Caso tivessem renda, 58% dos envolvidos sairiam do tráfico

Questionário ouviu quase 4 mil pessoas em 23 estados

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Corpos no Complexo da Penha, trazidos por moradores, após confronto com a polícia do Rio de Janeiro
Corpos no Complexo da Penha (foto de Eusébio Gomes, TV Brasil, via ABr)

A maioria das pessoas envolvidas com o tráfico de drogas no Brasil declara que deixaria voluntariamente essa atividade caso tivesse condições de garantir sustento econômico e estabilidade pessoal. É o que mostra a pesquisa Raio-X da Vida Real, do Instituto Data Favela, divulgada nesta segunda-feira (17). Segundo o levantamento, 58% dos entrevistados afirmaram que abandonariam o crime se tivessem oportunidade; outros 31% disseram que permaneceriam.

O estudo ouviu 3.954 pessoas consideradas válidas, de um total de 5 mil entrevistas realizadas entre 15 de agosto e 20 de setembro de 2025, em favelas de 23 estados. O questionário contou com 84 perguntas e tem margem de erro de 1,56 ponto percentual, com nível de confiança de 95%.

Motivos para sair (e para ficar)

A abertura do próprio negócio é apontada como o principal atrativo para deixar o crime por 22% dos entrevistados, enquanto 20% mencionam a possibilidade de um emprego formal com carteira assinada.

Os resultados variam significativamente entre os estados. No Ceará, 44% afirmaram que não deixariam o crime, enquanto 41% sairiam. No Distrito Federal, a diferença é mais acentuada: apenas 7% deixariam a atividade, contra 77% que permaneceriam. Em Minas Gerais, 40% disseram que sairiam e 57% que continuariam.

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A remuneração aparece como fator central para a permanência no tráfico. Segundo o estudo, 63% afirmaram receber até dois salários mínimos (R$ 3.040) por mês, e a renda média mensal registrada foi de R$ 3.536. Para 18%, “não sobra dinheiro no fim do mês”.

“A maior parte deles está colocada nas faixas mais baixas de renda, e isso puxa a média para baixo”, afirmou o diretor técnico do Instituto Data Favela, Geraldo Tadeu Monteiro, durante a divulgação da pesquisa transmitida pelo canal da CUFA no YouTube. Ele acrescentou: “Com mais dinheiro, se revela uma grande armadilha, porque, na verdade, o custo-benefício de entrar no crime acaba sendo muito pequeno, uma vez que as pessoas acabam recebendo pouco entrando em uma vida de muito risco e dificuldades”.

Entrada no crime e atividades paralelas

A necessidade econômica é também o principal motivo apontado para a entrada no tráfico. “Exatamente porque recebem pouco dinheiro, essas pessoas entram, por necessidade econômica, acreditando que aquele dinheiro vai ser suficiente para uma vida melhor, e logo descobrem que não é bem assim”, completou Monteiro.

O levantamento mostrou ainda que muitos buscam outras atividades simultâneas para complementar a renda: 36% dos entrevistados afirmaram ter outro trabalho remunerado. Desses, 42% fazem bicos, 24% atuam em pequenos empreendimentos — como barracas de alimentação ou oficinas mecânicas —, 16% têm emprego formal e 14% trabalham em negócios de amigos. Outros 3% disseram atuar em projetos sociais.

Perfil dos entrevistados

Segundo o estudo, 79% dos participantes são homens e 21% mulheres; menos de 1% se declarou LGBTQIAPN+. Entre os entrevistados:

  • 74% são negros;
  • 50% têm entre 13 e 26 anos;
  • 80% nasceram e cresceram na mesma favela;
  • 50% têm companheiro(a);
  • 70% pertencem a religiões de matriz africana, católica ou evangélica;
  • 52% têm filhos;
  • 42% não concluíram o ensino fundamental.

A mãe é citada como figura mais importante por 43% dos entrevistados. Somando avós, tias e companheiras, as referências femininas chegam a 51% dos vínculos afetivos mais mencionados. Para 22%, os filhos ocupam esse papel. Além disso, 84% afirmaram que não deixariam um filho entrar para o crime.

Em nota, o Data Favela destacou que este é “o maior levantamento já conduzido com pessoas em situação de crime (tráfico de drogas) em atividade”, reunindo dados sobre perfil, renda, trajetória, saúde, sonhos e expectativas.

Com informações da Agência Brasil

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