneficiar essencialmente o sistema financeiro, que terá mais recursos disponíveis para aplicar em papéis públicos, em vez de se arriscar a fazer empréstimos de retorno duvidoso.
A queda da taxa básica continua sendo condição indispensável para estimular a retomada do crescimento e a geração de empregos. Em outras palavras, é preciso virar a política econômica de ponta-cabeça para romper com o paradigma que beneficia rentistas e especuladores, em detrimento da produção.

Defesa
O relator da Comissão Especial da Câmara Municipal do Rio, vereador Otávio Leite (PSDB) se reúne hoje pela manhã no plenário da Casa com os deputados federais Luiz Alfredo Salomão (PDT-RJ), Eduardo Paes (PTB-RJ) e Márcio Fortes (PSDB-RJ). Motivo: traçar uma política comum de atuação em defesa da receita do Município do Rio. A incorporação do ISS ao ICMS poderá resultar, conforme consta na reforma tributária, em sérios prejuízos para a economia municipal, uma vez que o referido imposto é responsável por uma receita anual em torno de R$ 800 milhões.

Índex
A declaração de ACM pedindo a revisão do acordo com o FMI produziu fato inédito. Conhecido “jornalão” que costuma cantar as bravatas do senador em prosa e verso confinou-o a um recôndito canto de página e, para aumentar a humilhação, embaixo de uma foto de Itamar Franco.

Cravo & ferradura
No mesmo dia em que ACM defendeu a revisão do acordo com o Fundo, o ministro da Previdência, Waldeck Ornéllas, afilhado do senador, prestava contas da sua pasta – que controla o segundo maior orçamento do País – a burocratas do FMI.

Alta velocidade
A revogação do Código Nacional de Trânsito ameaça vir sob a forma de camisetas.

Disparada
O risco de uma nova disparada do dólar será debatido pelos economistas Luiz Gonzaga Belluzo (Unicamp), Delfim Netto (PPB-SP), Andrea Calabi (presidente do BNDES) e Winston Fritsch (ex-Banco Central e presidente do Dresdner Bank Brasil), no próximo dia 18, no Seminário InterNews, em São Paulo. Além da questão cambial, o evento, que será realizado no Maksoud Plaza, servirá de palco para o debate sobre a retomada do desenvolvimento e o ajuste fiscal prometido ao FMI.

Pagão
Os amigos que ainda restam ao governador Mão Santa, do Piauí, andam estranhando a ausência de editoriais nas TVs e nos “jornalões” protestando contra o uso de “grampos” para denunciar os porões dos governos. Não precisaria nem, para citar o presidente FH, “ser a favor até demais”. Com 10% da compreensão mostrada pela imprensa “chapa branca” no escândalo do BNDES, a turma do governador e do seu ex-secretário de Segurança já se davam por satisfeitos.

Desmonte
O ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, reuniu-se ontem com o Conselho de Administração da Petrobras a portas fechadas. Na pauta, o início da marcha para transformar a estatal em uma empresa corporation. Como uma das principais características desse tipo de empresa é a pulverização do seu controle, a decisão de Tourinho pode ser mais um passo para preparar a privatização da Petrobras.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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